O Ivvvo faz parte da nova geração de artistas do Porto e vem hoje ao Musicbox, para o primeiro live act em Lisboa. A entrevista foi feita em plena invicta, com uma conversa relaxada, na esplanada do Café Au Lait,  com três cervejas e sem pressas.

Falámos com um artista que é capaz de fazer mais de um tema por dia, que com 20 e poucos anos formou uma label, a Terrain Ahead, e um projecto pessoal de sucesso. 20 minutos de um diálogo franco, que agora publicamos aqui, assim para aquecer as expectativas para logo à noite.

Tentas esconder quem és, quem é o Ivo?

Não tento, nem tentei. Surgiu naturalmente. Não faço questão de mostrar a minha cara ou de não mostrar, até porque toda a gente sabe quem é que eu sou. Nunca pensei muito, as coisas foram acontecendo e nas primeiras críticas que eram postadas em blogs as pessoas iam falando e criou-se um certo mistério em torno da minha identidade.

Tu fazes a tua própria música, o design e a comunicação em torno do projecto e até tens uma label. Tudo o teu projecto acaba por ser um one man show?

Os meus covers e artworkers faço em dez minutos naqueles programas de free download, colo layers em cima de layers, junto texto e não passa disso. E também não é uma coisa que eu penso previamente.

Mas parece que quase tens uma campanha pensada, uma editora a pensar no teu projecto…

Se calhar tem a ver com a música que eu faço e tudo o que eu vou fazendo em volta disso, desde artworks à maneira como escrevo as coisas, é influenciado por isso. Tento sempre seguir uma linha para que as coisas sejam minimamente coerentes, mas quase tudo surge de forma espontânea. Não é por acaso, mas acaba por ser um bocado por acaso.

E a tua label, a Terrain Ahead, acaba por ser uma continuação dessa linha?

A Terrain Ahead é um projecto que eu tenho com mais dois amigos que também vivem no Porto e são produtores. Já existe há dois anos, mas só nos últimos tempos é que nos temos dedicado mais ao projecto.

E o que têm feito?

Nós já vamos com cinco edições, a última é de um amigo que está a viver em Lisboa, que se chama Myeunoia. Neste momento só estamos a editar a nível digital porque ainda não temos meios para prensar e distribuir. Mas isso é o que vai acontecer num futuro muito breve.

Vendem online?

Os nossos downloads são gratuitos porque é a maneira mais fácil de chegarmos às pessoas. Já temos edições de Purple, Trikk, duas minhas, uma do Myeunoia e temos uma compilação com vários artistas da label.

Como é que olhas para a música em Portugal, queres e pensas que é possível viver da música, principalmente quando se trata de projectos tão específicos como o Ivvvo?

Como é óbvio chega uma altura em que queres continuar a fazer música e é bom teres um feedback. Esse feedback não  é só as pessoas dizerem que gostam, que é importante, mas isso não dá para comeres. O feedback não paga contas.

Há quantos anos levas a música desta forma mais séria?

Em miúdo fazia umas brincadeiras, mas mais a sério foi há relativamente pouco tempo, há três anos. Eu lembro-me que quando comecei a sair e a conhecer pessoas, para além do círculo da escola. Quando me comecei a envolver no meio social, foi quando comecei a sair à noite. E conheci DJ’s, pessoas que já produziam e uma coisa levou a outra. Na altura passaram-me o Ableton Live e foi explorar aquilo até perceber que era o que queria fazer.

Tu para produzir usas só o Ableton?

Uso tudo digital. Tudo. Uso só Ableton e instrumentos virtuais. Eu uso o Korg Legacy e o Albino. Eu não sou muito de ferramentas não perco muito tempo a procurar e uso aquilo que tenho e que me passaram. Eu vejo pessoas com grandes estúdios que não fazem a ponta de um corno e em contrapartida há aí miúdos que com pouca coisa conseguem desenrascar-se. Não é o material que faz a música.

Como é que fazes a diferença com a tua música?

O meu primeiro projecto era basicamente uma manipulação de coisas já existentes. Pegava em temas, samples, processava-os e criava algo novo. Agora com o Ivvvo construo melodias de raiz, saco sempre samples para vozes e maioritariamente escrito por mim à mão, não tenho midi’s, nem controladores. Tenho um teclado que nem sequer uso, escrevo com o rato. Se tu tens uma ideia na cabeça, estás a escrever aquilo que queres, tu não precisas de um teclado. Vais lá clickas e metes as notas que queres.

Como é que tu pensas e crias as tuas músicas?

O meu processo criativo numa altura em que tinha o Ableton, mas não conseguia guardar os projectos. Tinha de exportá-los logo de uma vez. Não dava, tinha uma versão crackada que não dava, ou exportava o tema ou chapéu. Então desde aí que o meu processo criativo é esse, sempre que começo um tema tenho de acabá-lo no mesmo dia. Muitas vezes até tento guardar para o dia seguinte e quando tento pegar na música… Já não dá. O meu último EP “Her” foi feito numa semana, todos os temas.

