João Abrantes em palco é Jonny Abbey, um projecto electro-indie-pop que conta com a participação também de Cecília Costa e que tomou de assalto a cena musical no nosso país. A electrónica crepuscular faz-se ouvir através dos sintetizadores analógicos que entre cabos emaranhados tropeçam em notas provocadoras de uma guitarra eléctrica. A voz sussurrada de João mantém um hipnotismo no ar até sentirmos os pés a moverem-se ao ritmo de batidas a meio termo que nos fazem balançar o corpo involuntariamente. Estivemos à conversa com o artista português no nosso PunchLine [#37] e que bela conversa!

 

1- Qual foi o teu primeiro contacto com a música? E a primeira experiência com a música electrónica?

Com música electrónica foi mesmo muito recente porque eu sempre fui músico assim mais vocacionado para o rock. Aliás, o meu primeiro contacto com a música foi aos 17 anos, quando comecei a tocar guitarra. Já comecei assim um bocadinho tarde, relativamente a malta que começou quando eram quase crianças. Então comecei assim um bocadinho tarde e nem tinha nenhum músico na família, nem nada. Quando comecei a tocar guitarra, as minhas principais influências até eram Led Zeppelin, Jimi Hendrix. Aquela onda mais rock clássico. Era fascinante estar a ver aqueles músicos, a fazer aqueles mega solos, em palcos enormes! Por exemplo no Wembley, Woodstock… Esse foi o meu primeiro contacto com a música. A música electrónica foi algo que surgiu mais por uma questão de necessidade. Eu gostava de ouvir música electrónica mas, se calhar, o meu contacto com ela era mais numa de diversão. Quando uma pessoa saia à noite e ia para uma discoteca. Mais por aí. Nunca numa de consumo e de seguir bastante atento. E, quando comecei a escrever as minhas canções para este disco, que saiu no passado dia 17 de Fevereiro, senti que se conseguisse colocar a componente electrónica, que conseguia controlar quase todos os passos da composição de uma canção. Ou seja, eu podia ter uma malha de guitarra e com isso, podia fazer uma batida electrónica. Podia colocar uma bassline, também, para o mais sintetizado. E eu próprio conseguia com loops e, com acesso a sequenciadores e a programar… conseguia construir a canção do início até ao fim. Daí, foi quase uma muleta a parte da música electrónica para este disco. Claro que quando senti que até poderia ser também a minha identidade… Aliás, eu já tinha usado um bocadinho de electrónica a produzir outros artistas na altura. Mas nunca tinha utilizado para mim. E quando senti que podia ser algo que… Quero dizer, havia muito potencial utilizando a parte electrónica. Comecei então, depois disto mais a sério, a ouvir mais produtores e artistas. Até posso mencionar Nicholas Jaar, Jamie XX, Bonobo, Moderat. Assim um bocado essa linha electrónica mais moderna de malta que usa, desde samplagem a síntese propriamente dita. E aí é que foi propriamente o meu contacto assumido e estudioso da parte da música electrónica.

2- Como é que surgiu a ideia de criares o teu projecto a solo? Como é que surgiu a colaboração coma Cecília Costa na Bateria?

