Um EP é muitas vezes encarado como se de um aperitivo se tratasse, uma pequena amostra do que o artista é capaz de fazer. Um veículo de entrada no turbilhão de inúmeros novos projectos que existe hoje em dia, com trabalhos a verem a luz do dia com frequência diária. Desse modo, é evidente a presença de uma pressão diferente sobre o lançamento do primeiro EP, geralmente algo bastante pensado e elaborado com especial cuidado. Aqui temos um exemplo disso.

O projecto Mai Kino, da multifacetada (cantora, compositora, instrumentista, dançarina) portuguesa Catarina Moreno – radicada há mais de uma década em Londres -, apresenta neste The Waves, precisamente esse cartão de visita. São 3 faixas onde tenta demonstrar aquilo a que se propõe e a matriz base do que será capaz de criar enquanto artista. Neste leque de músicas, onde se nota o dedo do produtor britânico Luke Smith (colaboração com Foals e Petite Noire), podemos ouvir a junção entre um registo electrónico e minimalista e a voz delicada e pungente de Mai Kino. Logicamente que está ausente a narrativa possível se fosse um longa duração, uma história contada através das faixas – mas esse não é o objectivo.

A temática do fim inevitável das relações, de como arrefecem após um certo tempo, aparece na música “Burn”, onde a construção melódica vai sendo elaborada ao longo de várias camadas e com recurso a diferentes instrumentos, sobre um ritmo catchy de percussão que cresce na exacta medida do determinismo do fim – “everything must go in the end” afirma sem dúvidas Mai Kino. “June” é uma faixa mais etérea, a relembrar projectos como os Youth Lagoon na frugalidade musical e na construção a dois tempos, com recurso a instrumentos de sopro para dar maior poder à mensagem, mais uma vez a remeter-nos para a partida e a separação. Por fim, a música homónima ao título do EP é a mais conseguida a nível instrumental, com um casamento raro entre o registo electrónico da percussão e sintetizadores e os acordes de guitarra e acordeão, que nos surpreendem – o que cria uma atmosfera sombria e hipnotizante. Também a nível lírico, deixa entrever um mundo mais complexo ao abordar temas como o imediatismo e o hedonismo de forma subtil e críptica, que se acrescentam às referências a partidas e reinícios.

No seu conjunto, são músicas bem conseguidas e aprimoradas a nível técnico e vocal, mas onde se sente uma certa falta de risco, a tendência para letras demasiado fechadas sobre temas já exauridos, sem nada de inovador. É boa música electro-pop, no entanto ainda não madura. Está no limiar de algo espectacular, sem cumprir para já esse potencial que se adivinha. Portanto, não é supreendente que ao longo dos últimos meses nos tenha chegado aos ouvidos o entusiasmo em certos círculos da música londrina em relação a este projecto. É neste contexto que irá regressar ao seu país de nascimento, no palco do Lisboa Dance Festival. Será interessante verificar como se traduz ao vivo este trabalho e de que forma a artista e o projecto poderão crescer no futuro.

Nota: 7/10

João Gramaça