Jessy Lanza nasceu num berço rodeado de instrumentos e pautas musicais, com ambos os pais músicos desde muito cedo que quis ser pianista ou cantora. Ironias do destino à parte hoje em dia é mesmo aquilo que quis ser, uma artista cheia de sucesso. Das suas principais influências aos álbuns que a marcaram ao longo do seu percurso criativo ao longo dos anos tivemos tempo para meter a conversa em dia com este prodígio canadiano da música dançante que tem dado cartas a nível internacional. Um trunfo na manga a ser apresentado em primeira mão a 10 de Março no Lisboa Dance Festival, sem dúvida um concerto a não perder!


1. Voltando atrás um pouco, tendo aparecido em 2013/2014 no panorama internacional, quando é que percebeste que irias ser música, que irias dedicar a tua vida à música?
Bem, desde que me consigo lembrar que queria ser pianista ou cantora. Ambos os meus pais eram músicos, e incutiram-me esse pensamento desde uma idade bastante precoce de que isto era o que realmente queria, ser cantora. É difícil de saber ao certo, mas eles definitivamente empurraram-se nessa direcção. O meu pai queria realmente que eu fosse música, acho que não me era permitido ser outra coisa qualquer [risos].

2. Quais foram as tuas principais influências ao crescer? Que tipo de música ouvias?
Eu adorava Paula Abdul. Ela era uma das principais, mas ainda mais importante foi a Janet Jackson. Lembro-me de adorar mesmo uma música, da banda sonora do Poetic Justice, um filme bastante popular na altura com ela e o Tupac Shakur, que se chamava Again. Sim, esta foi talvez a primeira música com a qual criei uma ligação quando era miúda. Costumava escrever a letra, cantá-la para quem quisesse ouvir. Adorava-a mesmo, e adorava a Janet Jackson. E também adorava a Mariah Carey. No fundo, gostava desta R&B bastante pop.

3. Achas que estas influências R&B moldaram a tua música hoje em dia?
Eu acho que sempre gostei muito de música pop. Música que tocava no canal de videoclips, que aqui se chamava MuchMusic, uma espécie de MTV canadiana. Eu era capaz de ver… Eu via esse canal durante horas, todos os diferentes videoclips que apareciam. Também ouvia rádio… Eu sempre tive este gosto por música pop. Gosto de todos os géneros musicais, contudo enquanto miúda esse foi importante para mim.

4. Houve algum primeiro álbum que tenhas ouvido na totalidade, duma ponta à outra, e que te tenha marcado?
Não sei… Tudo o que me consigo lembrar é de toda a música alternativa menos boa que costumava ouvir, de bandas canadianas que tu nunca irias ter ouvido falar [risos] Houveram tantas bandas diferentes que me influenciaram – realmente, não consigo escolher apenas um.

5. Em relação ao teu segundo álbum Oh No, lançado o ano passado, como é que achas que evoluíste do teu primeiro trabalho para este? Que direcção pretendias tomar?
Senti-me mais confiante da segunda vez. E senti que queria explorar a componente vocal sem limitações. Sempre fui um pouco insegura em relação à minha voz enquanto cantora, e colocava sempre mais ênfase na componente musical e na produção. Acabei por chegar à conclusão de que se outras pessoas não gostavam da minha voz, eu simplesmente não queria saber. Muitos dos músicos que neste momento admiro não têm vozes tipicamente bonitas. Encontrar uma voz bonita é fácil. O que é verdadeiramente importante é ser unicamente tua. Não sei porque é que demorei tanto tempo a chegar a esta conclusão, mas quando estava a fazer este segundo álbum sem dúvida que quis libertar-me um pouco mais em termos vocais.

6. No single It Means I Love You deste segundo trabalho existe uma sample de uma música de electro-gospel sul africano [Ndzi Teke Rendzo, de um músico padre sul-africano do Limpopo chamado Foster Manganyi]. Como é que te cruzaste com este género em particular? Que outras influências musicais africanas tens neste momento?
Começou por Nozinja [produtor electrónico oriundo do Limpopo, África do Sul]. Foi-me dado a conhecer através de um amigo, dos Mouse on Mars [duo alemão de música electrónica]. Eles puseram a tocar qualquer coisa de que não me consigo lembrar bem [de Nozinja], e abriu-me um mundo totalmente novo no YouTube. Deparei-me com a música que samplei na It Means I Love You ao navegar através do canal de YouTube do Nozinja. Foi o Jeremy Greenspan [membro dos Junior Boys], com quem eu escrevo, que disse que devíamos fazer uma sample do início desta música. Fizemos isso, e eu escrevi a It Means I Love You à volta dessa sample.

7. E daqui em diante, estás a pensar incorporar mais elementos de música africana em nova música tua?
Não sei. Se funcionar… É muito difícil de dizer para já, só agora voltei a trabalhar outra vez na minha música e voltei a ter tempo para estar no meu estúdio e trabalhar em coisas novas.