O projeto a solo surgiu porque eu estava um bocadinho cansado de estar sempre a criar música para os outros. Depois de tanto tempo de estar a produzir e, a gravar outros artistas, senti que já estava a ter um certo nível de consistência no meu próprio trabalho e que já estava a desenvolver a minha identidade e o meu som. E eu pensei, “porque não aplicar isto para criar o meu próprio projeto e escrever as minhas canções e, ser algo, que até pode ser para a brincadeira?” Aliás, a ideia disto era fazer um EP com três ou quatro canções. Mas depois comecei a escrever e, foi um sentimento tão bom de ter uma música finalizada e de conseguir ouvir e perceber que lembro-me realmente do que estava a querer dizer quando estava a compôr a canção… e conseguir ouvir isto, se calhar, um ano depois e dar a sensação de flashback para esse momento. E, foi algo que nunca tinha sentido tanto, quando fazia música para outros artistas e que comecei a sentir que era quase um bebé meu. Ter assim uma coisa mesmo muito pessoal e muito intima. Comecei a escrever essas canções, sozinho em casa. E o contacto com a Cecília. Nós conhecemos-nos nos Fingertips. Eu na altura estava a trabalhar com música e produtora no estúdio deles. E, a Cecília entrou como baterista. Entretantom nós passámos ainda algum tempo juntos, sempre a trabalhar no estúdio e ainda demos alguns concertos cá fora. E críamos um laço saudável, quase como se fossemos irmãos. E, havia ali uma química super interessante que eu logo desde de início quando comecei a escrever estas músicas tinha imaginado que ela seria a pessoal ideal, pelo menos para tocar ao vivo. Foi essa a minha ideia inicial. Eu queria escrever as canções e controlar tudo, era assim um bocado control freak, relativamente a isso. Imaginei que a Cecília tinha que tocar ao vivo, porque ela era a miúda ideal para isto e que ia fazer um trabalho excelente. Entretanto, começámos já a dar alguns concertos, como Jonny Abbey. Demos uns primeiros concertos muito verdinhos, muito experimentais… As canções ainda nem estavam finalizadas. Reparei que a Cecília tinha muito mais para dar do que simplesmente performance ao vivo. Então, comecei a integrá-la muito mais na parte criativa e do estúdio. E, cada vez quero que ela faça mais parte, porque ela é um membro de Jonny Abbey. Não é simplesmente uma música que toca ao vivo. Sinto mesmo que faz parte do projeto e é a pessoa ideal para isso.

3- O nome Jonny Abbey é o teu pomposo em inglês ou é uma homenagem aos Abbey Road Studios?

Sim, sim. Jonny é um bocado homenagem a Jonny Greenwood e Jonny Buckland que são guitarristas de Radiohead e Coldplay. Sou muito fã da sonoridade deles e daí estar escrito dessa forma sem “h”. Só Jonny. E Abbey, é Abbey Road Studios porque sou completamente viciado em produção. E mesmo o disco dos The Beatles, com esse nome, é incrível.

4- Fala-nos um pouco do teu album de estreia “Unwinding”, como é que foi o processo criativo? Quanto tempo é que demorou a ser feito?

O disco em si e as canções penso que foi bastante rápido. Foi tudo escrito em casa, no sofá. Tinha lá uma workstation, pequenina, montada. Tinha a minha guitarra, tinha uns controladores, o meu portátil… E foi tudo assim feito, dentro da caixa, como se costuma dizer. Foi relativamente rápido. Agora a parte técnica, de mistura e de voltar a regravar as vozes, demorou mais um bocado porque na altura ainda não tinha encontrado o espaço ideal para trabalhar. Só encontrei agora nesta fase final, que fiz as gravações e as misturas num estúdio do Porto que se chama o Silo, mesmo em frente ao Silo Alto. E depois de encontrar esse espaço parece que, desbloqueou tudo muito mais rápido. A fase final de finalizar as canções, mistura e gravação, deve ter demorado um mês. Mas já tinha as canções feitas, se calhar, há seis meses. Por isso, o processo teve um espaçamento, lá no meio, que não sabia muito bem para onde é que havia de ir e como é que havia de realmente fazer isto. E depois de encontrar aquele espaço, que também é um espaço que me inspirou e que me deu mais rotina e fogo no trabalho… Consegui acelerar muito mais o processo. Mas também já tenho o disco pronto desde Setembro de 2016. Só o lancei agora, mais por uma questão de estratégia. Porque, também, queria lançar três singles antes do disco. Lancei primeiro o,  ”So Far” em Maio do ano passado. Depois lancei a “Hold On” em Novembro. E, lancei agora em Janeiro a “White”. O disco, “Unwinding”,  saiu no dia 17 de Fevereiro.

5- Alguma inspiração em particular que sigas como modelo, durante o processo criativo? Quais é que são as tuas influencias para o trabalho?

Posso-te falar das inspirações que já te falei, que são o Nicolas Jaar, Jamie XX. Mas, também, acho que este disco tem uma vibe muito anos 80. Tens os sintetizadores que são um bocado aquela síntese mais analógica. Até te posso falar de Depeche Mode que, também é uma referência enorme para mim. E, toda aquela vibe de boas canções dos anos 80: menos exibicionismo, mais canções… Foi tudo uma grande influência para mim. Mesmo o revivalismo que temos agora. Bandas como Neon Indian que também são completamente focados nos 80’s. Foi tudo uma influência para o disco.

