Em 2013 Mazgani embala-nos com Common Ground, o seu terceiro álbum que está a ser bem recebido pela crítica nacional e que foi esta noite apresentado ao vivo em Lisboa. E o que se viu na sexta-feira no Centro Cultural de Belém foi um pequeno auditório próximo da lotação máxima. Estranho é o facto de esta empatia não se expandir a um número mais alargado e diversificado de pessoas que gostam de assistir a um bom concerto de rock. Não há muitas razões para explicar que não tenha festivais de verão e mais tempo de antena nas rádios enquanto seus terrenos comuns. E menos ainda porque o concerto a que tivemos o prazer de assistir foi de grande semelhança a um bom espectáculo de estádio, embora em contexto totalmente distinto.

Mazgani CCB

Acompanhado por Vítor Coimbra (baixo e contra-baixo), Nuno Pessoa (bateria), Sérgio Mendes (guitarra) e Margarida Campelo (órgão), o compositor, de origem iraniana, apresentou a maioria das músicas de Common Ground, excepto “A Dog At Your Door”. E se em disco a sua voz é marca registada, inconfundível e assombrosa, ao vivo é uma máquina que nos centrifuga a realidade, pois é difícil acreditar que este músico vive em Setúbal, mas que devido ao seu carácter discreto, poucos são os portugueses, principalmente entre a malta jovem, que têm conhecimento de tamanho talento. Contudo, a julgar pela forma como este álbum foi apresentado, não restam dúvidas de que Mazgani vai chegar a um público mais vasto, a mais e maiores palcos, ainda que paulatinamente como o próprio parece querer.

Mazgani CCB

Para além da voz Mazgani, é possuidor de uma maturidade musical impressionante, ainda que somente tenha editado três álbuns. Ao vivo, mesmo apostando numa vertente bem mais rock em comparação com os discos, conseguiu criar um espectáculo equilibrado, coerente e surpreendente. Não foi assim que começou mas foi desse modo que terminou. No início apostou numa envolvência intimista, explorando as características da sala e a capacidade da sua voz se elevar a única protagonista. Surgiu sozinho em palco e interpretou “Into The River”, de pé e com a sua guitarra. No segundo tema teve a companhia de mais uma guitarra divagante e minimalista, a de Sérgio Mendes. Nestas músicas a voz de Mazgani nem necessitava de um nível tão elevado de amplificação, tal o poder e a perfeição sentidos aquando se afastava propositadamente do microfone. A partir de “Hold Me Awhile” a banda estava completa e o protagonista teve de recorrer à capacidade de adaptação da sua voz à intensidade dos instrumentos em simultâneo, o que se revelou mais um presságio para o sucesso. Ainda assim, e apesar de o single do último registo discográfico, “Distant Gardens”, ter surgido nesta altura, não se pode afirmar que o público já estivesse a desfrutar plenamente do concerto. (Um pequeno parêntesis para dar nota que nestes espectáculos, de apresentação de um álbum, cerca de meia plateia são convidados – familiares, amigos ou jornalistas – o que contribui para mais curiosidade e menos curtição idolatrada). Sentimentos notórios por parte de alguns dos presentes enquanto que do lado da banda havia uma total disponibilidade para usufruir ao máximo. Mas Mazgani soube, na altura certa, perder a sobriedade e libertar-se de algum nervosismo inicial (para o qual também contribuiu uma interferência grave no som no decorrer da terceira canção).

Mazgani @ CCB 2

Calculamos que o público presente tenha apreciado a bateria dócil e deliciosamente enquadrada, as guitarras repetitivas próximas do blues ou o órgão melódico, mas a realidade demonstrou que foi a partir da rebelião de “Rebel sword” e ainda mais de “Wasteland” que o volume dos aplausos chegou ao nível de uma grande noite. Estes dois temas foram tocados com muito mais intensidade do que é comum e com espaço para uma sonoridade bem rock’n’roll. A partir do momento em que o baterista chegou aos pratos, as músicas que se apresentaram de seguida revelaram-se mais pesadas. O próprio Mazgani, sempre que possível, explorou movimentos corporais em jeito de coreografia e transformou-se em rocker. Algumas canções seguiam o seu modelo habitual de composição mas ao aproximarem-se do fim encaminhavam-se na direcção do experimentalismo até às deambulações pelo noise. O ponto alto foi em “Blow Wind” seguido de “Mercy” (do segundo álbum). Mesmo que tenham alternado o ritmo com uma ou outra “balada” (o autor chegou a dizer que estava farto delas), a verdade é que quanto mais próximo do término mais estridente foi o rock apresentado.

Reportagem: Mazgani no CCB

No encore (programado mas também solicitado), dois momentos completamente distintos que resumiram da melhor forma o que é este artista: “Last Words” foi a melancolia arrepiante (e agonizante) que poderia ter provocado o rompimento das veias vocais de Mazgani; e “Strike Your Drum” foi o momento rock’n’roll puro e duro, com prestação no meio da plateia.

Em relação ao jogo de luzes é pertinente referir que ajudou a criar um cenário útil à sonoridade. A única excepção foi, curiosamente, “Blow Wind”, em que houve dificuldade em acompanhar o ritmo.

Mazgani, homem de assaz virtudes musicais, não é homem de muitas palavras. Porém, a sua perspicácia e o seu sentido de humor requintado, disseram-lhe o que fazer para “puxar” por um público que não é composto por muitos fanáticos que o idolatram. E a forma é falar pouco e mais próximo do fim, como agradecimento. Mas, acima de tudo, rockar. Desculpem a repetição, só que é de um concerto de rock’n’roll que estamos a falar. Leram bem, Mazgani e rock’n’roll.

Texto: Rafael F. Vieira

Fotografia: Sandra Gerardo

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