Tem vindo a existir nos últimos anos uma corrente de mistura de influências onde a música electrónica, muitas vezes nas suas vertentes mais alternativas, se encontra com uma miríade de diferentes géneros, sub-géneros e sub-sub-géneros. Um dos encontros mais inesperados e com resultados discutivelmente sublimes foi com o R&B e o hip-hop. Tokimonsta tem caminhado nessa corda bamba, tentando manter o equilíbrio.

Jennifer Lee aka Tokimonsta é uma produtora californiana de ascendência coreana que se assumiu como um dos mais promissores produtos da Red Bull Music Academy e encarada como uma das figuras de maior futuro na música electrónica de LA (para o qual contribuiu ter sido a primeira mulher a assinar pela editora Brainfeeder de Flying Lotus), tendo produzido 3 álbuns e vários singles desde 2010 até ao ano passado, altura em que lançou o seu 4º álbum, Fovere.

Este é um álbum curto – 7 músicas em 23 minutos – no qual dificilmente se projecta um conceito, uma linha condutora. É um conjunto de músicas onde Tokimonsta continua o seu processo de transformação de DJ a combinar e a brincar com electro e hip-hop em produtora a caminhar para um destino mais pop, como se pode perceber pelo peso que as colaborações têm neste álbum, com especial destaque para Gavin Turek, na faixa de abertura “I’m Waiting” e na “Penny”, e para um rejuvenescido Anderson .Paak em “Put It Down”. Contudo, existe um problema conceptual no facto de ser um mero conjunto de faixas, que funcionam de forma razoável enquanto músicas stand-alone dentro dum set numa discoteca mas que não impressionam no álbum. Sim, são agradáveis de se ouvir, no entanto rapidamente se perdem e se deixam confundir, transformando-se numa música de fundo com poucos laivos de individualidade e com letras duma certa banalidade fatal que as tornam quase anónimas.

Uma das excepções é a colaboração com .Paak, uma música poderosa com um ritmo bem trabalhado no seu crescendo onde se discerne o casamento entre a electrónica e o hip-hop instrumental, sublinhado e intensificado pelos vocais sem mácula, a integrarem-se sem esforço na melodia e com letras com um propósito. Ainda que Tokimonsta recorra aqui à (já velha) trupe do beat-drop com o intuito de colocar um ónus adicional de main theme a este “Put It Down”. Felizmente resulta.
De forma significativamente diferente, também se destaca a “Starlight Lace”, onde Tokimonsta parece regressar com algum saudosismo àquilo que marcou o seu início de carreira, ritmos progressistas e com uma textura única e complexa, acrescentando uma camada com sabor tropical bem marcado.

O resto não deixa de ter qualidade suficiente para ser ouvido. Porém, parece existir uma falta de risco, uma preocupação em ir de encontro a um modelo pré-concebido, o que acaba por se reflectir numa falta de cunho pessoal. É um álbum de produtora e não tanto de DJ mais criativa – o que é um caminho válido para Tokimonsta. Se bem que ficará sempre a expectativa de a ver regressar a um maior experimentalismo. Algo a que desejamos poder assistir quando passar pela capital portuguesa em Março, no Lisboa Dance Festival.

Nota: 6,4/10

João Gramaça