Estávamos errados, muito errados. E daí, talvez não. Quem é João Coelho, mais conhecido por Slow J? Para quem o conhece desde o magnífico The Free Food EP, ele é uma das grandes esperanças do rap nacional, tido em conversas informais como um dos que, par com outros jovens MC’s como Nerve, Mike el Nite, PZ, para mencionar alguns, andam a agitar as águas do hip hop nacional tal como Sam the Kid, Valete ou Halloween o fizeram dez anos antes. Rapper fluído, com skill aliado a flow, primava por instrumentais ricos, todos produzidos e tocados pelo próprio, sempre com uma tónica de jazz e groove muito vincada. Era diferente, alheio a modas, e singular. Uma nova onda de hip hop, inspirada tanto na Native Tongues dos De La Soul e A Tribe Called Quest, como ao incontornável To Pimp a Butterfly, mas com alma e cabeça própria.

O que Slow J nos mostra neste novo trabalho, é que tanto conceitos como influências, ondas, ou mesmo géneros, são antiquados e demasiados limitantes para um artista assim.

O início musical do álbum desde logo finta as convenções, abrindo com uma guitarra suja e a cantar, mais numa linha de indie do que no hip hop/RnB que se podia esperar, mas é com “Casa” que Slow J abre o livro. Com um beat vivo, fazendo lembrar um semba com sopros latinos, fica difícil não bater o pé. A letra continua a um nível altíssimo, contrapondo a imagem romântica das terras sadinas onde nasceu, com as suas raízes africanas. Luanda, Lisboa, fado ou semba, para que complicar, lá em casa qualquer cor dá.

Sonhei para dentro, uma das várias musicas mais retrospectivas que habitam o álbum, destaca-se não só pelo uso da guitarra portuguesa como pela amostra da capacidade vocal deste rapper, ou será mais acertado chamar-lhe cantor? “Às vezes parece ser uma extensão deste humor, e quem melhor que o sacana nervoso, Nerve, para subir a parada. Num beat sóbrio, talvez mais próximo dos trabalhos do convidado do que do próprio, Slow J fala de alienação e de depressão, e da forma como estas são descuradas, até ao ponto sem retorno.

Comida é o som da porta a arrombar. É a musica de um liricista implacável e esfomeado. Mais uma vez a versatilidade de Slow J é demonstrada, nota que é sublinhada pelo mesmo. Fazer com Rui Veloso, o que o Ronaldo fez com o Figo. Slow J relembra-nos, como poderíamos esquecer, que o topo para o qual ele se destina não e de um género, mas sim de uma arte.

A sequência “Biza”, “Último Empregado” e “Pagar as Contas”, pintam uma imagem histórica, com tanto de autobiográfica como de transversal. Da quarta à primeira geração, desde aqueles que saem do seu país à procura de uma vida melhor, àqueles já nascidos noutra parte do mundo, a necessidade de trabalho esforçado e exaustivo parece perpetuar-se, enquanto que a ideia de esperança se vai erodindo. A declaração de intenção de ser o “Último Empregado”, rompendo com este ciclo vicioso, é deitada por terra pelas vicissitudes da vida em “Pagar as Contas”.

E inegável a qualidade que temas como “Sado”, outra declaração de amor a terra que o viu nascer, e “Mun’danca”, uma electro africana não totalmente descabida do que a Príncipe Discos tem andado a lançar, há alguma coisa que ele não faca?. no entanto estas surgem numa fase anticlimática do álbum, após o incontornável “Vida Boa“, podendo por isso passar algo despercebidas. Talvez seja este o único erro a apontar a este trabalho, uma sequenciação menos que perfeita em alguns momentos.

The Art of Slowing Down não é o álbum perfeito do rap nacional, nem foi para isso pensado. Há demasiadas experiências, riscos tomados, explorações e ideias soltas neste primeiro LP de Slow J, para o ser. Mas é uma viagem sónica através de uma das mentes mais criativas na música nacional. Sem se deixar prender por géneros ou inibições. The Art of Slowing Down é o álbum mais desafiante e multifacetado dos últimos tempos, demonstrando que o hip hop, não, a música portuguesa está de muita boa saúde e recomenda-se vivamente.

Nota: 9.0/10

Nuno Camisa