À décima edição, e com um formato actualizado à procura de grandiosidade, podemos dizer que o Jameson Urban Routes atingiu um novo patamar na sua história, merecendo ser inscrito nos anuais da especialidade como um ponto de visita obrigatório. Com um cartaz de luxo, recheado de alguns dos maiores nomes das novas tendências da música moderna e urbana mundial, ficamos extasiados por ver os artistas nacionais com performances espectaculares, lado-a-lado com nomes que muitas vezes são suas referências. Fizemos uma cobertura extensa ao longo dos vários dias e aqui temos as nossas impressões de vários concertos, dum festival que podemos muito seguramente dizer, aumentou a fasquia para a época de inverno 2016.

BLOOM (Sessão 2 – 25 de Outubro)

Sem meios nem rodeios, Bloom abre o concerto com aquele que é o single e cara do álbum, “Tremble Like a Flower” e parece levar logo o vasto público, tão expectante, como hesitante perante esta novidade, a rejubilar e dançar alegremente. Com uma sonoridade transbordante Bloom transporta-nos para os meandros de uma qualquer cidade perdida nos anos de ouro do rock, blues e jazz norte-americano. A sua bateria ricamente extasiante, as guitarras irrequietas e electrizantes, e os sopros diversos e reveladores da leveza e complexidade destas composições, obrigam-nos a reconhecer que este trabalho em nada se assemelha ao que já temos como referência de JP Simões.
Da formação utilizada na composição e gravação faltou-nos não mais, não menos que o ilustre Carlos Bica e que podemos seguramente imaginar que traria outra dimensão sonora com o seu contrabaixo. As paredes e arcadas de pedra do Musicbox parecem ter sido desenhadas para o melhor aproveitamento desta obra, de tal maneira que podemos ouvir com uma clareza tísica cada nota tocada em palco. Este concerto termina com uns sintetizadores divagantes que nada deixam a desejar a David Bowie nas suas mais exploradoras viagens espaciais, de tal modo que o próprio parece ter saltado do outro lado da vida para vir dar uma perninha. A interacção com a plateia, os efeitos visuais tão bem colocados e cronometrados e a clara química e energia existente na banda ajudam a elevar um projecto tão ambicioso e relevante, a um patamar que não é possível reproduzir em disco.
Após a celebração em palco é incrível ver o público a divagar sobre a sua visão desta obra e ouvir o dj de serviço a envolver curiosamente esta gente com “Melting Pot” de Booker T & The MG’s e tantos outros clássicos soul e funk saídos da era onde este som se enquadraria perfeitamente.

GOLD PANDA (Sessão 3 – 26 de Outubro)

Pum pa pum pa… sentimos logo o peito a comprimir, o coração a acelerar para acompanhar o ritmo dos baixos assoberbantes que aí vêm. E que baixos, com ondas tão poderosas que parecem pôr o público a abanar em uníssono, que nem uma seara em dia de vendaval. E está de volta o aperto mas agora são os agudos samplados, vindos não sabemos bem de onde estão estranhamente a entranhar-se nos nossos ouvidos. A cada pausa dos baixos não se respira, aproveita-se todos os segundos para acalmar o corpo e aclamar o mestre.
Olhamos para o palco e perguntamo-nos por vezes se este som que nos está a remoer não será produzido pelo Gold Panda em si a mexer-se, tal a sincronização que este traz com a música, própria de quem a fez para se agradar e por acaso o resto do mundo também gostou. O ritmo não abranda e as projeções parecem guiar o som, ou pelo menos estar fundidas nele, como se desta vez o barulho das luzes fosse de facto algo que estivéssemos a ouvir.E de repente teletransporte, estamos no extremo oposto do mundo, como se fosse preciso provar-nos que o som não está dividido por fronteiras e se mistura mais e melhor que todas as culturas.
Os corpos mexem-se, os telefones aparecem e ninguém quer perder o momento, até aqueles como nós que deviam apreciar impavidamente, dão por si a vibrar sem saber bem porquê. Que melhor medida para o sucesso de um concerto de música dançável, que dizer que o Musicbox parecia um forno de todas as partículas presentes estarem a gerar calor ao ritmo da sua batida.

