1. Quem são os Valter Lobo? Como se conheceram?
Embora já algumas pessoas se tenham referido a este projecto como “os Valter Lobo”, a designação fica pelo singular. Valter Lobo é o meu nome. Pessoal, artístico e profissional, uma vez que na Ordem dos Advogados é este que consta na minha cédula. Assim, não há uma data para o nascimento do projecto. É impossível dissociar as canções do homem. As canções vêm comigo, trago-as nos braços desde que comecei a tomar consciência de quem eu era, do que o mundo é, e da minha relação neste meio.

No entanto, o José Duarte Antunes foi uma peça fundamental na concretização das minhas canções. Já nos conhecemos há algum tempo no âmbito de outro trabalho que ele produziu e em que eu fazia parte dessa banda. Há mais de um ano quando, espontaneamente, mostrei vontade em gravar as minhas canções, ele decidiu ajudar-me, na produção e na parte dos arranjos instrumentais. Também partilhamos o palco nas apresentações ao vivo. Ele é um excelente produtor e também excelente músico.

2. Quais são as vossas referências musicais?
Quanto a referências tenho algumas, no entanto sou pouco ecléctico. Dos artistas que gosto mesmo absorvo-os como um “adolescente fanático”. Cresci a ouvir os álbuns dos Oasis (tenho-os todos originais, juntamente com os cd singles, edições especiais e VHS/DVD religiosamente guardados) e dos Cranberries (devorei centenas de vezes o No Need To Argue). Mais perto da maioridade, os Placebo. Tudo bandas com música triste, nostálgica e deprimente. Com o avançar da idade, a mentalidade também vai mudando. Hoje alimento-me de Ryan Adams, Bon Iver, The National, Damien Rice e outras bandas indie que têm surgido. Mas anda tudo nesta linha. Gosto de singersongwriters, uma voz, uma guitarra, teclados e uns brinquedos…

Do lado nacional, conheço quase toda a música que se tem feito. Gosto muito do David Fonseca e do que ele faz em palco e fora dele. Gosto da parte lírica do Pedro Abrunhosa.

3. O EP Inverno é um álbum muito triste. Os desgostos amorosos dão as melhores letras? Em que se inspiraram?
Não existiram desgostos amorosos da minha parte. A tristeza e melancolia vem do desencanto com o mundo e com os humanos. Tudo podia ser melhor e mais bonito. Há uma falta de afectos gigante hoje em dia. As pessoas vivem perto mas separadas. Não há entreajuda, não há pessoas a convidarem as pessoas a jantar em casa pelo puro prazer de convívio. Há distâncias e invejas. Só olham para o seu umbigo e isto vai contaminando quem se tenta manter saudável.

As músicas são inspiradas neste desencanto e na vontade de libertação. Libertação dos padrões sociais e familiares. Vontade de sermos quem queremos ser. De fazer o que nos realiza, o que nos deixa feliz. Mas isso é um processo muito moroso, triste e arriscado. Eu canto um verso na “Canduras Agruras”: “Ele faz tudo o que sente, entrega-se a um prazer devasso, a afiar pontas de lança.”

4. E porquê um álbum de Inverno quando já toda a gente anseia pelo Verão? Vamos ter um disco mais “quente” daqui a uns meses?
Eu sou uma pessoa que se deixa influenciar muito pelas estações. E também tenho um fascínio pelo inverno e pelo tipo de sensações que ele nos causa. Há mais sentimentos à flor da pele, estamos mais recolhidos e interiorizamos as nossas ideias, pensamentos e sentimentos. É mais produtivo e rico. Estamos mais vulnerávais e sensíveis. Isto por oposição ao Verão, muito mais instintivo e carnal. No verão somos mais “estúpidos”.

5. Como resumem o EP Inverno para quem não o ouviu ainda?
O Inverno é um conjunto de canções carregadas de emotividade. Há doses grandes de melancolia e nostalgia. De vontade de exprimir o que sinto e de transportar as pessoas por essas sensações. Não é música para ouvir numa festa de verão. Deixo um excerto de um texto que fiz há uns tempos: “São sons que se podem ouvir em paisagens bucólicas ou cidades vazias, com uma melancolia acentuada. São sons que se devem ouvir a sós do lado de dentro de uma janela embaciada. Ou com um amor verdadeiro. Sons de leve anestesia e esperança.

5. Para quando um longa-duração?
O Inverno já era para ser uma longa duração, mas havia canções que não respeitavam a mesma linha de coerência. Estas são partes da uma mesma peça. Para já, não sei se vou decidir-me por um longa-duração, se por outro EP, ou se vou lançando uns singles espontaneamente. Quero divulgar coisas num momento seguinte à sua composição. Não acho piada criarmos uma canção em Janeiro e ela só ser divulgada em Dezembro. Gosto do imediato. Prepararei algumas surpresas, isso é certo.

A crítica do EP Inverno pela Punch pode ser lida aqui.

Pedro Lima 

Subscreve a Punch TV!