O Vodafone Mexefest apresenta um formato bastante peculiar, que semeia receio nos melómanos mais tradicionais, aqueles que chegam uns minutos antes dos concertos e só arredam pé depois do último encore. Apesar de nos incluirmos neste grupo, abrimos uma excepção anual para o festival mais cativante do Outono alfacinha, calçamos os nossos sapatos mais confortáveis, e abraçamos o corropio na Avenida da Liberdade para tentarmos chegar a todos os concertos que marcámos na nossa agenda − é uma pena que não tenhamos os dons da ubiquidade e do teletransporte.

25 de Novembro, Sexta-Feira

O nosso primeiro dia de festival ignorou os concertos mais matutinos e começou na Sociedade de Geografia, com Toty Sa’Med, nova referência da música popular urbana angolana que veio ao Mexefest apresentar o seu recém-editado disco de estreia, Ingombota. Saímos no final de “Maldita Mulata” e rumámos em passo bastante apressado até à sala maior do Teatro Tivoli BBVA: Bruno Pernadas e a sua enorme banda mantinham o público em êxtase durante as suas longas músicas, construídas camada sobre camada. Deixámo-nos envolver na hipnose conjunta, observando a entrada e saida de artistas em palco, os loops, as palmas a meio dos temas – acima de tudo, a mestria musical que acontecia perante os nossos olhos e ouvidos.

Dirigimo-nos ao Capitólio para uma mudança radical de estilo – o respeitável rapper  Nova Iorquino Talib Kweli, conhecido também por colaborações com  Kanye West e Pharrell Williams, agitava os presentes com as suas palavras e não nos deixou indiferentes. Nota positiva para esta sala do Parque Mayer, a mais recente aquisição do Mexefest, numa noite sem chuva como a de sexta-feira: as aberturas laterais da sala permitiram uma espécie de expansão da sala,  permitindo a todo o público que acorreu ao espaço a participação no espectáculo.

Chegava a altura de entrarmos no Coliseu pela primeira vez na noite, mas não sem passar pelos Kumpania Algazarra, que animavam a Avenida, e fazer um desvio pela Garagem da EPAL, a caminho – os  Ganso desafiavam as condições acústicas do espaço e saltavam em palco, ao ritmo do seu rock’n'roll. A exuberante NAO, com o seu auto-denominado wonky funk, veio de Londres até Lisboa para subir ao palco maior do Mexefest de pés descalços e trajes de influências africanas. NAO é Neo Jessica Joshua, cantora que estudou jazz e começou a sua carreira musical como back-up singer de artistas como Kwabs ou Jarvis Cocker. A sua voz poderíssima começou a dar nas vistas em nome próprio em 2014 e, a julgar pela quantidade de vezes que parou estupefacta perante a reacção do público, acreditamos que terá ficado com vontade de voltar a Lisboa, a Portugal.

O muito experiente Howe Gelb começava o seu concerto na Casa do Alentejo, perguntando-nos entre músicas se a lindíssima sala tinha sido noutros tempos um teatro ou um cinema. Gelb, norte-americano que prefere colaborar com outros artistas a apresentar-se sozinho em palco, na sua carreira de mais de 30 anos já passou por estilos como o country ou o folk. No Mexefest apresentou-se em formato trio, ao piano, acompanhado por um baixo e uma bateria, numa incursão no jazz que também lhe assenta que nem uma luva. Eram muitos os fãs que enchiam a escadaria da Casa do Alentejo e formavam fila do lado de fora quando saímos, para subir a Avenida e acorrer ao Cinema São Jorge – Céu, com a sua voz melosa, encantava os fãs  com a bossa nova que a sua banda competente a ajudava a construir. Foram várias as músicas em que o público que preenchia totalmente a sala Manoel de Oliveira se levantou para gingar com a cantora brasileira. “Perfume do Invisível” ficou-nos no ouvido.

Atordoados com tantos concertos diferentes em tão poucas horas, descemos a Avenida uma última vez nessa noite para ouvir os cabeças de cartaz Jagwar Ma – mas Manuel Fúria e os Naúfragos ainda tocavam os últimos acordes na Garagem da EPAL quando passámos por lá. O trio australiano Jagwar Ma escolheu Lisboa para terminar a sua longa tour e não acusou cansaço. A mistura da electrónica e do psicadelismo, que nos fazem lembrar uns Chemical Brothers de outros tempos, levaram a sala ao rubro, tendo como momentos altos “O B 1″ e “Gimme a Reason”. Fecho do primeiro dia de Vodafone Mexefest em grande.

 26 de Novembro, Sábado

O nosso segundo dia de festival exigiu ainda mais compromissos na agenda e um chapéu de chuva sempre à mão. Começámos o nosso fim de tarde com uns minutos na Sociedade de Geografia para espreitar Meg Baird, cantora de voz delicada que encaixava perfeitamente na sala que lhe foi designada. Fizemos uma curta viagem até à sala do Alentejo, na qual vimos já parte da multidão a entrar no Coliseu para não perder pitada de Gallant. Joana Barra Vaz e a sua banda começaram o concerto com uma música de 12 minutos, perante um público que aos poucos ia preenchendo a lindíssima sala da Casa do Alentejo. Ficámos a saber que era sonho seu apresentar o álbum Mergulho em Loba ali, e via -se nas faces dos restantes elementos que era partilhado. As músicas, intensificadas pela garra e personalidade de Joana, ganham ainda mais vida em palco.

