A passada noite de terça-feira foi, toda ela, de Joan as Police Woman. Não se enganem os desprevenidos: não é, na verdade, uma agente policial per se, embora, em palco, toda a autoridade revolva na sua carismática imagem de Joan Wasser. No Theatro Circo, num concerto a propósito do disco que gravou a meias com Benjamin Lazar Davies, foi uma espécie de mestre-de-cerimónias e maestra para os restantes três músicos em palco: Ryan Dugre, na guitarra, Ian Chang na percussão, e Lazar Davies, encarregue do baixo e da voz também.

De toada predominantemente electrónica – como denuncia a primeira faixa, Broke Me in Two -, poderá induzir em erro os incautos quanto às usuais aventuras de Joan. Esta colaboração é recente, e, antes disso, já temos um considerável legado musical por parte da americana: integrou os Antony and the Johnsons, e trabalhou com uma série de enormes da música americana: Elton John, Sparklehorse, John Cale, ou Rufus Wainwright. Chegou, ainda antes de se dedicar de corpo e alma à música, a namorar Jeff Buckley, numa relação que durou até ao fatídico dia em que perdeu a vida, num rio em Memphis. Esta informação não é extraordinariamente relevante – se o é de todo – mas serve para ligar algumas pontas soltas, e enquadrar a artista na música americana contemporânea. Joan é uma espécie de entidade camaleónica que a tudo se adapta como se o fizera desde o início da sua carreira.

E a recepção em Braga, cidade que já a conhece – e onde planeia voltar já para o ano -, dificilmente poderia ter corrido melhor. A sala estava bem composta quando o grupo irrompeu palco adentro, com os dois músicos de destaque envergando semelhantes jumpsuits azuis, como na capa do seu disco; e a ele se lançaram prontamente, e Joan com uma energia improvável para quem já vai além dos seus quarenta anos.

O disco Let It Be You foi o grande eixo deste concerto, embora dele tenham divergido de quando em quando para pôr um pé na carreira individual de cada um (e dado que conta apenas com 37 minutos, era uma medida necessária; felizmente, foi também agradável). Denunciadamente pop em quase todas as suas vertentes, tem, para cada momento alto de criatividade e conjugação dos dois músicos, o equivalente inverso onde a experiência não corre tão bem. Ainda assim, quando a fórmula funciona, não há quem detenha a parelha Joan e Lazar Davies.

Broke Me In Two, exemplo maior que abre o disco, é pautado por um repetitivo riff que corre paralelo a tudo o que mais tarde aparece: as vozes, a percussão suave, a métrica do refrão; e facilmente o enquadramos como um som de sintetizador, logo electrónico. Mas, eis que descobrimos, pela sua materialização justamente diante de nós, que surge da guitarra de Ryan Dugre – e assim, explica-se a origem de um dos mais interessantes pormenores das músicas criadas, um motif recorrente ao longo do disco. Benjamin terá consciência disto mesmo, e, por entre músicas, deu a explicação: há uns anos terá viajado para o Gana, donde voltou com o tal fato azul (uma permuta com um africano, que lhe ficou com umas calças e uma t-shirt colorida) e com a ideia deste riff eléctrico, pernicioso, e extremamente eficaz. “E construímos um disco à volta dele”, diz depois, a meio caminho entre uma verdade e uma piada.

De facto, esse truque será repetido noutras faixas de Let It Be You - logo na seguinte, Overloaded, com destaque para a voz masculina -, mas, ao vivo, tudo é um autêntico deleite. A banda é capaz e ciente do trabalho a fazer, e Joan, sempre com o público na sua mão, conduz o espectáculo com uma mestria ao alcance de poucos. Quando não se baseiam nas músicas do mais recente trabalho, permitem-se a explorar outras roupagens musicais, e ouvimo-los a puxar mais pela guitarra, devedores à tradição americana do blues energético; a marcar passo para enveredar por ensaios instrumentais, como se ensaiassem um shoegaze versão light; para logo de seguida rasgar como se ali acabasse o concerto, e logo depois tudo o resto.

É música competente e construída com a sapiência de quem a faz há muitos anos. Joan pede que o público se levante para a dançar, agradece num ‘obrigada’ arranhado mas esforçado, e confessará, numa interregno mais comprido no qual apresenta os restantes músicos e seus projectos musicais paralelos, que é da música que tem vivido e que, sem ela, tudo seria mais difícil. É algo que a sua própria história o demonstra, num nível pessoal que transparece e encontra força no plano profissional; e tudo isto fica resumido num momento mais íntimo, solene, quando interpreta We Don’t Own It, uma canção de homenagem à memória do cantautor Elliott Smith, de quem era confidente.

A noite terminará com um suado encore, já para lá da hora e meia de espectáculo; Joan saiu do palco através do corredor principal do público, para o reencontrar à saída. Ainda ficou mais meia hora, juntamente com o resto da banda, a autografar discos e a tirar fotografias, e a estender a noite de artista para lá da actuação no palco; acarinhada por todos, apenas confirma a singularidade desta artista, que sem nunca ter tido muita atenção no mainstream, reúne um público que a guarda em alta estima. Uma enorme personagem, esta Joan as Police Woman. Volta depressa!

Reportagem: Alexandre Pinto
Foto Reportagem: Henrique Almeida