∆. Alt-J. De uma ou de outra maneira, oralizados ou escritos por extenso, são o mais recente segredo revelado pela música bretã. Um dos nomes de vanguarda indie que passou recentemente no bem-amado festival dos mal-amados, Milhões de Festa. Tendo ainda Radiohead como grandes bastiões de um dos últimos grandes desafios à pop vindos de Inglaterra, finalmente, entrados os anos 10 – insultem vocês como quiserem esta segunda metade dos 2000 -, o Reino Unido pode começar novamente a ter fé em prata da casa. Por entre coisas recém-aparecidas, de destacar ora a disco groovy de Kindness, com fraquinho assumido pelos 80′s, no seu primeiro disco World You Need A Change of Mind, ora a fervilhante fusão folkrautrock dos Django Django num disco em nome próprio, tudo isto coisas da primeira metade deste ano, que o Príncipe Carlos devia dar graças a deus por terem aparecido.

An Awesome Wave, um dos melhores discos de 2012 à data, traz então Alt-J como uma sublime revelação. Quem diz Alt-J diz um atalho tecla “Alt” + “J”, combinação para fazer um triângulo num computador Mac. Coisa de nerds, possível só em época de tecnologias. Afinal é disso que se trata, quatro jovens estudantes numa universidade de artes em Leeds, o ponto de encontro, já Cambridge o epicentro das suas primeiras gravações. Gus Hamilton encarrega-se das teclas, a dualidade de Gwill Sainsbury tanto lhe dá para o baixo como para a guitarra, o baterista, que em palco não acusou a necessidade dos pratos, é Thorn Green. Além deste trio há Joe Newman, o principal engenheiro da geometria musical do conjunto. Quem escreve, canta e se encarrega também do papel de guitarrista. E é neste cantautor crooner em jeito folk, nas palavras com que preenche as canções, que habita a verdadeira originalidade dos Alt-J. A oscilar na sua elasticidade vocal entre Pecknold e Skinner, com capacidade para vestir canções com um tom quer charmosamente seguro quer frágil de voz arrastada, alcança o estatuto de uma das vozes mais versáteis do momento. Isto é Newman, uma confidência que a música britânica aguardava exibida há já algum tempo. Embora os temas se vitalizem também, em grande parte, com a harmonização das segundas vozes dos restantes elementos.

O formato canção, tão respeitado e cumprido quanto reinventado, triparte-se em vértices distintos. Ouvimos coros a capella que vão beber aos primórdios da folk a serem compassados por beats quebrados de hip hop, caso de “Fitzspleasure” ou em “Tessellate” onde a intimidade de um piano clássico é invadida por pormenores sintéticos escritos em linguagem próxima do dubstep. Sem que nada disto soe necessariamente disforme. Antes pelo contrário. Um universo distante em que as músicas se desenrolam de forma quase progressiva. Um caminho de várias direções a fazer lembrar talvez a última incursão pop exploratória dos Grizzly Bear em Veckatimest. Na balada romântica “Matilda”, há ecos da sensibilidade de Silberman com Antlers nos primeiros passos e em “Something Good”, aí sim, aparecem as primeiras vénias a Radiohead que vêm corroborar as frequentes comparações. Já em “Breezeblocks”, a abordagem à estrutura de canção não os deixa longe daquilo a que soam as diferentes formas dadas ao rock pelos TVOTR. Álbum de inteligência apurada, de maturidade pouco comum de encontrar num disco estreante. Dizia eu que deram concerto no passado domingo – abençoada Lovers & Lollypops que os trouxe ao festival de Barcelos – e que as canções, embora que passadas a papel químico para palco, não deixaram qualquer dúvida sobre a criatividade e qualidade dos Alt-J. Ou dos triângulo, ∆ quero eu dizer, que tanto é um símbolo delta como sinal de mudança numa equação matemática. Isto e o título, An Awesome Wave, são argumentos suficientes para entender um novo olhar sobre a pop, muito além de um simples e ótimo primeiro álbum.

Joaquim Quadros

 

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