Temeu-se durante dois dias, chegou a fazer umas gracinhas aqui e ali no dia 1, mas só veio em força no 3º dia. E que força! Por causa da chuva, Death Cab for Cutie teve de ser cancelado, The Right Ons tiveram de tocar juntinhos, longe da parte do palco onde a chuva insistia em cair e o palco Club estava inundado na zona central. A acrescentar a isto, muita gente preferiu ficar a ver o jogo (que entretanto perdemos). Tudo a correr bem, portanto.

O nosso dia começou depois do jogo (não quisemos deixar de ver a bola), com a notícia que além do cancelamento dos Death Cab for Cutie, James Ferraro & The Bodyguards também teriam cancelado porque perderam o avião. Chegados ao recinto, conseguimos ouvir Afghan Whigs ao longe, certamente a encher as medidas de muita gente com o seu rock cheio de soul. A nossa cabeça não estava nem aí, queríamos é ir ver o fenómeno Abel Tesfaye, ou melhor, The Weeknd que fazia assim a sua estreia em terras lusas. E que estreia! Com um portentoso grave e uma dócil voz, o Canadiano conseguiu derreter toda a plateia (aliás, a gritaria feminina era audível a uma considerável distância!). Abriu com “High For This”, passeou-se por “Same Old Song” e preferiu ter o clímax no final com “The Morning”, “House of Balloons” e claro, “Wicked Games”. O R&B enamorado, com uns bpms dignos de uma dança lenta, conseguiram conquistar os inúmeros fãs presentes que não arredaram pé até ao final. Aliás, o coro nas últimas malhas foi delicioso, já que quase toda a gente sabia as letras.

São agora 23h, corremos um pouco para Kings of Convenience, que entretanto tinham começado há poucos minutos. É incrível a cumplicidade que existe entre os Noruegueses e o público Português. Já são inúmeros os relatos de pessoas que viram, cumprimentaram, falaram e conheceram Erlend Øye. Ele faz questão de ir ter com o público, de falar com as pessoas e de conviver um pouco (quem não ouviu a história de um concerto directamente de um barco no meio do Tabuão?). Isto depois é transmitido do palco cá para baixo e o que se vê é uma bela história de amizade, em que o indie-folk da banda acalma, pacifica e entretém os demais. Alguém nos dizia minutos antes que “KOC é a música do amor, da paz, da tranquilidade!” e achamos que não há melhor definição do que esta. Os dois, sozinhos (inicialmente, porque depois juntou-se o resto da banda), num palco tão grande (o principal!), enchem os corações dos presentes e tudo seria perfeito não fosse o volume do palco ATP afectar a calmaria que se fazia sentir. Foi aliás na fatia central do concerto, enquanto tocavam “Failure” e “Homesick” que o vocalista sentiu a necessidade de perguntar se os conseguiam ouvir, num tom de brincadeira, mas também de algum sentimento de impotência perante a constante intromissão do concerto dos Dirty Three. O feeling é bom, mas depois de tanto amor, sentimos a necessidade de um bom soco no estômago. Algo que os Wavves nos poderiam dar facilmente.

Entramos no Palco Club e deparamos-nos com um lago de álcool, lama e chuva no corredor central e os Wavves lá em cima, com o seu espírito punk, decididos em fazer deste espectáculo memorável. Dias antes tínhamos ouvido um outro repórter falar do quão desastroso tinha sido o concerto deles em Barcelona há uns anos atrás, com direito a pancadaria em cima do palco e tudo. Será que iríamos assistir a um novo episódio desses? Aparentemente, não. A atitude estava lá, mas a ser transmitida de uma forma saudável para as colunas, que alimentavam a loucura dos mais “divertidos” festivaleiros num puxa e empurra constante no centro da plateia. O ideal era arranjar umas galochas e ir lá para o meio, porque isto não é música para se ouvir a mexer os olhos. Isto é a banda sonora do crowd-surfing, da moche e da sujidade proveniente do tal lago misturada com o próprio suor. Quanto à setlist, ouviu-se “King of the Beach” (a abrir), “Take on the World” e “Bug”. Destaque ainda para o cartaz junto à grade onde se lia “Weed Demon” (em vão, porque não a tocaram) e para “100%”, uma cover dos extintos Sonic Youth.

Vamos dar uma volta, conhecer umas pessoas, comer umas gomas enquanto fazemos tempo para os Washed Out se arrumarem em palco. Temos curiosidade (alguma, não muita) para ver Ernest Greene e o seu projecto de dream pop/chillwave, mas o concerto no Lux (há algum tempo atrás) deixou um bocado a desejar. Quando chegámos ao Club, vimos uma plateia composta mas sem grandes exageros, numa euforia contida, salvo alguns adeptos mais fervorosos junto à grade. A banda vai entregando o seu melancólico espectáculo sonoro em modo automático, sem grandes momentos de especial importância. Destaque para “Amor Fati” e “Eyes be Closed” a fechar o concerto, esta que foi a altura mais animada de um concerto que está destinado a ser tranquilo, já que a música é propícia a isso!

Chega então o grande concerto da noite, com aquela que era provavelmente a banda mais esperada por maior parte das pessoas, The XX. Num registo monocromático (os próprios ecrãs que vão transmitindo o concerto para os que estão mais distantes do palco estão desprovidos de cor), lá entra a constelação Jamie, Oliver e Romy. É incrível o quão low-profile a banda é, raramente falam para além do estritamente necessário. Mantêm aquela postura de seres quase góticos, frios e serenos, independentemente da quantidade de pessoas que se encontram à frente deles. Minutos antes discutia o quão difícil é explicar que tipo de música fazem os The XX – será indie minimal, será indie pop, será que importa? Provavelmente não. Até porque esta conversa de estilos é completamente alheia a maior parte do público. Os ingleses são bons porque fazem música incrível, com deliciosos pormenores de ritmo, com uma combinação de graves impressionante e uma delicadeza vocal que é desarmante. Ouvimos as músicas do álbum que de tanto rodar nos nossos ouvidos, já conhecemos ao pormenor, mas também as músicas do novo registo, Coexist, que apesar de parecer uma continuação do álbum de estreia, tem detalhes mais dançáveis (como em “Strangers”). Teve piada quando vimos Romy algo surpreendida com a histeria da massa humana que estava perante o palco principal, num misto de alegria e timidez (não fosse toda aquela imagem fria desmoronar), transformado num sorriso que foi impossível de conter. Tempo ainda para um tributo a Gil Scott-Heron, quando a banda toca “I’ll Take Care of You”, tirada do álbum que juntou Jamie XX com o recém-falecido herói do soul e jazz.  Acabam com “Leave” e deixam-nos a sonhar com “Stars”.

Para o ano há mais, garantiu a organização. Nós vamos com certeza cá estar!

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