Engane-se quem pensava que os Linda Martini ao assinarem contrato com a editora mainstream Universal estariam a vender a alma ao diabo. Essa ideia não podia estar mais errada, a alma continua lá e mais viva do que nunca. Turbo Lento é-nos apresentado pela banda como o álbum menos óbvio a seguir a Casa Ocupada de 2010, e não é que eles têm toda a razão?

Nunca esquecendo as suas raízes, com um pé no punk e outro no hardcore, os Linda Martini brindam-nos com um disco recheado de razões para continuarem a ser uma das bandas mais queridas e brilhantes do rock alternativo português. Desde o seu início com o intro instrumental em slow motion “Ninguém Tropeça Nos Dias”, que nos consegue arrepiar a espinha (como aliás já é hábito desde de sempre), para a seguir explodirem os amplificadores em “Juaréz”, canção banhada a punk, gritos desenfreados e a sensação de que Hélio Morais está a dar porrada no kit. De salientar também que este álbum, mostra-nos muitas mais prestações vocais que os últimos, em Turbo Lento, a voz de André Henriques ocupa o seu lugar mais do que nunca, no seu timbre ora emocional ora cortante.

“Panteão” e “Pirâmica” são típicas criações linda-martinianas, com estruturas melódicas progressivas a desembocar num êxtase musical que poucos conseguem alcançar com êxito. “Ratos”, primeiro avanço do álbum, é uma crítica social mascarada de metáforas, que fazem ainda mais sentido acompanhadas pelo videoclip realizado por Bruno Ferreira, ah, e tem versos e refrão, coisa pouco frequente em Linda Martini, que sempre nos habituaram a composições pouco convencionais. “Febril (Tanto Mar)” é um cântico desesperado, e muito experimental a nível vocal, com os já típicos coros encarniçados de Cláudia Guerreiro e Pedro Geraldes.

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“Tamborina Fera” segue a mesma linha de “Juaréz”, só que ainda mais rasgada, mais violenta, mais caótica, mais gritada, mais alucinante, o rasgo de hardcore vem ao de cima.
“Tremor Essencial” e “Volta” acalmam o ritmo alucinante deste carrossel de emoções que é mais Turbo e menos Lento, mostrando que ainda há calma no meio do caos, e dão espaço para a poeira assentar.

Turbo Lento é um pedaço de poesia selvagem que honra o legado dos Linda Martini. Que mais uma vez provaram ser capazes de criar música que nos faz sentir coisas. Mais directo ainda que o anterior Casa Ocupada, menos abstracto que Olhos de Mongol e deixa caminho livre para se firmarem de uma vez por todas no panorama musical português.

Nota – 8.0

Ismael Raimundo

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