Quando a notícia chegou aos jornais, ainda em discretas, curtas colunas, parecia um rumor absurdo ou uma partida de dia das mentiras: os portugueses The Gift teriam apalavrado com Brian Eno a produção do seu novo disco, que sucederia a Primavera, de 2012, e ainda a Explode, no ano anterior, que passou por incompreendida experiência gravada no país de nuestros hermanos.

A decisão, embora nunca tão mediática, não é inédita: já haviam, nesse mesmo disco Explode, requisitado a ajuda de Ken Nelson. Mas Brian Eno é, sem dúvida alguma (caso as haja, basta analisar a sua carreira) uma das mais influentes personas da música pop a partir da década de setenta, conhecedor dos vários processos de criação musical. E passaram-se os meses, o rumor não se desmentia e, por isso, ganhava força: haveria ponte entre Alcobaça e o Reino Unido? Seria possível? E como? Altar chegou no final da passada semana, misturado por outro nome dos grandes – Flood – e traz a presença do britânico na produção, letra, e até nalgumas vozes – mas é ainda, indubitavelmente, um álbum dos Gift.

“Love Without Violins”, o primeiro dos singles, ainda ensaia um engano: a voz tensa e sensual de Sónia Tavares (camaleónica, como sempre) arrasta-se em movimentos assertivos num teatro negro e claustrofóbico, ao qual poderíamos associar alguns ares de pós-punk apenas pelo trabalho nas teclas. A melodia incisiva faz parte de um maior exercício elusivo de música pop, que foge ao cânone estabelecido de refrão, de linearidade, que parece até ser uma outra canção numa segunda fase, quando chega Eno e a sua característica luminosidade. Faz lembrar uma composição a dois actos; o que se estranha, embora as regras, claro, existam para ser quebradas. Quem senão os Gift para aceitar o desafio?

Por outro lado, e anteriores no alinhamento do disco, souberam entregar-se de corpo e alma a duas canções que sugerem, até, algum subtil envolvimento criativo por parte do britânico: são elas “Clinic Hope”, também um single, e “Big Fish”, outra das músicas que receberá airplay nos próximos meses. Na primeira, ao sabor de uma uma linha melódica de teclas que poderia ser uma variação de “St. Elmo’s Fire” (Another Green World, 1975) e que terá protagonismo a dada altura da canção, sentimo-los em terreno familiar e seguro, quase oposto ao do single anterior – e equipara-se ao que de melhor os portugueses já fizeram; já “Big Fish”, através da sua infecciosa percussão, recorda imediatamente os Talking Heads, houvessem estes tentado fazer música que esgotasse o seu máximo potencial numa deliciosa bolha pop. É uma música com projecção de grande público, um dos hinos possíveis a retirar do disco.

Não se entenda este desenrolar de possíveis influências, ou traços comuns, como uma crítica implícita a Altar e ao que os Gift criaram; pelo contrário: um músico ouve e apreende o que lhe interessa e há-de construir a sua própria identidade partindo de um caminho já trilhado, necessariamente, pelos que lhe antecederam. Ainda assim, Altar parece conter duas facetas dos portugueses: se as primeiras quatro músicas revelaram uma imensa curiosidade e permeabilidade às ideias de outrem, o resto do disco pautar-se-á pela fidelidade ao que deles se espera.

São boas notícias para quem vem acompanhando a sua carreira, sobretudo a dos últimos anos, já estabelecidos como arautos de música descomplicada e afectuosa, apropriada para o exigente mercado da rádio e da música pop. O grupo de Alcobaça está numa fase da carreira na qual se julgam capazes de almejar a mercados além do português – nesta perspectiva, a nomeação de Brian Eno não é inocente -, cientes e receptivos à experimentação e reinvenção, ainda que dentro de um invólucro comercialmente apetecível.

Altar é, então, um trabalho sincero de um grupo de quem dificilmente se ouvirá algo de revolucionário; de resto, não é a isso que se propõem. Habitam confortavelmente o espaço delimitado pela pop e regido pelas regras do mercado comercial; fazem-no sem complexos e com a máxima graciosidade; e tudo com candura, simplicidade, a aproveitar o que as distintas fases da sua já longa carreira proporcionam. Adivinha-se, agora, um período de promoção ao disco, onde algumas destas músicas vão poder expandir-se no espaço que lhes é devido. Juntem-se a essa festa!

Nota: 7.0/10

 Alexandre Pinto