Chegámos ao segundo dia de festival com as expectativas em alta depois das emoções fortes da véspera. Hoje espera-nos um alinhamento marcado por um cancelamento, uma substituição agridoce (os cabeça de cartaz Florence and The Machine por Morcheeba), algumas estreias em Portugal e o regresso ao passado com maquilhado Robert Smith e a sua banda de culto The Cure.

O Palco Heineken abriu com Lisa Hannigan, e ficou em muito boas mãos. Com dois álbuns editados desde que abandonou a banda de Damien Rice, a irlandesa encantou o muito bem composto palco com o seu sorriso quente e deixando transparecer a sensação que estava surpreendida com a recepção que o público português lhe ofereceu. Apesar de vários problemas técnicos e de som que marcaram a sua actuação, Hannigan nunca perdeu o público e conseguiu uma abertura perfeita para este segundo dia do Optimus Alive. Na retina e na memória ficam dois momentos, uma plateia inteira a cantar o tema “What’ll I Do” e o momento final do concerto, com o teclista Gavin Glass em cima dum banco enquanto Lisa cantava “Knots”.

Após o término do concerto, fomos ter com os portugueses We Trust, encarregues de abrir o palco principal do festival neste segundo dia. André Tentugal e a sua banda tocaram durante cerca de 45 minutos e provaram que existem bandas portuguesas com capacidade para estar no palco principal de um festival com esta dimensão. Cheios de energia, foram inúmeras as tentativas da banda em puxar pelo público que começava a chegar com mais afluência a Algés. Em “Once At A Time”, André Tentugal conseguiu pôr grande parte dos presentes a cantar consigo o refrão, mas o melhor ficou mesmo reservado para o fim, com o tema “Time (Better Not Stop)”. O vocalista português sugeriu à plateia que fechasse os olhos e que se deixasse levar pela música, algo que com todo o gosto aceitámos.

Fomos ver os Noah and The Whale, banda indie formada em 2008 com 3 álbuns lançados. Mais uma estreia surpreendente com canções indie-folk recheadas de sol em sintonia com a belíssima tarde de Algés. Caloroso e vestido a rigor, o vocalista Charlie Fink apresentou o mais recente álbum Last Night On Earth, do qual retirou o tema inaugural “Life is Life”, “Waiting For My Chance to Come” ou o excelente “Give It All Back”. Dançámos também com “5 Years Time”, do álbum de estreia Peaceful, The World Lays Me Down,  “Blue Skies” do álbum de desgosto amoroso entre Fink e Laura Marling The First Days of Spring ou o apoteótico final com ”L.I.F.E.G.O.E.S.O.N.”.

Seguimos para o palco Heineken para ouvir o trio indie-rock de Brooklyn The Antlers, onde já ouvimos o falsete emotivo do vocalista e guitarrista Peter Silberman. Banda dada ao rock apontado ao coração, nocturno e introspectivo, os The Antlers encheram o recinto com temas do último registo Burst Apart debitados com muito reverb e guitarras atmosféricas. Apesar de pouco comunicativos (praticamente só se entusiasmaram com a proximidade ao mar), o colectivo deu um concerto consistente. “I Don’t Want Love”, “Two” ou “Bear” tiveram lugar de destaque. Entre o público Tricky, que tocava mais tarde, dizia com uma cerveja na mão: “These guys are really good”.

Dividimos a nossa atenção entre duas estreias nacionais. No palco principal o colectivo folk-rock britânico Mumford & Sons, no secundário Awolnation, banda popularizada em Portugal com “Sail”, incluída num anúncio da PT. Entre indecisões, resolvemos ver um pouco de tudo. Começamos pelos Mumford. Os londrinos conseguiram criar uma atmosfera bastante intimista e confortável no palco principal do festival, conseguindo cativar o público presente com os seus temas folk com swag (afinal não é todos os dias que vimos um violoncelista com casaco de cabedal) e com os seus esforços para comunicar em português, pedindo a compreensão e desculpas pela tentativa medíocre. Contudo, a nível musical, Marcus Mumford e a restante banda deram um verdadeiro espectáculo, percorrendo a grande parte das músicas do seu único álbum Sigh No More. “Little Lion Man” deu o mote e colocou grande parte dos presentes a cantar e dançar, enquanto que “Roll Away Your Stone” e “The Cave” foram os pontos altos do final de tarde.

Ainda a tempo de apanhar um pouco de apanhar a banda encabeçada por Aaron Bruno que gritava em plenos pulmões para que ninguém esquecesse: “We Are Awolnation. We Are Awolnation. We Are Awolnation”. Ok, já percebemos. Numa misturada esquizofrénica de rock electrónico, power-pop e metal-punk, os norte-americanos movem-se freneticamente num ritmo poderoso de festa da grossa e vocais que trazem à cabeça a raiva explosiva dos Rage Against the Machine. O público pareceu reagir em danças de corpos descontrolados à explosão em malhas fervilhantes como “Not Your Fault” ou “Kill Your Heroes”. Para o final, aquele que todos conhecem, o single recheado de coberturas dubstep “Sail” e um “Freedom” possuído, cantado em crowd surf numa tenda onde não cabia nem mais uma pessoa.

