O dia acordou agradável, solarengo e caloroso. Por isso mesmo, resolvemos ir sentir um pouco da maresia da zona ribeira de Matosinhos antes de nos dirigirmos ao recinto. A decisão fez-nos perder Linda Martini, que pelo que relatam acabou com uma guitarra partida, Hélio a fazer crowdsurf e uma plateia bastante completa para a hora que era. Não enganam, os Linda Martini são mesmo boa música. Quando chegámos ao palco Principal We Trust tocavam as últimas três músicas, sendo que a que nos recebeu era nada mais nada menos que a hit song do Português André Tentugal “Time (Better Not Stop)”. A massa humana ainda estava envergonhada (ou a ver os primeiros jogos do Euro?) e o público presente ainda era parco. Seguiram-se “Swoon” e “This Time the Truth”, aplausos tímidos do público e seguimos para o concerto seguinte.

Sobem agora ao palco ATP os Tennis (sim, nós vemos a ironia!), que surgem um dia antes do programado. A doce voz de Alaina Moore sempre muito admirada pelo marido Patrick Riley no centro do palco, entrega as músicas num registo lo-fi, quase dançável e óptimo para aproveitar a última fatia de luz do dia. Queríamos ainda ir espreitar The War On Drugs, quando o casal de Denver nos presenteia com “Marathon” – tivemos de ficar até ao final da música, é que é mesmo amorosa! Ao olharmos em volta, vemos que ainda não há muita gente a conhecer o palco mais “afastado”, pois toda a imagem nos dava um sentimento de margem de Paredes de Coura, face à toalha estendida e o copo de vinho em punho.

Vamos então até ao Palco Club, os The War On Drugs já estavam a tocar o seu indie rock sonhador, com uma plateia já bem composta (em termos de público para o espaço portanto, não estamos a comparar aos palcos principais). Tocavam “Taking The Farm”,  música ideal para se ir fritar um pouco de olhos fechados, às quais se seguiram “I Was There” e “Best Night”, a faixa que abre o último álbum Slave Ambient. São fofinhos, mas o nosso mood já não era o de música de embalar naquela altura. O look Kurt Cobain moreno de Adam Granduciel (vocalista) faz-nos pensar que isto deve soar a uma coisa muito diferente na cabeça do senhor.

Está na hora de voltar ao palco Principal, onde o senhor Rufus Wainwright vai começar o seu concerto. Vem acompanhado de mais 8 músicos e abre o seu concerto com uma versão coral de “Candles”, num momento tirado a papel químico de uma qualquer igreja. Logo a seguir Rufus começa a sua senda de comentários divertidos e por vezes algo jocosos, como quando anuncia “The Greek Song”, e comenta “Vamos lá todos rezar um bocadinho por eles”, seguido de um pequeno esgar (estaria a referir-se ao Europeu?). O Canadiano teve ainda oportunidade de elogiar a cidade, referindo que teria ido à praia “earlier” e que tinha gostado muito dos surfistas. Oportunamente teatral, Rufus foi-se entregando às músicas de forma feroz e motivada, mostrando que este não era apenas mais um concerto. Houve tempo para relembrar o Pai, em “One Man Guy”, houve também motivos para sorrir e mexer os pés com a feliz “April Fools”. Um carismático e divertido personagem este Rufus. Bom, mas há mais coisas para ver, nomeadamente Chairlift, que já começou há alguns minutos.

Fazemo-nos então ao Palco Club, passamos pela gigante caixa de sapatos da Adidas e ouvimos aquilo que nos parece “Bruises”, o single que pôs este duo de Brooklyn na ribalta back in 2008. Corremos um bocado e deparamos-nos com uns Chairlift em modo quinteto, com a vocalista Caroline Polachek em trajes.. diferentes, vamos dizer assim. A voz soava muitíssimo bem de onde nós estávamos e mesmo nos seus maiores momentos de loucura, a música parecia saída de uma aparelhagem (nomeadamente a altura em que Caroline decide deitar-se no chão para cantar). Foi este o primeiro concerto em que vimos gente a mexer-se, já em modo festarola, que acabou pouco depois com o mais recente single (e favorito da Vodafone FM) “Amanaemonesia”, que pôs todos os conhecedores em êxtase.

