PunchLine é a nova rubrica da Punch na qual vamos abordar artistas em ascensão, assim como alguns nomes de peso da música portuguesa. Nesta segunda edição falámos com o produtor Rui Maia, responsável pelo projecto Mirror People. Numa conversa descontraída falámos, entre outras coisas, sobre o seu processo criativo, o seu novo projecto a solo, o novo EP de Mirror People (a sair dia 4 de Março) e o que esperar do concerto do próximo dia 5 de Março no CCB.

1. Como sabemos o projeto dos Mirror People, surgiu durante uma tour dos X-Wife nos USA. Fala-nos um pouco do processo criativo e das tuas maiores influências.
Mirror People no inicio era só eu, ficava tudo a meu cargo, e eu como não sou cantor usava samples. Quando recebi o convite para editar pela Discotexas, que tem uma vertente mais pop com refrões (Moullinex por exemplo) deparei-me com o facto de Mirror People não ter nada a ver com isso e tinha uma abordagem mais dancefloor. Portanto, a partir do momento em que comecei a colaborar com a Discotexas, e o facto de querer ter músicas a passar na rádio com maior destaque, fez com que eu tivesse de arranjar cantores para os temas com voz e isso ajudou-me a aproximar mais do pop. E é o que é hoje em dia, porque se reparamos nos EPs iniciais com o álbum, deparamo-nos com coisas bastante distintas.

O processo criativo funciona muito na base de colaboração, eu gravo uma base, mando para o cantor, o cantor grava as vozes e manda-me outra vez, e eu verifico o instrumental. Chega-se ali a um acordo, ambos temos de gostar. E nesta fase está assim, por isso é que este álbum demorou algum tempo a gravar. Primeiro, a maior parte dos colaboradores eu não conhecia pessoalmente, e depois cada um deles tem a sua vida, os seus projetos, bandas, e as coisas demoram muito tempo a fazer.

2. O nome Mirror People é “reflexo” dos diferentes estilos e backgrounds dos teus convidados? Como é que surgiu?
No início quando andava a editar enquanto Rui Maia; quando lancei o meu primeiro EP, Mirror People; achei que se alterasse o nome e pusesse um nome no projecto me daria mais liberdade para depois convidar malta para o projecto. Aliás a minha primeira intenção era mesmo essa, adicionar pessoas e criar uma espécie de banda. E como é sempre difícil arranjar um nome, fiz aquele processo que a maior parte dos músicos faz quando quer o nome para alguma coisa: vão às listas de músicas dos outros artistas. Decidi usar o nome Mirror People porque é um nome forte, mas também em homenagem a uma das bandas que eu cresci a ouvir e que me ajudou a desenvolver, os Love and Rockets.

O nome do EP foi um bocado em homenagem a isso, mas depois quando decidi por o nome no projecto, acho que reflecte as várias personalidades que eu posso ser, ou seja o “People” , de ser plural mas de ser só uma pessoa a construir uma música, e o “Mirror”, naturalmente a cena da bola de espelhos ligado ao disco sound.

3. O disco tem uma grande diversidade musical, com sonoridades bem distintas. Os convidados que tens no disco foram previamente pensados ou foram surgindo naturalmente à medida que compunhas?
Naturalmente abordo primeiro as pessoas que conheço. Conforme o mood da canção mostro-a a um determinado vocalista. Na minha cabeça tem de fazer sentido aquela pessoa cantar esta canção com este registo. Por vezes o que acontece é que envio várias canções e depois escolhem uma, não há assim uma regra específica…

4. Alguma colaboração de sonho? Porquê?
Há vários artistas que eu gosto em Portugal com quem gostaria de colaborar. Gravei umas músicas para o álbum do David Fonseca, que é um excelente músico. Gostava de colaborar com ele, mas não no sentido de ele cantar nas músicas, mas de tocar bateria. Porque acho que tem piada e porque ainda por cima ele toca muito bem bateria. Em relação a vozes, há aí uma rapariga que eu gosto imenso, a Isaura. Acho que, desta nova geração de músicos, ela tem ali qualquer coisa de especial; acho que ela, a meu ver, se destaca um bocado. Naturalmente começou agora e tem muito para crescer, mas penso que vai ter um grande futuro. Aí está um bom nome.

5. Amanha, dia 23 de fevereiro, o álbum faz precisamente um ano! Como é que relembras estes 365 dias do Voyager.
Correu muito bem o ano, logo com o primeiro single “I Need Your Love” que teve um destaque enorme. O disco foi muito bem aceite e apareceu no final do ano em diversas listas dos melhores do ano, não que eu ligue muito a essas coisas… Acho que cada pessoa tem a sua opinião sobre um top de discos. Mas tocamos em vários festivais, coisas grandes, agora é continuar a gravar! Mas no geral fico contente com o feedback que tive do disco, aliás, para primeiro disco acho que esteve muito bem.

