Sabia-se que a casa estava esgotada, neste que era o terceiro concerto do músico Chileno/Americano em terras Lusas. Depois de em Junho do ano passado nos ter presenteado com um dos melhores concertos do ano, onde nos surpreendeu com a inclusão de Carminho no espectáculo, voltou hoje em formato live set paisagístico.

Íamos nós já bem longe da hora marcada e ainda se via gente a entrar, a pôr o casaco no bengaleiro e a juntar-se à farta plateia que enchia o rés-do-chão do Lux. Enquanto começava e não começava, decidi ir buscar uma imperial ao bar. Fila gigantesca, demorada e quase cansativa. Ponho-me a pensar se não faria sentido pedir um copo de vinho branco, para acompanhar os beats gélidos e escuros de Jaar. Estou eu a começar a pedir e ouvem-se as primeiras batidas. Vinha aí a imensidão sonora. No entanto, subia ao palco sozinho, ao contrário da sua última tour (que passou pelo Lux e pelo Meco, a propósito do Super Bock Super Rock) onde se fez acompanhar de três (ou seriam quatro?) músicos.

Atrás de Nico viam-se paisagens, que descreviam em grande parte aquilo que se ouvia através dos gigantescos PA’s do Lux: uma certa calma, muito movimento (ainda que a imagem estivesse quase estática) e cores esbranquiçadas, esbatidas e neutras. A música foi toda ela feito em modo live act, onde o Americano ia alternando a percussão, os bpm’s (a velocidade da música, no fundo) e os sintetizadores a usar. De vez em quando lá se punha com coisas feitas no momento, sobretudo através da voz, mas também através do piano. Isto sem nunca tirar os olhos do portátil responsável pelo act, tendo-se dirigido ao público por duas ocasiões – uma quando voltou para o primeiro encore da noite “Thank You, Thank You Very Much” e outra antes de acabar “This is my Last song, Thank You”.

Há aqui, no entanto, duas perspectivas, a de quem já viu um concerto de Nicolas Jaar e a de quem nunca tinha visto. Para quem era a 1ª vez, Nico deu um grande concerto. Dançaram ao groove gigantesco que a música tem, mexeram os pés com uma força e vontade com que provavelmente já não mexiam há muito e ouviram um autêntico passeio sonoro capaz de derreter até os corações mais frios, de tão caloroso que é. Depois há os outros, para quem esta é a 2ª (ou 3ª) vez que o vêem e acharam o concerto pequeno, insípido e algo enganador. Se da última vez se fez acompanhar de uma banda inteira, cheia de sensualidade musical e com vontade de interagir com a plateia, hoje veio em piloto automático – nunca levantou os olhos do ecrã, nem mesmo quando ambas as mãos agarravam numa garrafa de água, altura evidente de pouca necessidade de concentração.

“El Bandido” Jaar deixou-nos portanto com um travo a agridoce no cérebro. Foi para todos os efeitos um clubbing diferente, divertido e a uma hora em que os corpos ainda diferenciam a combinação de frequências que os percorrem. Mas não passou disso. Um concerto que passará com certeza ao lado dos melhores deste ano. Espero que o futuro nos traga um Jaar mais motivado, comunicador e atrevido, porque este deixou muito a desejar!

Texto: João Pacheco
Fotografias: Miguel Leite

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