Os The Flaming Lips estavam prestes a começar e os Salto (hoje apenas observadores de concertos) confidenciaram-nos que o início ia ser bombástico, “aquilo é para a festa!”. E era mesmo. Conffetis espalhados por todo o lado, uma bola com o vocalista lá dentro a passar por cima do público (crowd surfing dentro de uma bola gigante!) e um feeling psicadélico-bolha de espelhos durante todo o concerto. No entanto, depois da três primeiras músicas, veio um registo mais calmo, em que Wayne Coyne insistia nos seus pedidos de gritos vindos do público e “meteu gelo” na animação. Decidimos então ir ver os outros Lips, os Black Lips.

Chegamos e já vemos toda a gente ao rubro com os Black Lips, indie-punkers naturais de Atlanta a rebentar com os cérebros da massa festivaleira. Foi suor, crowd-surfing e um espírito incrivelmente garage que se viveu ali. Era ver estrangeiros e Portugueses (sobretudo os primeiros) em modo empurrões, cerveja e muita confusão, presenteados com rolos de papel higiénico a sobrevoar o fosso que iam servindo para limpar alguns desperdícios alcoólicos. Ficamos até ao fim, vemos a fantástica reacção à animada “Modern Art” e o final com a sugestiva “Bad Kids” e “Lean”.

Decidimos agora acalmar um bocadinho, comer algo enquanto os Wilco entram no palco principal. Conseguimos ouvir a famosa “Dawned On Me”, mas pouco mais. Acabamos de comer, vamos até Neon Indian ver o que passa por aquelas bandas. O puto Alan Palomo é bom nisto da electrónica pop e sem dúvida que é em formato banda que ele mais se destaca (já que Alan também assina como VEGA). O concerto está bom, não há grandes agitações, nem no centro da plateia e com destaque para a conhecida “Polish Girl”. Tempo de decisões, The Walkmen ou Beach House?

Como não somos muito de malta que anda, preferimos ir aproveitar um pouco a maresia do duo de Baltimore, os Beach House. A organização resolveu pô-los no palco Club, um erro crasso como se percebeu pela afluência que houve neste concerto. Foi ver muitos fãs encostados às bancas da Super Bock, praticamente sem conseguir ver o palco, visivelmente chateados com a situação. Nós pouco ou nada conseguimos furar, apenas o suficiente para ouvirmos “Wild”, “Norway” (muito aplaudida) e um dos singles mais recentes “Lazuli”, retirado do (já) aclamado Bloom. Depois desta, desistimos, porque estava difícil de respirar ali no meio.

Faltava apenas (na nossa adulterada perspectiva) um concerto. O maior do dia. M83, que já tinha estado em Lisboa há uns meses, vinha ainda apresentar o último álbum (que escuso dizer o quão incrível está) Hurry Up, We’re Dreaming. Com um ensemble todo ele vestido a preceito, um elefanto-alien a dar o mote e um saxofonista itinerante, Anthony Gonzalez soube encantar a audiência por vias do single “Midnight City”, “Reunions” e a serpenteante “Steve McQueen”. Sem esquecer as origens, tocou “We Own The Sky” num registo bem diferente do registo do álbum. O concerto pecou no entanto por pequeno, já que foram apenas 45 minutos sem nenhum tipo de encore. A massa que acorreu ao palco principal demorou uns bons minutos a perceber que de facto os M83 já não voltavam e foi claro o desalento na cara dos presentes.

Hoje é o último dia de Parque da Cidade, onde vamos poder ver os grandes The XX e Kings of Convenience (dizem que Erlend Oye já andou por lá ontem em reconhecimento) mas também os ascendentes The Weeknd e Wavves.

Texto: João Pacheco

Fotos: Miguel Leite

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