Com o segundo trabalho, os Mirror People encontraram a sua voz. Depois do primeiro longa duração, onde Rui Maia escreveu, compôs, tocou e produziu todos os temas, com aparições de uma miríade de colaboradores de todos os espectros da música electrónica, é neste segundo LP, Bring the Light, que a banda efectivamente fica formada.

Mirror People definem-se como New Wave-Disco, embora quem os tenha ouvido por mais de cinco minutos perceba que são muito mais; têm por génese serem um projecto alternativo de Rui Maia, dos X-Wife, o que é por demais evidente nos primeiros temas. Nestes, entre convidados díspares, existiam ideias e influências distintas, às quais faltava ainda um fio condutor, uma espinha dorsal, na identidade musical da banda. Com Bring the Light, esta identidade chegou.

Depois das adições de Jonny Abbey e João Pascoal, o núcleo duro da banda ficou fechado, e com ele veio uma coerência que lhe tinha vindo a faltar. Se, ao ouvir este novo trabalho, nos passa pela cabeça DFA Records, Depeche Mode ou Daft Punk, também é verdade que nunca estes “piscar de olhos” ultrapassam mais que a sugestão ou casual homenagem. Bring the Light é Mirror People em todas as suas vertentes.

“Crime Scene” é o tema que dá o pontapé de saída. Com uma componente rítmica musculada e um riff orelhudo,  é fácil perceber o porquê de ter sido escolhido para single. É impossível não ficar com as teclas e acordes na cabeça o resto do dia. O tema que se segue, “Cool Kids”, parece tirada do catálogo da DFA, sendo uma música decididamente mais electrónica que a anterior, mas com um groove inegável. “Good Times” não tem problemas em referenciar a dupla de robots mais célebre da musical francesa, e com ela fecha a fase mais acelerada deste LP.

“In Your Eyes”, “It’s Not Over” e “Night Time” são os elementos mais fantasistas, com teclas de dream pop a darem-lhes contornos mais suaves e melódicos. São mais uma das personalidades que os Mirror People nos querem mostrar, fazendo-o com leveza e uma descontracção que vêm de uma química intra-banda muito forte. Os tempos do álbum são conjugados com elegância, fazendo o ouvinte planar entre os picos e vales que saem das colunas.

A canção que dá o nome a este álbum , “Bring the Light”, é também, sem dúvida, o seu momento mais negro. Um sintetizador hipnotizante e uma voz sussurrante fazem a par de “Taste of Murder” uma combinação até aqui inaudita. É difícil não imaginar o David Gahan a perguntar como é que estas malhas lhe escaparam!

“So it Goes” espera-nos na pista de dança mais próxima. Este é o tema que nos pede para pôr os fones no máximo e improvisar uns passos de dança seja onde for. Com um jogo de luzes adequado, é impossível esta música não entrar em alta rotação nas playlists de verão.

Bring the Light é a chegada à maioridade dos Mirror People. As experimentações, oscilações de elementos, dores de crescimento (pelas quais qualquer banda passa), todas foram fases necessárias para que a banda pudesse emergir mais coesa, mais segura e adulta. Resta-nos aplaudir o mentor deste projecto, Rui Maia, que, após um regresso em grande dos X Wife (em 2016) parece não querer abrandar, presenteando-nos com mais um grande trabalho.

Nota: 8.5/10

Nuno Camisa