Foi com um dia de sol esplendoroso, uma brisa agradável e uma vista da Avenida da Torre de Belém, que merecia uma salva de palmas eterna, que fomos recebidos pela parte diurna do evento. Lisboa é, de facto, incrível. Não foi por acaso que os The XX resolveram escolher a nossa bela capital para dar o pontapé de saída à trilogia dos mini-festivais Night + Day − uma escolha que se revelou perfeita, até no casamento com a meteorologia.

Chegámos já tinha tocado o Xinobi pela primeira vez e já os PAUS teriam feito estragos no palco principal. Estava de novo o Sr. Discotexas a refrescar os mais audazes com as suas selecções directamente do Caribe e da América do Sul, num set curtinho de introdução aos Mount Kimbie. Resolvemos então ir cirandar um pouco pelo recinto, perceber de que era composta a massa humana e se a malta tinha mesmo aderido a este one-day-festival. A resposta foi algo inesperada − sim, aderiram e em grande número. E a julgar pelas filas gigantescas que havia para tudo o que era “comes e bebes”, durante todo o evento, a disponibilidade monetária nunca foi problema. Uma coisa é certa, a crise não andou pelos jardins da Torre de Belém.

Entretanto estava o duo (tornado trio em palco) britânico a entrar em cena, os Mount Kimbie. A dupla que anda em tour a apresentar o novo álbum, Cold Spring Fault Less Youth, do qual consta a fantástica “Made To Stray”, passeou as suas teias melódicas por aquele que foi o maior palco em que já tocaram por terras Lusas. Apesar de terem começado com alguns problemas técnicos, como o baixo que não estava tão alto quanto o desejado ou a voz que parecia não querer dar ares da sua graça, foi na segunda metade da estadia que deram motivos para estarem entre os eleitos. Progressões melódicas desafiantes, nuvens electrónicas que pareciam entranhar no cérebro e uma imposição dançante, ainda que difícil face aos característicos beats fora de tempo. “Carbonated” ainda levantou alguns braços mais conhecedores, mas aquele sol de fim de tarde ainda deixou muitos dos presentes mais preocupados com a cerveja e o trabalho para o bronze.

Seguiu-se Kim Ann Foxman, conhecida não só pela sua carreira de produtora a solo, mas também pelo papel que teve no colectivo Hercules & Love Affair, que devolveu os dancing shoes aos demais, numa altura em que o sol já se escondia por trás das árvores. Set curtinho, sempre acompanhado do host do coreto, Kalaf, que bem ia tentando puxar pelos braços do público. Foi então que entrou John Talabot em cena, no palco principal, acompanhado de Pional, um amigo de longa data, que teria também set guardado para mais tarde. Naquele que foi, sem dúvida, o melhor momento do festival, John Talabot deu aos pagantes motivos de festejo. Electrónica na conta certa, puxando dos galões do live set (não há cá coisas já gravadas) e pondo, literalmente, toda a gente a dançar. Literalmente, porque até Jamie XX e James Murphy apareceram para dar um passo de dança entre os mortais. O momento do concerto ficou guardado para quando Oliver e Romy (The XX) surgiram para cantar uma rendição de “Chained”, revista pelos magos Espanhóis, que deu também o mote para que Jamie se pirasse para o coreto, onde seria o próximo a pôr “discos”.

A semi-euforia já se fazia notar quando o beatmaker britânico subiu para o palanque. Não era o cabeça-de-série, mas era um terço disso. A música passeou-se entre os mais variados estilos, desde o disco até as suas produções com Gil-Scott Heron, numa mistura cujas passagens nem sempre foram bem sucedidas. Mas como diria alguém ao meu lado, “Ele é O Jamie. Ele pode fazer o quiser”. True story.