Moorcheeba entrou em palco sem grandes aparatos visuais, muito provavelmente por terem vindo fazer as vezes de Florence & The Machine que tiveram de cancelar à última da hora devido a problemas nas cordas vocais da líder e vocalista Florence Welch. Para os mais desatentos, Morcheeba é uma banda que já tem bastante mais história que os que vieram substituir, mas grande parte do público está mais interessado em mostrar o seu descontentamento através de uma impassividade que quase aperta a alma. Skye lá se vai passeando pelo palco, cantando e saltando (ainda que em saltos altos), tanto quanto pode pelo menos. O seu sorriso é desarmante e a sua voz é absolutamente angelical, o que se ouviu umas vezes melhor que outras, já que o som parecia algo abafado. Abriu com “The Sea”, seguiu com “Friction” e “Otherwise”. Tocou algumas das músicas mais recentes, voltou ao registo de Big Calm e Charango com “Over and Over” e “Be Yourself”, mostrou a sua compreensão para com os presentes que queriam Florence e até cantou um pouco de “You’ve Got The Love”, o que fez com que muita gente passasse a gostar subitamente da banda, pelo menos da simpatia. Depois, como se num gesto de magia, fechou com “Rome Wasn’t Build In a Day” fazendo deste concerto um belo “bitoque” como dizia um atento festivaleiro – simples, honesto e consistente.

Tricky é um dos homens da noite e reuniu uma das maiores audiências. Adrian Thaws já não é o homem que ajudou a forjar as bases do trip-hop. Está carcomido, com a voz gasta, mas a centelha continua lá e deu um concerto impiedoso. Esperava-se que tocasse o álbum de 1995 Maxinquaye na íntegra, mas trocou-nos as voltas. De tronco nú escanzelado, mais uma vez sem Martina Topley-Bird mas com uma vocalista de voz igualmente aveludada, o ícone de Bristol abriu as hostes com uma cover da magnífica Nina Simone, “Feeling Good”, que lançou o mood. Ouviu-se ainda “Really Real” com baixos megalíticos, guitarras a todo o vapor de distorção, fragmentos do esfumado “Karmacoma” e uma versão entorpecedora de “Ace of Spades”, dos Mötörhead, em que convidou fãs para o palco, façanha que se repetiu no final com dezenas de pessoas a dançar em volta do cantor, a segurá-lo em braços como Deus adorado. Tricky criou todo um acontecimento à sua volta, regozijando com o calor do público, com saltinhos de pugilista e pedidos de ovação.

No palco principal, o maior aglomerado da noite para o concerto hercúleo de 36 canções em 3 horas dos The Cure. Um alinhamento competente, sem grandes sobressaltos que emocionou pela herança de uma das maiores bandas da década de 80. É tempo de reviver noites de Verões passados ao som de “Pictures of You”, “Lovesong”, “The Love Cats”, “Why Can’t I Be You”, “Boys Don’t Cry” lançadas como ases certeiros a uma plateia de lágrima no canto do olho.

Era de esperar que estivesse às moscas, mas o concerto de Katy B, a revelação R&B com contornos electrónicos, estava bem composto. A simpática vocalista conquista com aquele ar endiabrado, atitude funky e uma voz cristalina carregada de emoção. Acompanhada de um DJ, um MC, trompete e saxofone, a vocalista londrina fez as delícias da nova geração com a energia infecciosa apontada às pistas da dança do álbum de estreia On A Mission. “Katy On a Mission”, “Lights On” ou “Easy Please Me” foram cantadas na ponta da língua, com espaço ainda para uma viagem no tempo com passagem pelo house anos 90 de Robin S em “Show Me Love” ou uma versão inspirada de “Sweet Dreams” dos Eurythmics.

Deixámo-nos ficar para um dos nossos DJ’s favoritos: SebastiAn. O produtor francês da Ed Banger foi responsável por um dos momentos mais vibrantes da noite, num espectáculo inexcedível de electrónica metálica aliada a mensagem política corrosiva. Às explosões de electro industriais e glitch, juntaram-se imagens das bandeiras francesa e portuguesa entre frames agressivos de guerra, motins, ditadores, abuso policial ou escândalos de Nicolas Sarkozy e Strauss Kahn. Com uma postura inflexível, acendendo cigarro após cigarro, o produtor lançou a histeria com a sua Sebastian Primary Tour. Nós já votámos: SebastiAn para presidente. Na tenda ao lado, numa versão mais quente e em paz com a pista de dança, os ex-LCD Soundsystem James Murphy e Pat Mahoney pagavam tributo à disco music como só eles sabem.

Menos psicadélicos que o costume a banda portuguesa de 95, pôs o palco Heineken a saltar durante uma hora e meia. Com um novo vocalista completamente impossível de compreender e os habituais disfarces, Blasted Mechanism deram show para os resistentes da noite. Aventuraram-se até às quatro e meia da manhã para terminar com a fabulosa “Karkov” que fez o público cair para o lado para terminarem com a terrível e irritante palavra de ordem “Puxa para cima a tua energia!”.

Texto: Pedro Lima, Vítor Gonçalves, Laura Seabra
Fotos: Dumitru Tira

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