Tudo começou com o Napster. Apesar de ilegal, os downloads piratas mudaram a forma como ouvimos, consumimos e pensamos a música. De repente, tudo estava disponível e à distância de um clique. A revolução tinha começado, mudando o paradigma de uma indústria com perto de um século de existência. Os CD, vinis e cassetes foram trocados por bocados de bits perdidos num computador. Os gira-discos, walkmen e sistemas de hi-fi, deram lugar aos iPod’s, leitores de mp3 e todos os demais.

Mas não bastava mudar o suporte de físico para digital ou trocar as discotecas pelo iTunes. Da disponibilização de tudo, da aparente ausência de direitos de autor, do consumo cada vez mais célere da música e da computação em cloud, surgiu o streaming que é atualmente a mais popular forma de consumo musical no mundo.

Num mundo onde temos acesso a todas as músicas alguma vez gravadas, sempre disponíveis e que nem sequer ocupam espaço na memória dos telemóveis ou computadores, as chaves do conhecimento, outrora guardadas pelos DJs, locutores de rádio, músicos, membros da indústria ou aquele amigo que diz que é cratedigger, foram devolvidas ao comum mortal com tudo o que de bom, e de mau, daí advém.

Quem nunca deu por si pasmado com Spotify, iTunes, Youtube, Media Player, ou a estante dos vinis do teu tio, sem saber o que ouvir? Numa época onde temos tudo, a questão essencial é escolher.

Se antes Peter Tong ou António Sérgio eram como Promoteus, trazendo o fogo que iluminava o nosso obscurantismo musical, hoje Zane Lowe ou Rui Miguel Abreu são Moisés, que do deserto sonoro nos guiam até à terra prometida.

A relevância da curadoria musical cresce de dia para dia. Programas de autor, sejam eles na Oxigénio ou na Beats1, com músicos, produtores ou eruditos, traçam-nos uma rota num mar de skips e plays aleatórios, que simplesmente nos cansam e afastam da arte mais essencial ao ser humano.

O culto do DJ, que pinta telas sónicas com músicas completas, samples, beats, ruídos; que faz do corte e costura, da colagem e montagem, uma peça orgânica e singular, não é algo recente. Das festas de rua do DJ Kool Herc, até às festas no mato de Almeirim, a capacidade de por a plateia a suspirar pelo próximo tema, incertos durante desde o intro sobre o destino da viagem, é um talento especial. A arte de criar uma setlist, que descreva uma viagem com altos e baixos, com um encadeamento lógico ou inesperado, a partir de fragmentos e peças soltas tiradas da obra de outrem, é um argumento artístico tão criativo e original, como aqueles que compuseram aqueles, agora fragmentos de uma peça maior, mais densa e em constante mutação.

Nas playlists geradas algoritmicamente persiste a falta de toque humano, a capacidade de visionar algo maior que o número de plays, o género ou a sequenciação harmónica dos temas. É daí que resulta o crescimento de podcasts, disseminados online ou nas ondas radiofónicas. As residências e noites de curadoria são uma constante, tanto em Portugal como fora de portas e a tendência é de aumentar, assim como os programas de autor e as rádios digitais que conquistam espaços de transmissão cada vez mais alargados.

Enquanto no formato e na forma de reprodução as mutações são uma constante, a essência mantém-se. A curiosidade, o respeito por algo pensado e bem executado, a sede de novidade e a vontade conhecer mais, e acima de tudo, melhor, são traços elementais do ser humano e são essas características que devem ser alimentadas e promovidas por aqueles com poder de decisão, ou pelo menos com audiência. Porque a vida tem de ser mais que uma contagem decrescente dos 100 mais tocados da semana.

 Nuno Camisa