8. Ao ouvir a tua música, por vezes é perceptível uma certa dissociação entre uma música bastante alegre e dançável e letras com alguma tristeza implícita. É algo que tens em mente durante a sua criação?
Isso é algo bastante perspicaz, pois estou sempre a tentar não ser completamente depressiva. A música é a minha forma de me tentar fazer sentir melhor, de me animar. Por exemplo, quando estava a escrever o Oh No, eu e o Jeremy [Greenspan] estávamos a trabalhar neste projecto e eu estava num sítio muito estranho, sentia-me bastante deprimida, tinha insónias. Sentia-me mesmo mal. Contudo, ia para o estúdio e escrevia música que era o oposto da forma como me sentia. Realmente, a pergunta acerta nesse aspecto – a música é alegre, mas muitas vezes não consigo esconder como me sinto. E no estúdio às vezes sinto-me zangada, ou triste, e apesar da música positiva, essa tristeza emerge nas letras.

9. Referiste o nome do Jeremy Greenspan, dos Junior Boys, e sabemos que tens uma colaboração próxima com ele. Como é que achas que se influenciaram um ao outro em termos musicais nestes últimos anos?
Os Junior Boys foram uma grande banda para mim quando estava no secundário. Eles eram de Hamilton [Ontario, Canadá], e faziam esta música que era r&B mas que também era electrónica – eu nunca tinha ouvido nada do género antes, e o facto de serem de Hamilton, de fazerem tours internacionais… Eu realmente admirava-os quando era adolescente, sendo que o Jeremy é um pouco mais velho do que eu. Isto apenas porque Hamilton é uma cidade industrial, não é o tipo de sítio de onde achas que vai sair uma banda como os Junior Boys. Sem dúvida que eles foram uma enorme influência para mim. E uma das razões pelas quais gosto tanto de trabalhar com o Jeremy é o facto de ele perceber de onde venho sem termos de falar muito sobre isso. Por qualquer razão que não sei bem dizer – talvez porque nos conhecemos há tanto tempo – conseguimos trabalhar em conjunto com facilidade. Além de que existem muito poucas pessoas com quem me sinto confortável o suficiente para partilhar as minhas ideias. Acho que a nossa relação de trabalho é verdadeiramente especial nesse sentido.

10. Ficaste surpreendida com a forma muito positiva como ambos os teus álbuns foram recebidos, quer pela crítica, quer pelo público em geral?
Sim, definitivamente [risos]. Eu não fazia ideia de que iria correr como correu. Não querendo ser pessimista, mas tinha as minhas expectativas realmente baixas, sabes? Tinha de me preparar para o fracasso. Mas resultou. Definitivamente não estava à espera.

11. Na sequência disso, o ano passado deste um concerto no Pitchfork Music Festival em Paris que se revelou um enorme sucesso, tanto no próprio dia como posteriormente. Como é que te sentiste enquanto estavas em cima do palco e imediamente depois?
Tem piada que digas isso porque me lembro de pensar na altura “oh meu deus, eu não sei se alguém está a gostar disto de todo” [risos]. É tão estranho pois também já estive do outro lado, vi amigos meus a tocar, fale com eles depois e diziam-me “acho que aquilo correu mesmo mal”… Aquela foi uma noite estranha. Fico mesmo contente de ouvir que gostaste [risos].

12. Já estiveste em Portugal? Quais são as tuas expectativas em relação ao país?
Não, não estive. Bem, ouvi dizer que Portugal é um dos sítios mais bonitos para visitar na Europa. Por acaso em Hamilton existe uma grande comunidade portuguesa. Existe mesmo um bairro [com população portuguesa e luso-descendente] perto do meu estúdio, com muitos cafés que se dizem portugueses, com frango com molho piri-piri e com todo o tipo de bolos e tartes. Mas não sei quão próximo da realidade estão, são luso-canadianos, há ali um twist [risos]. Mas pronto, ouvi dizer que Portugal é incrivelmente bonito. Já estive na Europa várias vezes e nunca visitei Portugal, portanto é realmente entusiasmante esta oportunidade.

13. O line-up do Lisboa Dance Festival é bastante focado na música electrónica, não querendo estar a limitar-te em termos de género. Qual é que é a tua opinião sobre um festival somente dedicado à música electrónica?
Eu acho que é óptimo. Quer dizer, eu não sou esquisita quanto ao estilo de música que está nos festivais onde toco [risos]. Mas os festivais de dança e música electrónica são óptimos.

14. E o que é o público português pode esperar do teu concerto este mês?
Sem dúvida que vou tocar música de ambos os meus álbuns, isso vai acontecer. Mas não sei, olha vai ser espectacular, têm apenas de vir. Estejam lá!

15. Para concluir, quais são os teus projectos para um futuro próximo?
Estou a trabalhar em nova música com o Jeremy Greenspan. Estamos nas fases iniciais de algo. O que tem sido bom, até porque no último ano tenho feito mais tours e concertos, o que não me tem dado muito tempo para o resto. Vamos ver onde isso nos leva. Além disso, tenho também uma curadoria na BBC Radio 1, com um programa mensal a meu cargo e onde talvez irei passar música nova minha e onde passo muita música nova de outras pessoas que ando a ouvir no momento. Portanto, estou ocupada com isso. E claro que também continuo com as tours. Estou um pouco atulhada em trabalho, o que é bom [risos].

16. Já agora que mencionas isso, o que é que andas a ouvir mais neste momento?
Bem, deixa ver tudo o que tenho ouvido esta semana… Agora tenho andado mesmo obcecada com uma cantora da Rússia que se chama NV, e que lançou um álbum chamado Binasu – é fantástico. Recomendo vivamente ouvi-lo. Vou promovê-la desavergonhadamente, ela é mesmo óptima [risos].

João Gramaça