Os Ornatos Violeta acabam de editar uma box com três discos. Na nossa mão está, de novo, o Cão e O Monstro Precisa de Amigos e com eles um terceiro disco com Inéditos e Raridades. Para falar de Ornatos Violeta é impossível cingirmo-nos ao geral. Ornatos é algo nosso, particular, diferente de pessoa para pessoa. A única história de Ornatos que podemos contar é a nossa. E aqui vai.

Crónica por Miguel Leite

“Está a gravar?”

Lembro-me do dia em que peguei pela primeira vez num disco dos Ornatos Violeta. Estava ao lado de mais uns álbuns e singles, no porta-bagagens do carro do meu pai, que estava parado à porta de uma das incontáveis casas que lhe conheci. Tinha quase 11 anos e na altura interessaram-me mais os cornos do cão e a cor da capa do que outra coisa qualquer. O disco ficou perdido um ano, ao lado das outras promo’s todas que fui recebendo, até que um dia peguei nele por causa de uma miúda que se chamava Raquel.

E ao que eu vejo o tempo não passou e a conversa não pôde ficar para outro dia. É que a minha paixão e história com os Ornatos Violeta é provavelmente igual à vossa.  E começou há mais de dez anos, no primeiro dia com a Raquel, numa tarde, num jardim em que senti pela primeira vez o que poderia ser, ou era, gostar.

A partir daí, a pouco e pouco, fui percebendo o que é que o Manuel Cruz queria dizer quando falava de beijos, líbidos, pouca vontade de entrega e beijos iguais a mil. O “Cão” despertou-me a vontade de andar por capelinhas, o “Capitão Romance” acalmou-me. Naquela altura, se houve alguém que ouvi foi o Manuel Cruz e hoje pego nesta box e ainda consigo ficar parvo com as letras que falavam de bigamia no início… E no fim de chagas e histórias que se ouviram dizer. Abram os corações e sorriam. Hoje é dia de Ornatos Violeta.

 Cão (1997)

 ”O amor é isto e nada mais”

Com este disco comecei ao contrário, pela única, ou quase única música, em que o Manuel Cruz falava de amor e até era no passado. E ouvi aquele tema, Raquel, vezes sem conta até perceber que o “Cão” não tinha nada a ver nem com romance, nem com “Raqueis”. Bastava escolher a primeira música, carregar no play do discman e perceber que a certeza não ia durar. A frase «Adoro a cara dela, quero tê-la numa cama» (“Punk Moda Funk”), antes da “Bigamia”, era suficiente para saber que o que quer que restasse de amor naquelas letras iria perder-se, a pouco e pouco, para o sexo, a incerteza, a febre, a vontade, a carne. «A febre não pára, a fome não pára» (“Bigamia”), As letras, os poemas, falavam da carne e da carne, pela carne. «Eu nem digo. Dou duas sem tirar, quem sabe até tiro antes de acabar» (“Líbido”). E este foi o mote, da rapidez, de viver com pressa, de ter mais do que o que chega, uma maneira de viver que calhou ali tão bem no princípio da adolescência. Ali dei todo o meu sal.

Tinha acabado de entrar numa casa nova na Ericeira. Era o primeiro Verão que vivia depois dos Ornatos terem mudado a minha forma de ver as coisas. Eles foram o meu primeiro romance de Verão, o romance anti-romance, anti-amor. E dava-me pica gritar aquelas músicas no banho e pensar nas miúdas da escola, no tempo infinito que tinha para viver. Havia ali uma explosão de sentimentos, de vontade, de garra quase irrepetíveis. Não sei se aquelas letras terão sido a melhor escola, mas a verdade é foram a que soube melhor.

Ele teve o dom de sussurrar ao ouvido o complexo e gritar o óbvio. Ao mesmo tempo que falava de prazer, lembrava-se do peso das escolhas. «Matei o monstro da monogamia e a minha letra parou na letra S» (“Letra S (parteI)”), provavelmente de solidão. E ali aprendi outra lição. O Manuel Cruz era humano, carnal, fervoroso. Queria ser livre, mas sabia o preço da liberdade. A prisão do amor tinha e tem disto, dá-nos companhia e quem a largou, como ele largou, já todos largamos, enfrenta o travo amargo da solidão. É irónico como ele estava tão certo na altura e ainda o está hoje. Somos todos tão iguais.