XOSAR + MVRIA (Sessão 4 – 26 de Outubro)

A parte Clubbing da noite teve duas senhoras ao leme, navegando-nos pelos mares house deste mundo. Não é a primeira vez que nos levam juntas de viagem, e está provado que a sua jornada está destinada ao sucesso. A pista não pára, nem tem como, porque tanto elas como os seus acompanhantes (Cruz e Wiseguys) nunca nos dão descanso. Xosar trouxe-nos misturas pouco ortodoxas, com instrumentos que nem sonharíamos terem lugar no mundo house, mas que mesmo assim nunca se sentiram fora de lugar. Do didjeridu combinado com breaks poderosos podemos verificar a magia da música electrónica, a capacidade de misturar tudo e todos, do instrumento indígena ao computador há sempre lugar para mais qualquer coisa.
MVRIA a rapariga nortenha e sempre jovial não é nenhuma novata nestas andanças, com tanto já feito e provado que nos parece estar por cá desde o início. Versátil, colorida e insistente, sabe dar ao público o que ele ainda não sabia querer e continua a lançar achas para a fogueira electrónica em torno da qual se dança hoje, até se elevarem os nossos espíritos por imolação sonora.

65DAYSOFSTATIC (Sessão 6 – 27 de Outubro)

Instrumentalismo, experimentalismo, progressista, espacialista… podíamos estar a noite toda nisto, que não havia -ismos e -istos suficientes para descrever apropriadamente. Estes são apenas alguns (poucos) dos adjetivos que pudemos usar para descrever o que esta formação de Sheffield faz melhor. Os instrumentos nas suas criações são meros veículos, guitarras, pianos, baterias, baixos, drum machines, com ou sem pedais, filtros, tudo o que caiba no universo da criação musical. Harmónicos flutuantes no piano, contrariados por riffs distorcidamente desconstruídos, um timbalão imperativo e ressonante junto com tarolas irrequietas, é disto que se trata. Dizem-nos tudo o que queremos saber, contam-nos histórias, estórias e experiências, isto sem o auxilio da voz, que nunca nos faz falta.

TEEBS (Sessão 7 – 27 de Outubro)

De rompante mas não de repente, o groove, os beats e os breaks do produtor de Bronx começam a aquecer a nossa noite, de uma forma tão incrivelmente envolvente que o público parece misturar-se com as ondas sonoras que se reflectem pelas paredes do Musicbox.
Curioso, ou talvez não, que uma das produções visuais seja uma mulher dentro de água, uma sensação com a qual todos nos podemos relacionar, e que estimula sensorialmente o nosso corpo de uma forma tão semelhante ao seu espectáculo. A pressão acumula-se, os ouvidos apertam e quanto mais fundo mergulhamos mais sentimos aquele aperto torácico. Com ele nada disto é ao acaso, ou não fosse também um talentoso e aclamado artista visual. Além do mais traz o selo da indubitável Brainfeeder a dourar-lhe a camisola, um belo pronuncio já que Flying Lotus não deixa nada de valor pairar ao acaso. Viajando dentro da sua discografia misturada com batidas de outros criadores, Teebs brindou-nos, tal como o pingu da sua camisola, com um concerto mágico.
E depois de tudo o que nos deu durante o seu espectáculo veio, tão descontraidamente à vontade como qualquer um dos expectantes espectadores, deixar-se levar no meio da pista, pelo ritmo sul-africano que aí vinha.

