Uma semana depois do Lisboa Dance Festival ainda estamos a ressacar dos grandes concertos que vimos no Lx Factory e já ansiosos pela próxima edição do festival de música electrónica. Fomos uma presença assídua durante os dois dias do festival e tivemos a oportunidade de nos cruzar com alguns dos artistas que passaram por aqueles palcos e até parar para uma pequena conversa. Uma das pessoas com quem estivemos à conversa foi Branko, aka João Barbosa, um nome fortíssimo num cartaz repleto de all star’s. Aqui fica a nossa conversa com um dos nomes mais sonantes na cena electrónica no nosso país neste momento.

Olá boa noite, em primeiro lugar… enorme fã! Tenho 25 anos e quando era puto adolescente apareceram os Buraka.
Obrigado! Portanto na altura tinhas 15 [risos] e o Branko era Little John

Ainda tenho o primeiro vinil dos Orelha Negra, em que tu participaste e ainda tenho lá escrito “Little John”, no disco
Eu não participei, não fiz nada, na realidade… a banda foi um pouco ideia minha, fui eu que lhes disse para fazerem aquilo

Na altura estava em Odivelas, na escola, e na altura esse disco serviu para aproximar pessoas de raças diferentes – foi uma cena muito porreira. Em relação ao Lisboa Dance Festival, estiveste cá ontem. O que é que tiveste oportunidade de ver, o que é que te impressionou mais?
Ontem estava com vontade de conhecer as salas. Penso que por vezes é difícil de implementar festivais em organismos vivos, como o Lx Factory, daí que tenha alguma curiosidade em perceber essa dinâmica – se funciona, se não funciona. Acho que sem dúvida existem (no Lisboa Dance Festival) salas interessantes. Vi um bocadinho de tudo: vi um bocadinho do DJ Glue ali na Antena 3, na sala da Ler Devagar; na sala dos B2B, do The Dorm; vi o concerto do Moullinex , a experiência do all night long set, com convidados – e gostei; a sala XL é sempre um pouco assustadora, gigante, com eco… fui embora relativamente cedo, por isso não cheguei a ver a sala full on, mas imagino que tenha sido fixe; vi a Jessy Lanza, que estava muito curioso para ver, mas achei que o som estava um pouco estranho – ainda assim, gostei.

Q&R Lisboa Dance Festival17′: Branko

Ela é bastante talentosa…
Eu gosto muito do trabalho dela gravado, daí que estivesse curioso para a ver ao vivo. Ontem não fiquei com a melhor impressão, não sei se foi da sala.

Eu até a achei relativamente energética, na actuação dela. Mas o som… Hoje não vais ter oportunidade de ver grandes concertos porque vais estar aqui mais fixo
Sim, vou estar aqui fixo, mas não levei a curadoria tão a peito como o meu colega, o  Luís Clara Gomes, que ficou aqui o tempo inteiro. Levei mais naquela de convidar artistas que eu admiro, que eu gosto, coisas que estão agora a acontecer na enchufada,… convidei o Clap Clap , que infelizmente não pode vir, e que tem um disco com apenas duas semanas que acho super interessante; assim, acabei por chamar para aqui a minha “extended family” musical – aquela visão global da música electrónica que eu tenho sempre um bocado, e pôr o pessoal a tocar; mas ter também o meu slot, claro. Vou estar por aí!

Como é que surgiu esta oportunidade de poder fazer curadoria?
Chegou-se à ideia um pouco em conjunto. O ano passado houve a ideia das editoras, do showcase. Discuti um pouco sobre esse tema com o Pedro Trigueiro sobre o que é que se podia fazer para envolver pessoas da cidade, mas com um conceito diferente. Chegou-se à ideia de curadoria, que me parece sempre um conceito positivo – às vezes sinto-me mais um curador do que um músico, por apresentar e juntar pessoas

Os orelha negra, que estávamos a falar, são nessa onda
Certo, a Enchufada também! É algo que para mim faz imenso sentido, juntar pessoas numa noite, pensar num alinhamento, no balanço de uma noite, na evolução de um alinhamento – estou sempre aberto a esse tipo de coisas. Também já fizemos noites da Enchufada, noutros festivais, fora e dentro de Portugal, e é algo que tenho sempre um carinho especial em fazer.