6. O EP que sairá agora é o desfecho da viagem alucinante do universo do Voyager ou podemos esperar mais algum single do disco?
É porque também já é o quinto single, e o álbum tem nove musicas. É um single/EP/compilação, tem oito temas, uns que não entraram no álbum e uns remixes de malta portuguesa que faz bom trabalho; o Cut Slack; o Kasper; o João  dos Daily Misconceptions, que é meu amigo há muito anos e nunca tínhamos colaborado em nada. É o desfecho do Voyager em termos de edições, está na altura de descansar um bocado para depois aparecer com qualquer coisa nova e fresca, diferente…

7. Os temas novos que estão no EP, ficaram fora do disco ou ainda estavam “in the works”?
Não foram excluídas. O disco é um disco curto, tem apenas 9 músicas. Estas músicas novas chegaram a fazer parte do alinhamento, mas penso que não encaixavam no conceito do disco. São um bocado mais viradas para o funk e eu não queria que o disco ficasse caracterizado/rotulado como disco-funk. Uma das canções, “The Voyager Instrumental Space Theme”, tinha a voz de uma miúda americana, mas não gostei do resultado final e tirei-lhe a voz e pus só o instrumental. Ficou porreiro, demora 8 minutos e é tipo disco-funk com um solo de baixo. A “We Wonder” é interpretada pelo Mauro Fernandes, que eu já conhecia há muito tempo e que tem um projecto chamado Cão de Palha. Inicialmente cantou o tema para o disco, mas acabei por não a usar. Em vez disso usei o mesmo instrumental mas com a Maria do Rosário a cantar outro tema, o “Foolish Man”. Ou seja, o “Foolish Man” e o “We Wonder” têm a mesma base instrumental, mas melodias vocais e letras diferentes. Passado algum tempo, voltei a ouvir a versão do Mauro e pensei que era porreiro editar, e aproveitei agora para o convidar para o concerto do CCB para interpretar algumas músicas connosco.


8. Os remixes de Cut Slack, Kaspar, Daily Misconceptions, porque é que os escolheste?
Eu escolhi estes artistas porque que são pessoas que eu conheço a algum tempo e que admiro o trabalho, mas ao mesmo tempo são artistas com quem nunca colaborei. As remixes estão naturalmente direcionadas e acabam por originar três universos distintos, com valores diferentes, e não só, vão de encontro ao gosto dos diferentes ouvintes como também vão criar moods diferentes. O Cut Slack tem uma abordagem mais disco, o Kasper uma abordagem mais house, e o Daily Misconceptions tem uma sonoridade mais ambiental e mais “esquisita”.

9. Em Paredes tocaste com vocalista, no LISB-ON tocaste com uma banda. Como é que vão ser as próximas aventuras dos Mirror People?
Nós tínhamos um acordo com o LISB-ON em que íamos tocar com banda, em exclusivo, e a partir daí começámos sempre a tocar com banda. Inicialmente tínhamos dado o nome de The Voyager Band para a distinguir, mas como disse anteriormente Mirror People passou de um projeto de clubbing para uma cena mais pop, e depois de tantas colaborações e de eu ter começado a fazer dj sets enquanto Rui Maia, não fazia sentido continuar com as duas designações.

10. Mirror People no futuro? Alguma perspetiva para um novo álbum? Este vai ter uma sonoridade do primeiro álbum ou vai ter uma vertente mais eletrónica como vemos e ouvimos ao vivo?
Vai ser naturalmente diferente deste disco, não quero gravar outro LP disco. Quero gravar outra cena. Quero gravar um disco mais intemporal, um bocado mais abstrato com pop na mesma, ou seja, barulho por atrás e uma melodia à frente… Acima de tudo vão ser canções, isso é um dos pontos que eu quero que continue. Não sei exatamente o que é que vai sair, eu também oiço muita música diferente, de dia para dia, e ás vezes quando estou a fazer músicas sou um bocado influenciado pelo que estou a ouvir. Tenho de encontrar um conceito para a coisa, e fazer as canções à volta disso. Espero é que não demore tanto tempo como demorou este.

11. O concerto do CCB, vamos ter algumas surpresas? Convidados especiais? Quais são as tuas perspetivas?
Vai ser mais um concerto, mas naturalmente vai ser um momento especial. faz praticamente um ano que o disco foi lançado, e a sala é especial, é o CCB! Vamos ter mais pessoas em palco; como o caso do Rodrigo Gomes que vai cantar o “Ruby Went Out Dancing”, e o Mauro Fernandes que vai interpretar alguns temas; e vamos ter uma projeção psicadélica e vídeo muito interessante. Já andamos a planear e a trabalhar no alinhamento a algum tempo, mas vamos com calma. Vamos fazer o concerto, desfrutá-lo, mas também pensar que vai haver mais concertos à frente.

12. Dia 11 de Abril sai o teu álbum a solo Fractured Music com uma vertente mais techno que já está a criar algum buzz com alguns produtores lá fora. Fala-nos um pouco do que vem aí.
É um disco com 8 temas que gravei muito rapidamente, um mês no máximo, influenciado pelo techno e pelo techno industrial e que contou com a gravação de pouquíssimos instrumentos. Usei três instrumentos, uma drum machine, umas samples de voz, outras sou eu que canto, e uma guitarra tocada de uma maneira não usual. O flow do disco está muito interessante; é completamente diferente do que já fiz até agora, é mais pesado e denso; é como se Mirror People tivesse continuado a fazer dance music em vez de ir para a Discotexas fazer algo mais pop. O primeiro single, sai dia 14 de Março, chama-se “Everything is Changing” e vai ser acompanhado por um videoclip realizado pelo Vasco Mendes. O disco vai ser editado em digital, vinyl e cassete, e vai ser apresentado como live act, em formato dj live, nos principais locais de Lisboa e do Porto.

Ou seja, neste momento, tenho dois projectos bastantes diferentes, mas acho que Mirror People vai cada vez mais viver das colaborações, enquanto que em nome próprio vou ser eu a fazer tudo.

Lúcio Roque