Ele dizia que não, mas queria o amor. Mas foi-se deixando, só mais um bocadinho pelas damas do sinal e beijos iguais a mil. Tal como tantos outros, quis só mais um bocadinho, desse sabor da novidade. «Hoje o desejo, amanhã nasce o ódio em mim» (“A Dama do Sinal”). Mas não havia mal, havia sempre amanhã. Ele sabia que nada passava num dia e gostava de estar só, estava bem, seguro. Num dia dava mais um beijo, no outro já não estava. Tinha mulheres, era crítico, sarcástico. Dizia que amor era fácil, bastava dizer o que se queria ouvir. «Mas o calor, que é tudo o que é bom, só acontece quando nada é claro» (“1 Beijo = 1000”). Talvez demasiado objectivo, seco, frio. Talvez a verdade, para uns, para muitos, demasiados.

Se calhar o Manuel Cruz não foi o melhor professor, mas eu próprio fui achando que muito dos “amores” que via eram aquilo e nada mais.  Fruto da negação e do medo da solidão, do querer ser amado e não ter coragem para esperar.  «É liberdade pr’aqui, é liberdade pr’ali. Toda a gente diz, toda a gente quer. Mas querendo ou não, ninguém lhe dá a mão… E todos querem a prisão de uma mulher” (“O Amor é Isto”)». E aqui lembro-me de outros escritores, como Miguel Esteves Cardoso. Que chama as coisas pelos nomes, tal como Manuel Cruz. Que fala em foder e em amor com a mesma humanidade. Que não se põe com rodeios e que um dia disse que já não devia haver quase ninguém que se apaixonasse de verdade. Talvez para isto acontecer seja preciso esperar, como Manuel Cruz talvez tenha esperado, sem estar parado. E onde é que ele estará hoje? Já terá aprendido a amar?

Ele bem queria dar o que nunca tinha dado a ninguém. Passei a sentir um qualquer amor decadente por pessoas assim. Pessoas que, parece-me, têm a coragem de estar sozinhas, não querendo estar sozinhas. E ao mesmo tempo são cobardes, dizem que não querem amar, para não cair. Contradições. Não vão dar e não vão ter a mesma forma de estar, como na “Mata-me outra vez”. E ele também queria estar e voar, mas só até deixar de querer. Ia à rua matar alguém, esperar alguém que não dava para ter. E pensar no dia, que seria em que teria a mulher que queria. E como seria? «Só me agrada ser quem quero, longe de uma falsa situação» (“Débil Mental”). Ao menos isso. «É que eu não sou um débil mental, eu posso estar errado ou ter agido mal. Mas pago o preço que eu tiver de pagar. Se for pra tal… eu sofro só».

A verdade é que com estas brincadeiras vamos todos parar ao mesmo sítios. Esferas, sós, escuras. E quando tentamos, dar-nos ao dia de alguém, à espera de uma luz, a história acaba por ser a mesma e muitas vezes entala-nos, voltando, com chuva (“Chuva”), à letra S. A chuva, que apaga o fogo. Destes temas, finais, do primeiro disco. Que se vão acalmando, até que terminam, desaguam, na “Raquel”. E no amor. No prenúncio de um disco que estaria para vir dois anos depois e este sim, falaria de amor.

O Monstro Precisa de Amigos (1999)

Os dois discos de Ornatos Violeta fizeram sentido porque contam duas histórias diferentes. Há um Manuel Cruz diferente em cada um e há um sentido único nas letras, na forma de estar e de pensar. Um ano depois de ter ouvido pela primeira vez o Cão, saía um disco com o coração, que falava a mais gente e que, em 1999, esteve na boca do mundo. Nascia O Monstro Preciso de Amigos.

“Uma chaga pra lembrar que há um fim”

Antes do fim houve um começo e tudo começou no Verão seguinte, outra vez na Ericeira, na mesma casa. Um ano de vida, de experiências, tinha passado e desta vez o mundo já pesava mais, mas brilhava, brilhava tanto. A Raquel deixou de ser a Raquel, passaram várias caras, várias vozes, até que chega a voz. A voz de sempre, para sempre, aquele sempre da adolescência, que para sempre será. E das caras várias, aparece uma só, que foi ficando dona de um coração que sentia o que Manuel Cruz voltou a saber expressar.

E veio falar-nos de bons amores, de sorrisos, de entusiasmo. Mas também de chagas e dias maus, com frases grandes, que ficam, perduram. Até a própria voz do Manuel Cruz já estava diferente, mais calma, melosa, arrastada, talvez sofrida.