GQOM OH! (Sessão 7 – 27 de Outubro)

Desde os confins mais perdidos da África do Sul, chega-nos o colectivo Gqom Oh!, representado por Nan Kolè & DJ Lad. Tribalismos e fanatismos à parte, a mistura dos sons vindos do país mais a sul do continente africano não consegue, nem quer, demarcar-se da profunda desigualdade e injustiça que ainda faz arder as feridas mal saradas do antigamente. Com uma agressividade de beats, breaks e bass podemos muito levemente tentar sentir uma amostra do que é viver nas townships, esquecidas pelo mundo no meio deste país tão único. Único nas suas diferenças, tal como o som que produzem onde encontramos os samples e gravações de sons e instrumentos tradicionalmente africanos contrabalançados pelos produzidos em estúdio, com vozes soul à mistura influenciadas pelos sopros do velho e novo continentes.
Não precisamos de procurar muito para encontrar pontos de contacto com um estilo tão conhecido da cultura lusófona, o kuduro, mas na sua vertente mais europeia progressiva e electrónica, celebrizada mundialmente pelos Buraka Som Sistema. Afinal partilham um continente, e algo que a maior parte de nós nunca entenderá, o sangue quente embebido no misticismo de quem pertence ao lugar onde tudo começou para a humanidade. Talvez seja por isso que o som deles nos faz mexer de forma tão primal e vincada, como se estivéssemos em contacto com os nossos antepassados.

MIKE EL NITE DJ SET (Sessão 8 – 27 de Outubro)

Eis que chega Mike El Nite para fechar a noite, ele que já é prata da casa às quintas, presença assídua nas Gin & Juice sessions recheadas de convidados das mais diversas latitudes. Mestre do trap e hip hop, entra para espalhar a justiça pelos resistentes e recém-chegados à pista, que acompanham as barras como se não houvesse amanhã. Um final justo para um dia arriscado e cheio de mudanças bruscas dentro das sessões que acabaram por resultar numa grande lição, quem tem o justiceiro, no final do dia só falha se quiser.

MENDRUGO (Sessão 13 – 29 de Outubro)

Desviamos o olhar um minuto do palco da espera e quando reparamos está a ser assaltado por um conjunto de gente peculiarmente interessante, trazida pelos ventos ibéricos de nuestros hermanos. Das túnicas aos coletes de vaqueiro, sem passar pelos chapéus, a presença destas pessoas capta imediatamente a nossa atenção. Prontos para começar a festa, abrem com o seu estilo brincalhão e surpreendem-nos logo com uma escolha de instrumentos desigual, continuam a faze-lo durante o concerto também pela forma como os tocam. Começam com uma guitarra portuguesa a fazer as vezes da viola, uma espécie selvagem de cavaquinho e letras em castelhano o que os fazem soar tão misturadamente espanholeses. As vozes desalinhadas e despreocupadas, cada uma a cobrir a sua gama sonora dão-nos a ideia de estarmos a ouvir as varias gerações desta família a cantar numa festa caseira. Agradavelmente surpreendidos pelas histórias e presença com que se impuseram, ficamos curiosos de continuar a acompanhar o seu percurso de folk hispânico.

CATE LE BON (Sessão 13 – 29 de Outubro)

Cate la bonne achamos nós que devia ser rebatizada, tendo em conta tudo o que nos tem dado. Primavera foi o que foi, no Musicbox arrebatou-nos de vez.Entramos cheios de expectativas para uma viagem marcada de altos e baixos, com o ritmo a acelerar e acalmar quase de música para música, sem nunca se descuidar para não nos deixar sequer descolar os olhos do palco. Com uma execução instrumental crucial e rigorosa do princípio ao fim, repleta de entradas e saídas mais a tempo que um relógio atómico, Cate e os seus companheiros voltam-nos a ensinar o que é dar tudo por esta arte em cima do palco, deixando parte de si a assombrar a sala para os que se seguiriam. Alternando entre visitas a clássicos da sua já consolidada carreira e uma mostra ao vivo e em fechado do seu último trabalho, podemos com toda a certeza atestar que ao quarto álbum Cate continua a reinventar-se e a superar-se, seguindo direcções que não sabíamos estarem no seu caminho. Inspirados numa frase da própria durante o concerto podemos dizer, It may or may not have been great. Mentira, foi de outro mundo.