6- Como é que surgiram as colaborações com o Luís Mntenegro, inFeathers, e a Sandra Martins?

O Luís, foi provavelmente um dos primeiros artistas que eu contactei. Eu era super fã do trabalho que ele fazia como Lewis M. e do trabalho que ele fazia para Salto. E depois, penso que também tinha um projeto paralelo de mashups electrónicos. Eu era mesmo fã do tipo de batidas, sonoridade e groove que ele metia nas canções. Ele foi meu colega de curso, não era do mesmo ano que eu mas tirámos ambos o curso na ESMAE. O curso era o de produção e tecnologias da música. Conhecemos-nos lá, nessa escola. Eu lembro-me perfeitamente que, tanto o Luís como o Guilherme (elementos dos Salto), eram da malta mais proativa que estava sempre a fazer coisas, a fazer acontecer, e, sempre em cima das novas tendências e sempre criativos. Sempre admirei muito o trabalho deles. Por isso, entrei em contacto com ele e, graças a Deus, ele conseguiu-me encaixar na agenda dele que ele está sempre a mil à hora. Aliás, a ideia inicial até seria ele ter feito um remix. Mas, entretanto, começámos a trabalhar. E, eu lembro-me de ele levar um beat para o estúdio que já tinha umas ideias mesmo bastante avançadas, e já tinha muito potencial para uma canção. Depois, acabei por meter umas vozes em cima… A Cecília também meteu umas vozes… Eu meti umas guitarras… E, foi assim que surgiu a canção com o Luís. Relativamente aos inFeathers. Os inFeathers conheci-os na abertura do concerto da Sequin, no Maus Hábitos. Fiquei mesmo fascinado com o concerto deles e até pensei, “esta malta tem um potencial incrível”. Voltei a encontrar-me com eles em Braga, num programa que eles fazem que é o Porta 253. Lá, fazem showcases de bandas em sítios assim um bocado aleatórios. E eu na altura, senti que eles simpáticos e acessíveis e decidi mandar-lhes uma canção, que era a “Hold On”. O instrumental da “Hold On”, ainda estava assim um bocadinho básico e faltava muita coisa a fazer na canção. Mas, eles gostaram e pediram-me para fazer uma melodia de vozes e escrever uma letra. A Joana identificou-se com isso e o João, que é o baixista, fez uma linha de baixo e pronto. Fizemos a música no Porto, também. E, relativamente à Sandra. A Sandra já a conhecia há algum tempo, porque ela andou durante uns tempos a tocar na zona de Viseu, e tínhamos muitos amigos em comum. Acho que até já lhes tinha feito som, uma vez. Decidi entrar em contacto com ela porque tinha uma música mais soul e, ela nessa vertente é infalível. E pronto, aceitou o convite e criámos a “Like a Game”.

7- Alguma colaboração de sonho? Qualquer artista do mundo, morto ou vivo.

Essa pergunta é difícil! Neste momento… Eu, por acaso, já estou a pensar no novo disco, e gostava de ter assim uma vertente… Espero não me arrepender do que estou a dizer porque depois mudava de opinião, mas… Gostava de ter uma vertente assim mais future bass e neo soul! E, há uma artista que eu acho que canta incrivelmente bem, que é a NAO. Adorava que ela cantasse numa canção minha!

8- Quando ouvimos o álbum, ficamos espantados com a diversidade sonora e pelas influencias e estilos que conseguimos destingir de música para música. Gostas de explorar diferentes tipos de sonoridades? Como é que descreves a tua electrónica?