Há pouco estavas a falar da localização, do facto de este festival ser no Lx Factory, que dá outra camada ao sítio. E em termos de música electrónica, que é algo que nós não temos muito no nosso país, achas que é um conceito com futuro, que é válido?
Acho que é super válido, que é até óbvio – que ficamos a pensar porque é que não acontece há mais tempo! Sem dúvida que Lisboa está cada vez mais na moda, dentro e fora de Portugal, em todo o lado – é completamente diferente hoje chegar a Londres e dizeres que és de Lisboa, do que há dez anos – hoje em dia dizes que és de Lisboa com orgulho, porque sabes o valor que a cidade tem, e o teu receptor também. Muita disso deve-se à música, à cultura, deve-se ao facto de, através da música que se faz aqui, Lisboa ter ganho uma personalidade cultural única, diferente de todos os outros centros culturais europeus. Lisboa está num meio termo – tem o melhor da Europa, com o melhor de muitos outros sítios no mundo que são muito mais interessantes que a Europa – África, Brasil,… é uma metrópole muito interessante, um “boiling pot” brutal

Um “melting pot”?
Sim, um “melting pot” brutal para tudo e mais alguma coisa. É super importante ter um festival a celebrar exactamente isso, que chame o resto do planeta a vir aqui, a consumir música electrónica no sítio onde a música electrónica está a ter uma micro revolução – acho mesmo que faz todo o sentido e espero que as massas sociais também assim o entendam.

Que é que achas que faz falta para que fiquemos mesmo contentes com Lisboa. Sentimos sempre que falta ainda algo mais. Achas que faltam mais iniciativas destas?
A cidade de Lisboa, em termos de indústria musical, é muito velha. Agora é que começas a sentir a força das pessoas – Buraka, Enchufada, têm menos de dez anos! Precisámos de um agente, porque os agentes que existiam não entendiam a diferença entre um DJ Set e uma actuação ao vivo, em 2007. Tivemos de percorrer um caminho para conceitos que hoje já são básicos. Tivemos de criar uma agência, de vender o espectáculo, para que os conceitos fossem bem entendidos. Essas estruturas têm de crescer, de ganhar uma dinâmica muito mais activa, muito mais “hands on” e Portugal tem de saber celebrar-se. Falta muitas vezes aos artistas, as estruturas, saberem usar a sua própria camisola. E chegares lá fora e fazeres isso também! Eu não vou para Londres usar uma t-shirt do Fabrik, vou para lá usar uma t-shirt do Lux! Esta cultura começa a existir, mas ainda não é a norma. É essa dinâmica que ainda pode crescer.

Isso acaba por ser mais fácil para ti porque já te estabeleceste com um público lá fora, que tocas muito mais fora do que em Portugal, não?
Eu também toco muito por cá, apesar de tocar em muitos países lá fora.

Há muitos projectos que nós vemos, que têm imenso potencial, mas que não conseguem sair… quase de Lisboa, mesmo.
A cena passa por não tentares fazer o mesmo que já existem mil pessoas a fazer melhor, acho eu. Passa por marcares pela diferença, por teres uma coisa única, por cresceres e tentares fazer música com isso – porque todas as pessoas são relativamente únicas, dentro do seu núcleo de amigos, de pessoas, de rua, de bairro, … se transformas isso em música, de alguma forma, isso vai ser único! Sendo único, vai ter um impacto brutal lá fora. Ainda ontem estava a falar sobre um projecto – os Throes and the Shine – e realmente a cena deles é tão diferente que, independentemente de conheceres ou não música, paras um minuto em frente ao concerto e interessas-te! Gostes ou não gostes, tem impacto. Essa é a procura, antes de te dares ao luxo de fazeres algo mais genérico, de te tornares num DJ de Techno genérico, por exemplo, podes começar por ser um DJ de Techno diferente! Não tentes ser o Ben Clock, porque não cresceste, não vives em Berlim, não tens essa base, não és tu! Ou se és, se cresceste… começa a carreira lá, não comeces aqui! Nesse caso não és um artista de Lisboa, és um artista de outro sítio qualquer. Ou ainda que sejas daqui, geograficamente, a tua visão musical é outra.

João Gramaça e Andreia Duarte