Seguiram-se os Chromatics, quarteto que ingere doses cuidadosas de calmantes e se atira a um synth-pop instrospectivo e de baixa fidelidade. Depois de terem tocado em Portugal no ano passado, por ocasião do Vodafone Paredes de Coura, os naturais de Portland vieram ainda com o álbum de 2012, Kill For Love, na bagagem, mas tiveram a bondade de mostrar algumas das novas coisas que aí vêm. Como seria de esperar, fizeram parte do alinhamento as conhecidas “Back From The Grave”, “Kill For Love” e a faixa que abre o álbum, “Into The Black”, com menção ao lendário Neil Young, autor da letra. Sem terem feito um espectáculo de especial destaque, mereceram a salva de palmas final, quanto mais não seja pela consistência demonstrada na passagem do estúdio para o palco.

Já se sabia que Pional era menino para saber o que agrada na pista. Foi fácil, portanto, criar empatia com a já farta plateia que se juntava para poder, finalmente, ouvir os The XX. Electrónica de bom gosto (que o diga Kalaf, que não conseguia conter o entusiasmo), adequada à dinâmica do local e na linha do que se tinha passado durante o dia todo. Queríamos ter ficado até ao fim, mas o apelo do palco principal era grande e não queríamos perder pitada do concerto mais esperado da noite.

Sempre com um apurado sentido estético, os The XX subiram ao palco com “Try”, uma das faixas de Coexist, que deu o mote para o que iria ser o resto da noite − uma verdadeira história de amor entre o público Português e o “envergonhado” trio. A palavra aparece entre aspas porque notou-se, logo a partir da segunda música, que Romy, Jamie e Oliver já não são os mesmos tímidos e introvertidos que tocaram no Optimus Primavera Sound. Já há mais dinâmica em cima de palco, mais ginga na maneira como cantam e até momentos de namoro entre instrumentos. Veio “Crystalised”, com floreados dignos de uma actuação ao vivo, “Heart Skipped a Beat”, que arrancou um sorriso aos que viram um decréscimo do álbum de estreia para Coexist e “Reunion”, um dos singles do novo registo. Momento depois, para fugir ao programa e dar um docinho aos mais atentos, “Far Nearer”, um dos singles a solo de Jamie XX, que traz “Missing” debaixo da asa, música que marca nova guinada até ao disco que mostrou os britânicos ao mundo.

“Night Time”, “Shelter” e os inconfundíveis synths iniciais de “VCR” mostram que The XX não é um fenómeno por causa do último conjunto de originais. Aliás, se este alinhamento provar alguma coisa é que de facto nem eles acreditam nisso. You, you used to have all the answers é cantado a plenos pulmões, tão cheios que até há quem fique irritado com a excitação geral, muito mais notada pela brilhante utilização que a banda faz do silêncio. Quem não se pareceu importar foi Sim e Madley-Croft, que após “Closer” e “Infinity” aproveitaram para agradecer a, literalmente, toda a gente que lá esteve a tocar. Muito mais que terem vindo tocar a Lisboa, à Torre de Belém, os meninos vieram dar uma festa àquela que disseram ser “one of our favourite cities in the World”. Foi depois com “Intro”, que funcionou como build-up para “Angels”, a faixa que trouxe o álbum Coexist ao mundo, que a banda começou o encore com que iria fechar o concerto. Perto de uma hora e meia de paixão, lenta e sedutora, com a bela margem do Tejo a reluzir ali ao lado, que até viu o lendário James Murphy tirar-lhe fotos com o seu iPhone topo de gama, mesmo antes de fechar a noite no coreto.

No final, o balanço foi positivo. Localização bem pensada, tempo de luxo e gente quanto baste. Sem atrasos de grande importância ou momentos mortos, o Night + Day foi um conceito que funcionou na parte que mais interessava − a música. Houve, no entanto, uma absurda falha estrutural, já que as filas foram uma constante durante todo o evento e muita gente teve de optar entre determinados concertos e estar numa fila para beber uma cerveja − decisão muito difícil de tomar quando se anda em modo festivaleiro.

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Fotos: Miguel Leite

Texto: João Pacheco

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