Fomos até Barcelona para viver o Primavera Sound como verdadeiros festivaleiros, para nos deixarmos envolver pelo ambiente, para nos imiscuirmos na multidão. O Parc del Fórum foi a nossa espécie de casa nos primeiros três dias de festival. Foi nele que bebemos sumos de mango ao som de concertos do palco Ray-Ban; que nos sentámos, de mar no horizonte, no palco Night Pro, e também nas incríveis escadarias ao lado do palco Adidas; que bebemos finos (não imperiais!) da equipa d’A Casa Portuguesa que trabalhava por todo o recinto; que dançámos à sombra da bananeira no palco Bowers and Wilson; que descansámos junto à praia enquanto a equipa Baywatch corria de um lado para o outro; que furámos mais um pouco a multidão para chegar perto dos artistas que mais queríamos ouvir.

Este primeiro dia do festival, dia da criança, foi de descoberta. Chegámos a tempo de aproveitar um pedaço de relva e uma bela sombra, enquanto observávamos os festivaleiros que estavam ainda mais ansiosos do que nós por entrar no recinto. Foi neste modo que começámos o festival, entre fotos das pessoas que povoavam o espaço e o concerto de Mishima, uns espanhóis que soavam a portugueses, pela forma como cantavam as suas músicas e as suas interacções com o público. Estes actuaram no palco Ray-Ban, que nos pareceu de patrocínio bastante adequado pela necessidade de óculos de sol que este despertava.

Com o DJ set de Alexis Taylor e as actuações de Moscoman e InnerCut, conhecemos os palcos electrónicos do festival, o Bowers & Wilson e o Bacardi Live, que nos faziam atravessar uma ponte com vista para a Marina e um clube que nos lembrava o nosso Tamariz. Desse lado, as sombras pintalgadas de LEDs coloridos e a presença da praia transmitiam de imediato a vibe adequada para libertar a mente de preconceitos tontos e agitar os corpos ao som, por exemplo, de melodias dos Hot Chip.

Primavera Punch, Barcelona - Dia 1

Voltamos à parte mais central do recinto para conhecermos o Auditori Rockdelux, localizado num edifício desenhado pelo par de arquitectos suíços Herzog y DeMeuron, que convidava a fotos incontáveis das entradas de luz. Era Elza Soares que nos esperava na sala. Que privilégio ver a mulher do fim do mundo, no alto do seu trono e tão bem acompanhada pela sua ímpar banda, duas vezes em pouco mais de seis meses. Sentimos a forte presença do povo brasileiro entre o público, principalmente nos já hinos “Maria da Vila Matilde”  e “Eu bebo sim”, entoados em coro nas primeiras filas do auditório.

Primavera Punch, Barcelona - Dia 1

No palco Pitchfork, actuavam os ingleses Glass Animals, que apresentavam o seu mais recente How To Be a Human Being. Estes serviram de aquecimento para aquele que seria o concerto da noite, pelo menos para nós — Solange.

Não deve ser fácil para Solange lidar com o facto de ser a irmã indie de Beyoncé, mas admiramos (ainda mais) a cantora por isso mesmo. Este concerto trouxe-nos uma onda muito 90′s (talvez a piscar o olho às Destiny’s Child?), de fatos em condizentes cores quentes e coreografias ensaiadas ao milímetro. Durante a primeira metade do concerto, observámos uma transcrição do A Seat At The Table. A voz de Solange afirma-se de maneira segura ao vivo, tomando partido, ainda assim, do par de garotas que lhe servem de suporte como coro. Em background, durante todo o concerto, esteve presente uma lua cheia, que nos sugeriu ainda mais um fechar de círculo quando o concerto (antes do encore), terminou da mesma forma que começou – com um coro que afinava de forma perfeita os acordes que a restante banda tocava.

Primavera Punch, Barcelona - Solange

Retomámos o fôlego até Bon Iver, que começou por nos encher de saudades do público português, silencioso, introspectivo, do nosso Coliseu dos Recreios – não foi esta a única ocasião em que nos vimos rodeados de pessoas que pareciam mais interessadas em conversar do que em ouvir os incríveis artistas que tocavam nos palcos do Primavera Sound. Não nos deixámos demover. Mais do que 22, a Million, as músicas de For Emma, Forever Ago, e Bon Iver, Bon Iver apelavam aos melómanos que existem em nós. Avançámos pelo meio da multidão e deixámo-nos envolver pelas melodias perfeitas destes álbuns, em músicas que se pareciam suceder de forma ininterrupta. Talvez por isso nos tenha tomado tão de surpresa a pausa que Justin Vernon fez para nos dizer “Greed really comes from being afraid to die. The power of our insignificance is our greatest asset”, antes da introdução de “Holocene”, que tanto sublinha a frase “And at once I knew I was not magnificent!”. Ficámos indecisos entre este momento e o final despido, com “Skinny Love”, com que o cantautor fechou o concerto, sozinho em palco, apenas com a sua guitarra.

A nossa primeira noite terminou com Aphex Twin, enfant terrible da techno. Os seus efeitos visuais incríveis distorciam em tempo real o público das primeiras filas, nos ecrãs gigantes. Neste concerto não precisámos de pensar em letras – dançámos tudo o que havia para dançar, com a energia que tínhamos reservado nos mais calmos concertos anteriores.

 

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Texto: Andreia Duarte

Fotografias: Daniel Campos