A “Chaga” tem um dos riff’s mais inesquecíveis de sempre. Só a consegui ouvir uma vez ao vivo, num concerto dos Pluto – sortudos os que viram os Ornatos ao vivo. Aqui, neste tema, Manuel Cruz estava magoado, já não falava de  incertezas. Sabia a cara de quem o tinha magoado, quem o tinha rasgado. As certezas têm destas coisas, às vezes antecedem desilusões. E ele não acreditou na altura, tal como eu e muitos de vocês, que não vai haver um novo amor, tão capaz, talvez maior. Não faz mal, é melhor assim e mesmo que haja, será diferente. Nada será igual, nunca nada será igual ao primeiro amor. E nunca nada será igual ao Monstro Precisa de Amigos, um disco eminentemente triste, que nos ensinou a ver o lado claro de um dia mau e nos lembrou que há pessoas, como nós, cujas vidas são marcadas «pela dor de não saber onde dói» (“Dia Mau”).

Este trabalho trouxe-nos músicas mais calmas, mais melancólicas, mas com a mesma humanidade, o mesmo sentido daqueles versos. Como é que eles conseguiram? Fazer aquelas letras, compor daquela maneira? Estas palavras têm peso, bebem-se, entram e transformam-se em calma. Palavras «para ver, para dar, para estar, para ter, para ir, pra ouvir pra sorrir e entrar para rir, pra voltar, a tentar, pra sentir e mudar, pra voltara cair, para me levantar… para nunca mais tentar mentir» (“Para Nunca Mais Mentir”). Tudo é sereno, bonito, neste tema.

E seguimos no disco até que começa a tocar um piano, o inesquecível piano do «Ouvi Dizer». Um tema pintado com a voz de Vítor Espadinha e que mostra que, afinal, os cães também se magoam. O cão transformou-se num monstro e começou a precisar de amigos. Será que tentou ser melhor? Disse que a razão estava cega, que o amor tinha acabado sem perceber. Mas será que se portou bem? Disse que viria lá um homem, que seria como ela. Mas será que tentou? Ele quis pagar de outra forma, mas não conseguiu. A cidade ficou deserta, a casa ficou vazia e o medo da letra S transformou-se na realidade, ora amarga, ora doce, para nos lembrar que “o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura”.

Mas vamos lá lavar a cara de lágrimas, sacudir as mãos e começar a navegar com uma música mais optimista. Que fale de Primavera, sim que depois das tempestades, o sol também brilha, não desanimem, a tristeza também pode ser uma fase, é o que me digo, nos dias cinzentos, de esferas. Embora nunca acredite.

Mas Manuel Cruz acreditava e em “Capitão Romance” cantou-o lado a lado com o Gordon Gano (Violent Femmes), que num esforçado português disse: «parto rumo à Primavera que em meu fundo se escondeu. Esqueço tudo do que eu sou capaz. Hoje o mar sou eu. (…) Por querer mais do que a vida, sou a sombra do que eu sou. E ao fim não toquei em nada, do que em mim tocou.».

E passamos tanto tempo a ser tocados sem notarmos em quem nos toca. E passamos tanto tempo a deixar andar, sem notar. E deixamos tanto tempo o mundo correr à nossa volta, sem que ele nos interesse. E um dia, há alguém que nos pára. E será que o Manuel Cruz parou? Será um homem de um só amor? Será que há um só amor? «Eu jurei quando eu voltar, mais ninguém vai entrar (…) para sempre eu vou esperar por ti»  (“Pára De Olhar Para Mim”). Terá esperado?

“O meu desejo é morrer na paz do teu beijo”

O Monstro Precisa de Amigos, foi no fundo a concretização da operação minimização do ego maximizado, ou “O.M.E.M”. Ele precisava do que todos um dia precisamos. De perceber que há coisas que são só coisas, que há amores que valem a espera, que há coisas que não se fazem, ou desfazem. Talvez o cão estivesse errado, mas teve de sofrer, muito, para perceber que para estar bem é preciso fazer bem. Se não mais do que sós, como na letra S, vivemos sós e com pesadelos. Era o que Manuel Cruz nos dizia, que nada era fácil, nunca tinha sido. Mas que o dia é hoje, mas volta amanhã. Que o mundo nos dá a oportunidade de fazer melhor, optar pelo bem, amar, sem merdas, sem ego, com um bocadinho menos de ego. É que o ego às vezes é tão sedento de si, que se torna autofágico. E quem é que quer ser autofágico? Quem é que quer voltar a estragar o amor por um beijo igual a mil? «E não foi assim que o tempo nos fez e fez assim com todos nós. E não foi assim que a razão nos amou e fez assim com todos nós». (“Coisas”).