Fazes um tema num dia?

Até consigo fazer mais. Já devo ter 26 temas lançados. E depois tenho outros projectos, agora estou a entrar num mais techno, chamado UUUU, por influência da label, estou a produzir música mais virada para a pista.

Então não és dogmático em relação aos géneros que te acompanham?

O facto de eu estar constantemente a fazer música cansa, cansa fazer a mesma coisa. Ivvvo é o projecto mais pessoal que eu tenho, é o projecto em que eu dou mais de mim. Mas há dias em que sinto que tenho de ir para outro lado e faço coisas diferentes. Tudo em formato electrónico.

Tiveste formação musical?

Tive algumas aulas no conservatório, de piano, toquei guitarra nos escuteiros, fui escuteiro, toquei naquelas brincadeiras de miúdos, na praia, encontros de adolescente, mas não passou disso. Depois com a experiência e com o tempo que vai passando agarrado ao computador as coisas vão-se tornando mais fáceis.

Disseste que o Ivvvo é o teu projecto mais pessoal, houve algum tema que te tenha marcado mais?

Todos me marcaram de igual forma, apesar de ter sido de EP para EP aquilo que me inspirou foram coisas diferentes, apesar dos meus temas serem sempre sobre amor, sobre relações… As pessoas é que foram mudando (risos). Como os meus temas são tão espontâneos, se calhar não tenho tanto tempo para absorver aquilo que estou a fazer. As coisas que faço são tão puras e sinceras na altura que depois nem tenho aquele tempo para reflectir sobre os temas.

Achas que por isso perduram menos? 

Acho que têm a mesma importância do que os outros, outros temas, de alguém. Simplesmente tem um método diferente e se calhar é por isso que as pessoas gostam daquilo que ouvem, se calhar é por essa sinceridade, por essa espontaneidade.

Será uma fase da tua vida?

Ivvvo é um projecto que tem meio ano e faz parte desta fase, uma fase em que me isolei muito, de muitas coisas e se calhar tenho andando mais tempo concentrado em assuntos em que antes não pensava e de certeza que é só uma fase. Se calhar vou continuar a fazer temas como tenho feito até agora, com  a mesma linha, mesma vontade, mesmo sentimento. Se calhar isso vai acontecer, se calhar não.

Ivvvo vai ser algo de um só tempo e acaba?

Este é um projecto que me tem dado imenso prazer a fazer e ao fim ao cabo é assim que eu consigo fazer transparecer aquilo que eu sou, aquilo que eu sinto e não faz parte dos meus planos, nem de longe, acabar com isto. Faz parte de mim, para já faz parte de mim e enquanto perdurar eu vou aproveitar. O que me interessa essencialmente agora é começar a tocar, vou parar de editar temas e quero realmente tocar.

Há artistas que te inspiram?

Eu não tenho aquela inspiração, banda ou estética. Mas nós ouvimos música e isso influencia-me e ultimamente tenho ouvido muitas coisas editadas pela Triangle e Modern Love e como é óbvio isso tem uma influência grande. Bandas como How To Dress Well por exemplo é uma banda que tenho ouvido.

E artistas hype como James Blake ou Nicolas Jaar também de influenciam?

Gosto imenso de James Blake e Nicolas Jaar. Houve uma altura em que era fixe ouvir James Blake, outra em que já não era fixe, mas óbvio que me influencia, é um génio. E de alguma maneira tudo aquilo que eu oiço, faço e as pessoas com quem estou me influencia.

Tu és do Porto e produzes no Porto. Sentes-te bem nesta cidade, na scene musical?

O Porto é uma cidade de ciúmes. Em que quanto melhor fores e melhor fizeres mais as pessoas te empurram para trás. Claro que há um núcleo grande de pessoas que se apoiam aqui. Mas o Porto, infelizmente, é uma cidade à qual tu ainda não podes associar a movimentos. Por exemplo em Lisboa associas ao Kuduro, tu aqui ainda não tens algo assim. Se calhar tens o Drum’n’bass, mas pensas por causa das festas que aqui há, mas não associas o Porto a uma cena de artistas, enquanto em Lisboa consegues. É falta de ferramentas, estruturas, apoio e depois o que acontece é que os mesmo gajos que tocavam há cinco anos são os que tocam agora. Vai havendo pouca rotatividade.

Há um público seguidor aqui no Porto?

Muito pouco, na primeira noite da Terrain Ahead no Passos Manuel nós tivemos para aí dez pessoas e houve três lives em auditório e dj sets e live act. Em contrapartida na outra tivemos casa cheia. Mas por outro lado também já se começa a notar interesse das pessoas, está a mudar.

Como é que é um concerto de Ivvvo e o que podemos esperar no Musicbox?

Tenho a minha estrutura de Ableton Live preparada e uso MPC ou controlador midi e outro de knobs, para efeitos etc. No Musicbox vou apresentar maioritariamente temas novos!

Entrevista e fotografias: Miguel Leite

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