Sim, sim, claro que gosto! Eu gosto de ser versátil. Mas, às vezes quando uma pessoa é versátil demais, corre o risco de perder um bocado a coerência no disco. Por isso, eu na altura do processo de criação de maquetes e demos, tinha mesmo músicas muito díspares. Às vezes, não faziam mesmo sentido estar no mesmo local nem na mesma pasta do computador. Muitas das músicas, tive que as remodular de forma a conseguir ter alguma coerência no disco. Mas, penso que no final, correu tudo bem. Eu pelo menos sinto, quando oiço o disco, que há momentos diferentes. Porque o nosso dia-a-dia tem momentos diferentes, sentimentos diferentes e mundos diferentes. Mas, no final, faz tudo parte do mesmo pacote. Não é um disco bipolar, mas também não é um disco monocromático.

9- Como sabemos fazes parte da banda Mirror People do Rui Maia. Ele foi uma peça fundamental no álbum e na música que fazes? Costumam trocar ideias e inputs?

Por acaso, eu conheci o Rui Maia quando o disco já estava finalizado. Mas, eu lembro-me de lhe pedir o feedback nomeadamente e relativamente à ordem de lançamento dos singles. Nisso, ele foi uma ajuda bastante fundamental. Eu na altura do disco, tinha convidado o Rui para fazer um featuring no meu disco e eu lembro-me que ele respondeu que naquela fase não estava a fazer participações. Mas disse que eu tinha coisas interessantes, por isso disse-me “força nisso continua a trabalhar”. Não sei se teve algum peso ele ter ouvido a minha música do disco, porque passado cerca de um ou dois meses, ele estava-me a mandar uma música para Mirror People e a perguntar se não queria fazer uma participação. Claro que eu aceitei! Ainda por cima, o meu disco tem uma grande influência dos anos 80. E, acho que o primeiro disco de Mirror People também tem uma vibe assim muito anos 80. Eu lembro-me de ouvir Mirror People antes, e de achar o projeto incrível e achar que tinha um potencial tão grande. Sempre fui fã. Mesmo sem conhecer o Rui, já era fã! Por isso, acabou de haver uma ligação, de uma forma ou outra, do meu trabalho com o Rui.

10- Quais é que são as principais diferenças entre a electrónica feita no Norte e em Lisboa? Como é que descreves a cena actual da electrónica em Portugal?

Eu acho que há gente muito criativa nos dois sítios. Portanto, estamos a falar de Norte e Sul, mas podemos também estar a falar de Lisboa e Porto. Não sei se é uma forma redutora mas, pelo menos, a realidade que eu conheço mais é Lisboa e Porto. E eu noto perfeitamente que… Eu não sei se isto é um bocado puxar a brasa à minha sardinha, mas a malta do Porto tem um drive um bocadinho mais vincado. Não sei se é por termos um bocadinho mais de dificuldades em termos de… Quero dizer, o país ainda se encontra um bocadinho centralizado. Se calhar, ainda temos um bocado mais de dificuldade em divulgar o nosso trabalho. É que eu sinto que o pessoal trabalha muito, muito lá em cima. Mas também chego aqui em baixo e, vejo malta super criativa. Por isso, eu acho que até há coerência entre as duas cidades, a nível de música electrónica. Consegue-se arranjar os mais diferentes estilos. Por exemplo no Porto, uma pessoa ao sair para o Maus Hábitos tanto encontra festas de trap, de techno, de house, de future bass. E isso é super saudável, uma pessoa não se focar só num género e conseguir ir buscar influências a vários estilos de bandas de eletrónicas. Se calhar, é por isso que o meu álbum é tão versátil. Porque eu não consigo estar focado a fazer só um tipo de electrónica. Não conseguia chegar a casa e fazer só techno, por exemplo. Não sei, sentia a necessidade de variar um bocado. Eu acho que Portugal está a enfrentar uma fase criativa como não se via, nos últimos 10/15 anos. Não que eu tenha muita experiência nesse assunto, mas eu vejo toda a gente muito motivada. Quanto mais nos afastamos da ditadura que tivemos de 74, mais Portugal começou a criar a sua própria identidade cultural. Felizmente, vejo bandas que já conseguem ter alguma relevância no estrangeiro e, se calhar, há alguns anos não conseguíamos ver isso de uma forma tão relevante, como conseguimos estar a ver agora. Por isso, acho que toda a gente está a ir num bom caminho, com vontade de criar coisas novas e importantes para a música de hoje em dia.

Alexzandra Souza e Adriana Lisboa