Ele abriu a dor de ser quem era, de tudo amar, mas queria mudar. Mudar o tempo, mudar o medo, mudar o erro. Deixar de trincar a maçã, deixar de ceder, deixar de querer ser apenas o calor. Talvez por isso é que este disco é tão completo, fica melhor para o fim, mais verdadeiro e parece quase que deixou de haver solidão e que o amor, a mulher, voltou. «E aparece assim, acendeu-se a luz… Estão vivos outra vez. Se é tão bom de ouvir, vivo para ti, até o nosso amor morrer» (“Deixa morrer”).

Isto das interpretações vale o que vale. Fazemos as nossas, cada um, na nossa solidão. Manuel Cruz disse-nos, em “Notícias do fundo”, que nada ia mudar. «Sinto-te arder no meu fundo. Eu vou estar sempre aqui, nada vai mudar». E cantou, até ao fim desta canção. Até ao final de um disco que não teria sucessor e que ficaria para sempre gravado nos milhares de seguidores, que o ouviram e que, como eu, nunca o largaram.

Inéditos e raridades

“Eu sei, não vejo a luz em mim, tão pouco em mais alguém. Só quis tocar o céu, não quero mal a ninguém”

O inéditos e raridades é a parte mais saborosa desta box. Oferece-nos o closure que precisávamos, deixa-nos seguir caminho. Com a mala as costas e estes discos arrumados no sítio certo. Algum dia teríamos do os deixar ir. Mesmo que para isso fossem necessárias “Dez Lamúrias Por Gole”. «Deus não era isto que eu queria ser. Que o que me deixa mal, é o que me faz viver». É tempo de renascer, de deixar a Marta chorar, que «pior é morrer devagar» (“Marta”). É tempo de avançar. «É que a vida é feita de canções, de épicos refrões».

É tempo de ouvir temas nunca antes ouvidos. De os ouvir vezes sem conta, até voltar a subir à cidade vazia, deixada pelos Ornatos Violeta e que agora revisitamos. Em pequenos passos, em palavras sussurradas pelo Manuel Cruz e que encerram as questões, que um dia teriam deixar de ser questões. O primeiro tema inédito chama-se “Como Afundar”. Começa um violino, é calmo, uma balada. Aqui, Manuel Cruz admitiu finalmente que não ia mudar e que um dia a veria, a sorrir, como que a construir o seu fim. E confessou. «Isso é como afundar nosso mundo em dor e não querer acordar. E tu não vês?» (“Como Afundar”).

Pois, há pessoas que não esperam para sempre. Ninguém espera para sempre. E um dia acaba o último dia, tal com diz a segunda balada, música calma também, por sinal, a “Há-de Encarnar”. «Eu já provei dessa casta, para provar já me basta. Algo em mim há-de acabar» Terá acabado, acabará algum dia?

Caminhamos para o final, de tudo o que os Ornatos quiseram que nós um dia ouvíssemos. Temas, que foram compostos e gravados entre 1999 e 2001. E ouvimos uma primeira versão acústica, a guitarra, a voz de Manuel Cruz, que diz, na “Devagar”, que só quis tocar o céu, sem nunca querer fazer mal a ninguém. A verdade é que houve alguém que deixou de ouvir o Manuel Cruz, num tema de 2 minutos e 22 segundos, também acústico, o herói da nossa história fala de raiva, rancor e ódio. «Esta canção não é para ti. De nada ia servir tentar, tu não ias querer ouvir e eu não ia querer falar» (“Rio de Raiva”).

E tudo acaba na “Pára-me Agora”. Tudo pára aqui. Numa composição que começa com um  baixo acelerado que pinta uma música que parece um qualquer festejo esquizofrénico. Com as palavras «Pára-me agora» repetidas ao expoente da loucura.

Antes de ouvir esta última música, do último disco, da última edição, lembro-me de uma ideia que me atormentou sempre. Manuel Cruz nunca falou exatamente de amor e do presente. Talvez seja esta a verdadeira conclusão que podemos tirar de tudo o lemos e ouvimos, como se de uma narrativa se tratasse.

Em Cão, Manuel Cruz falava de urgência, de querer sentir, do desconhecido. De futuro. Em Monstro Precisa de Amigos, de mundos vazios, histórias passadas, chagas persistentes. De passado.

Ouvimos a última ideia, palavra e oração. E nunca o ouvimos a falar de presente. Do doce prazer de estar contente e satisfeito com a inevitabilidade de um amor simples. E talvez por isso os Ornatos Violeta se tenham calado para sempre. Porque o encontrou.

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