Com uma atitude original e um estilo tirado a papel vegetal dos anos ’80 com uns retoques mais modernos, os Os Capitães da Areia (perdoem-me a aliteração) pretendem desmistificar a Pop nacional e mostrar que também consegue ser divertida. Na 6ª feira deram-nos um vislumbre daquilo que são e apresentaram o álbum de estreia, O Verão Eterno d’Os Capitães da Areia.

Os capitães são quatro. A tripulação, essa, foi feita por mais 5 pessoas, a quem eles carinhosamente se dirigiam como marujos (e marujas, veja-se). Entraram mais tarde do que o combinado, para ver uma casa a meio gás (o que se deve sobretudo ao facto de ser desadequadamente grande para os jovens Capitães) que ansiava o aroma de praia e verão prometido pela banda. Envergavam umas roupas coloridas, a fazer lembrar uns jovens Afonsinhos do Condado com aquele jeito havaiano citadino. Ouve-se um instrumental e vê-se o vocalista a entrar também em palco com uma sombrinha japonesa, azul, ora pois. Abrem com “Capitão Bomba”, música dos primórdios areais, seguem com “Brincos de Cereja” e os “Mistérios da Poupança”, sem que houvesse grande interação com o público.

Param então um pouco e o vocalista troca umas palavras com a plateia – “Queremos instaurar uma nova estação” – e adianta – “Agora vamos tocar uma nostálgica”. A eleita foi “Senhora das Indecisões”, cujas tristezas são varridas por “Mariana Bem-me-quer” e a animada “Amor Exige Propaganda”. O vocalista ia agora ficando mais confortável dentro da sua personagem, mais atrevido e conversador e é neste registo que nos canta “Portas do Sol”. Volta a dirigir-se à plateia, pega na bandeira que enrolava o microfone e avisa-nos “que aquela não é a bandeira de França, mas sim a bandeira náutica dos Capitães da Areia”, anúncio que serve de mote para a fantástica “Bailamos No Teu Microondas”. O público reagiu, cantou e só não bailou tudo o que tinha, porque a seguir veio “Dezassete Anos”, o contagioso primeiro single do álbum.

É numa ode “Às Minhas Dores” que o vocalista foge para o seu encore, deixando-nos com uma das marujas das vozes secundárias a criar um dos momentos altos da noite, coisa que o Capitão Pedro fez questão de agradecer quando de regresso ao palco. Dirige-se novamente ao público num tom desagradável (ouviu-se um uhh generalizado) – “Vocês não me dão alegria!” – explicado a seguir com “Alegria”, uma original dos Heróis do Mar. Seguem-se “Grécia Revista e Aumentada”, a peculiar “Raparigas da minha Idade” e a instrumental “Verão Eterno”, a fazer lembrar uns Best Coast caso não cantassem.

Segue-se o encore da banda inteira e um regresso digno de Twilight Zone, onde vemos os vários Capitães a mudar de posto e a assumirem novos papéis. “A bandeira é mesmo a bandeira de França!” – conta-nos o baixista antes de começar a cantar um “improviso inventado ali nas escadas”.  Cantam “Rapazes de Lisboa”, chamam o Manuel Fúria ao palco e voltam a tocar o single “Dezassete Anos”, desta vez com o vocalista aos ombros do vocalista dos Golpes, cantando pela plateia adentro, momento que de resto se tornou caricato como podem ver pelas fotos.

E foi isto. Um concerto que foi acima de tudo divertido, que nos mostrou uma tripulação competente e capaz de fazer pop tão boa ou melhor que aquela que já se faz (e fez) em Portugal. Há todo um enredo à volta deste quatro personagens que lhes dá uma pinta imensurável, o que aliado à destreza do Capitão Pedro em palco, pode perfeitamente fazer destes Os Capitães da Areia o novo tesouro pop nacional.

Texto: João Pacheco
Fotografias: Miguel Leite

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