Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2017 e o funeral estava marcado para as 22h. Todos vestidos de preto que a vida é um funeral, avisaram os defuntos poucas horas antes, para marcar o tom. Que estas festividades de morte são profundas já nós sabíamos, não estávamos era preparados para este nível de intensidade. 30 dias depois revisitamos o concerto, para ver se o corpo, e a mente, ainda estão presentes.

Entramos numa sala escura e densa mas ainda com espaço para respirar e observamos o tom leve de pesar, afinal os defuntos estão bem vivos e estamos todos impacientes para ouvir as marchas fúnebres que iam marcar o andamento da noite.

Vindo dos confins do palco surge o L-ALI, o cicerone da máscara monstruosa a quem cabem as honras de abertura. Com uma postura pesarosa e profundamente compenetrado convida-nos a visitar a sua música de estética escura e pesada, totalmente em sintonia com a temática da noite. Juntamente com o PESCA, e mais uns convidados, exploraram músicas dos seus vários trabalhos, e vão cortando a plateia difícil com a suas rimas aguçadas e abrasivas. “Banghello!” foi sem dúvida alguma o momento mais quente do concerto, com o público a aquecer finalmente e a libertar o seu coro envolvente. É realmente impressionante ver o crescimento e estado de maturação da sua actuação desde as primeiras vezes que o vimos, abraçando destemidamente o lado mais obscuro e subterrâneo do hip-hop.

Abertas as hostilidades seguimos com a primeira metade da cerimónia, onde somos assaltados pela genial teatralidade de um sacana nervoso, vulgo NERVE. Anos depois daquela que foi uma das mais marcantes obras do rap underground português, e ano e pouco depois da tão ansiada sequela, o homem peixe expõe-se outra vez tão cruamente, e desta no seu funeral. Divagando ordenadamente entre o Trabalho & Conhaque e músicas cheias de ENPTO, verificamos que nada foi deixado ao acaso, com um guião perfeitamente delineado para nos dar a conhecer as várias facetas da sua vida. Dono de uma presença em palco única, parece que viemos assistir a um espectáculo de declamação de poesia, com as palavras a perfurar-nos os ouvidos e a consciência. No meio de tudo isto ainda temos tempo de o ouvir Acappella, além de sermos apresentados ao seu EP em desenvolvimento. Em jeito de passagem de tocha, e para celebrar a união destes dois senhores do hip hop contemporâneo português, Mike El Nite sobe então palco para apresentarem em conjunto a música que veio marcar o ritmo da noite.

Mike El Nite subiu ao palco pela segunda vez na noite ainda com Nerve, e não arredou mais pé até estarem prestadas todas as homenagens, serviu-nos a sua justiça quente e forte como o café que nos mantém colados e alerta. Invadiu o palco numa actuação electrizante como já nos habituou, mas mantendo sempre a sobriedade, afinal isto tratava-se de um funeral. Percorremos a discografia desde a rusga ao aspirador, mas a estrela da noite foi outra vez o Justiceiro, um dos álbuns mais marcantes do panorama rap nacional no ano de Dois Mil e Éder, como diz o próprio. Os convidados fluíram mais que as lágrimas em funerais de estado, afinal esse conjunto de participações de luxo é uma das razões pelas quais podemos sempre contar com uma energia invejável em palco. Para terminar em grande temo-lo no meio de nós, a curtir verdadeiramente à “T.U.G.A.” e com uma invasão de palco, como se tivéssemos voltado a expulsar os franceses da sua própria festa.

Este funeral de enterro não teve nada, foi mais uma inflamada apoteose.

Texto e fotografias: Pedro Barata
Foto-reportagem:
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