Não deixa de ser curioso chamar Love Letters a um álbum numa época onde tudo converge para as novas tecnologias. Sugere desde logo que se pretende resgatar os prazeres de utilizar o analógico, incluindo o ato de escrever à mão com caneta e papel, uma arte quase em desuso. Não será de espantar, portanto, a escolha dos estúdios Toe Rag Studios para a gravação do álbum. Estúdio esse composto essencialmente por instrumentos analógicos, e onde já passaram bandas como os White Stripes.

Reconhece-se no 4º álbum dos Metronomy o resgate do romance lírico, como forma de curar uma espécie de ressaca do seu último registo English Riviera. Ao invés de romper definitivamente com a linha condutora do seu antecessor, o novo disco aposta numa produção ainda mais profunda e cuidada. Optar por uma abordagem menos experimental, não significa que as canções de Love Letters se arrastam monocordicamente, como gente lamecha e alcoolizada em bares, em modo de fim de festa. É preciso mestria para combinar a vocação da banda, apostada em arranjos minimalistas, e encontrar elementos que componham brilhantemente os espaços em branco.

Fazer de cada uma das dez canções uma carta de amor requer, no mínimo, uma enorme paixão e entrega emocional, não tanto pela temática do amor per si, mas no tratamento dos temas como se de amor se tratasse. Recorre-se portanto a uma composição mais clássica e tradicional como forma de estruturar as canções, para depois combinar e misturar referências que vão desde os mestres da Soul dos anos 70, passando pelos percursores da Pop mais psicadélica dos finais dos anos sessenta, e até por referências de bandas mais recentes como os Daft Punk.

O tema de abertura introduz desde logo a intenção de recorrer aos instrumentos analógicos como forma de se se implicar visceralmente na canção. “The Upsetter” ondula entre a guitarra acústica e a bateria com batida eletrónica, terminando com um solo de guitarra inspirado na guitarra elétrica latina. O single que anteviu o lançamento do disco “I’m Aquarius” seduz imediatamente com o seu “shoo doop doop ah”, deliciosamente vocalizado pelos coros, numa revisitação kitsh de uma canção Pop Lo-Fi.

Numa abordagem diferente, o segundo single “Love Letters”, arranca desde logo com trompetes, saxofones e trombones, transformando-se numa poderosa caixa de referências luminosas de ritmos soul, evocando memórias da Diana Ross and the Supremes, tornando-o desde logo o momento mais animado do disco.

“Month Of Sunday” é uma surpreendente música post-punk e pro-synth-pop, terrenos familiares aos embrionários New Order. Curiosamente, no alinhamento do álbum, antecede a “Boy Racers”, provavelmente um dos temas mais criativos do disco, ampliando o conceito Funk misturando-o depois com a música eletrónica, recordando bandas como os Daft Punk. Curiosa referência à banda francesa, uma vez que essa mesma inspiração repete-se na música seguinte “Call me”, sendo que por vezes se aproxima muito do registo dos Air. Residem neste tema fortes indícios do efeito que tem a sua residência em terras francesas.

A cultura europeia serve novamente de fonte de inspiração ao revestir “Reservoir” de deliciosos momentos Italodisco. Por sua vez a música barroca é revisitada em “Monstrous”, desmontando o classicismo do género numa abordagem contemporânea, graças à caixa de ritmos e aos sintetizadores.

Se por um lado “The Most Immaculate Haircut” quebra a abordagem mais criativa enquanto canção, por outro desvenda a vertente mais plástica da banda ao serem colocados efeitos especiais, criando um ambiente que nos transposta desde logo para a beira de uma piscina, não faltando o splash dos mergulhos.

Antes de terminar o disco, o tema “Never Wanted” embala-nos com uma maravilhosa criação post-rock, com algumas referências ao space-rock, naquele em que o registo vocal de Joseph Mount é mais contido, curiosamente antagónico a quase todo o resto do álbum, o que mostra a sua incrível versatilidade. Justamente porque escrever uma carta de amor requer tempo, paixão e dedicação, a audição de Love Letters requer tempo, paixão e dedicação. Recomenda-se a descoberta do disco canção a canção, sem pressas ou ansiedades. O disco pede uma maior libertação dos sentidos do ouvinte, mais do que é o habitual, porque só assim poderá apreciar e gozar melhor o momento em que descobre que estas cartas de amor foram escritas para ele.

Nota: 8.2/10

Carlos Alberto Oliveira

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