Fizemos a primeira incursão ao Coliseu para ver o imperdível concerto do Gallant, personagem irrequieta em palco, que parecia surpreso perante a adesão do público. O norte-americano, de apenas 24 anos, é dono de um impressionante falsetto que espelha nas músicas do seu disco de estreia, Ology. Não conseguimos sair sem ouvirmos a “Weight in Gold”, que o artista reservou para o final.

Foi aqui que a nossa vida se complicou. Seguimos a multidão até ao palco do Terraço da Estação do Rossio, que não era grande o suficiente para todos os fãs que acorriam para ouvir Kevin Morby. Ouvimos apenas um par de músicas, percebemos que as características acústicas pouco favoráveis não iam ser o suficiente para estragar um bom concerto, e demos lugar aos demais. Queríamos seguir até La Dame Blanche, mas não resistimos a rever a simpatia de Celina da Piedade, sempre disposta a contar a origem de cada uma das suas músicas, quase sempre de raízes tradicionais a sul do Tejo. Era a caminho, convencemo-nos, por isso subimos a escadaria do Palácio Foz, ouvimos um tema, uma história, e deixámo-la com a re-interpretação d’”A Linha e o Linho”.

Quando chegámos ao Capitólio, La Dame Blanche tocava um dos seus incríveis solos de flauta. As frases das suas músicas são directas e concisas e os temas sucediam-se perante um público morno, que acreditamos que não era mais pela distância desta sala em relação ao Coliseu, que parece maior em dias de chuva. Tão próximos que estávamos do Cinema São Jorge, subimos mais um par de escadas para ouvir o “Balancê” de Sara Tavares, do seu menos recente Xinti. A novíssima “Coisas Bunitas” estava felizmente reservada para perto do final. Deve ser estranho também para os artistas este conceito de festival, em que as pessoas chegam e saem constantemente — Sara encarou-o com simpatia, desejando felicidades, de sorriso estampado no rosto, a quem saía para dar lugar aos que ainda esperavam na fila.

Seguimos em passo apressado até ao Coliseu perante uma Avenida da Liberdade recém iluminada para o Natal. Elza Soares (que tem a Wikipedia indecisa sobre a sua idade) ainda tinha subido a palco há pouco tempo, mas a sala já estava tão composta que até os balcões se encontravam preenchidos. Do alto do seu trono em forma de V (seria uma alusão ao patrocinador maior do festival?), a cantora do miléni0 não defraudou as expectativas dos presentes e apresentou com garra as mensagens fortes das suas letras, fazendo questão de conversar com o público entre músicas – ”esse é um assunto seríssimo para as mulheres!”: era “Maria da Vila Matilde” que se seguia. Com plena noção que estávamos a abandonar um concerto ímpar, deixámos A Mulher do Fim do Mundo para voltar ao Capitólio.

Para uma sala quase completa, Mayra Andrade espalhava boa disposição e contagiava o público com danças açucaradas, agradecendo a colaboração nas letras. Ainda assim, insistiu que só não conversava mais hoje porque queria aproveitar todos os poucos minutos de concerto da noite — não resistiu a explicar ” Ténpu Ki bai”, primeira faixa do seu álbum Lovely Difficult, que fala de como o tempo cura tudo.

Era tempo de descer novamente a Avenida, para regressar à Casa do Alentejo e ouvir TaxiWars. Pela quantidade de pessoas que saíam do Coliseu, provavelmente Elza teria terminado o seu concerto há minutos. Mal entrámos na sala, sentimo-nos transportados para uma festa jazz dum qualquer club underground. Tom Barman, frontman tanto dos dEUS como dos TaxiWars, revelou-se sem surpresas como a personagem mais exuberante do grupo, incentivando a incrível loucura de improviso por parte de todos os instrumentistas que observámos no último par de músicas do concerto. O encore chegou com “Fever” o single que oferece nome ao mais recente álbum da banda – foi a cereja no topo do bolo de um grande, grande concerto.

A nossa segunda noite de Vodafone Mexefest terminou com Branko, que manteve o público a dançar durante cerca de uma hora com o seu set live. A última música foi “Reserva pra dois”, que trouxe Mayra Andrade ao palco maior do Coliseu para a cantar ao vivo.

Na verdade não temos a pretensão de afirmar que o nosso Vodafone Mexefest tenha sido melhor do que o de ninguém. Sabemos que foi muito intenso, com algumas cedências, mas preenchido com dezenas de artistas distribuídos por alguns dos palcos mais especiais da cidade de Lisboa. Saímos com sentimento de missão cumprida, por agora, mas para o ano queremos voltar.

Texto: Andreia Duarte

Fotografias: Joana Viana