MIKKY BLANCO (Sessão 14 – 29 de Outubro)

Enterrados estão os eventos de 2014, para nosso bem e crescimento social, e Mykki Blanco está de volta ao país para abrir fendas em todas as paredes intactas do Musicbox. Abertura feita e público aquecido pela sua dj, Mykki entra e pergunta se estamos prontos para a festa dela. E se estamos, de tal maneira que acedemos a tudo a o que nos pede, é chegar para a frente, cantar um refrão, estamos sempre lá sem pensar duas vezes.Mal damos por nós e ele está em todo o lado, no meio da crowd em círculo estilo battle, de volta ao palco, no público outra vez, em cima da mesa da dj, no balcão do bar, insistentemente omnipresente.

Pudores e estereótipos que ainda tivéssemos são todos expurgados hoje, despido de preconceitos (e de quase toda a roupa) exorciza-nos mais intensamente que São Miguel Arcanjo. Acapella, instrumental, em vídeo, agressivo, queer, não há lado que não nos mostre e era o que todos queríamos, vê-lo tão liberto como sempre de todas as máscaras que muitos vestem no dia-a-dia. Kendrick disse-nos no SBSR “look both ways before you cross my mind”, Mykki entra a fundo e nada nem ninguém o consegue parar, nem o tempo, que hoje até recuou uma hora só para o ver.

DJ EARL (Sessão 14 – 29 de Outubro)

O som da nova vaga de Chicago veio de assalto para consagrar uma noite que já tomava proporções tamanhas no Musicbox. Breaks, beats e drops não é nada que não tenhamos visto magistralmente já neste festival mas ainda assim Earl conseguiu levar ao rubro uma multidão composta por muitas e diversas gentes agarrando-nos aos samples cuidadosamente espalhados pelo set. Tanto, que conseguiu tornar irresistível uma nova subida ao palco para dançar de um dos elementos da banda de abertura da noite, Mandrugo, cujo som em nada mais que a intensidade se assemelha ao que agora rodava.

LIIMA (Sessão 16 – 30 de Outubro)

Quatro dimensões paralelas ligadas por um gigante wormhole chamado Liima, é a única aproximação que conseguimos usar para marginalmente descrever o que vemos. Descolamos juntamente com o público clara e fielmente seguidor, para uma viagem espacial onde ecoam para além da sua música tresloucadamente inebriante, os gritos dos mais loucos apreciadores, os agradecimentos da banda consternada e emocionada e os ventos dos corpos que dançam livremente. Mostraram-nos outra vez como a música está em todos os cantinhos do universo, e conseguiram a proeza de tornar a tábua de passar e as tigelas imediatamente nos nossos instrumentos de percussão favoritos, e já agora da lida doméstica também por associação. Sons do dia-a-dia misturados, filtrados, acelerados, retocados, de todas as formas, servem agora para fazer desta uma banda sonora perfeita para o ultimo dia do festival, já que depois teremos que voltar às nossas vidas normais. Nesta casa onde também tocaram em 2014, elevaram-se e reencontraram-se, naquele que foi um momento de comunhão musical de fazer inveja aos mais crentes.

Que peculiar festival este, que cada artista parece desfazer e refazer o que os seus antecessores fizeram nas sessões anteriores. Barreiras e patamares vão sendo trespassados, fazendo-nos estimar bem o baú da memória para aproveitar o que de melhor passou e merece ficar para não esquecer. Que mais dizer? Nada. A triagem já estava feita, nós só tivemos que aparecer e aproveitar. E já agora chorar perdidamente pelo que nos escapou.

TEXTO: Pedro Barata
FOTOGRAFIAS: Alípio Padilha