Neste terceiro dia, chegámos ao Parc del Fórum divididos entre a expectativa sobre os concertos em falta e a tristeza por saber que o Primavera Sound não iria durar para sempre. Tal como nas tardes anteriores, começámos por beber um sumo de mango e ver o que o palco Ray-Ban tinha para nos apresentar. Desta feita era Melange, um quarteto madrileno que nos brindou com o folk-rock do seu álbum de estreia.

O sol quente convidava a uma nova incursão aos palcos electrónicos, junto à praia, mas antes espreitámos o hip-hop dos também madrilenos Agorazein, no palco Adidas originals. Não demorámos muito até subirmos as escadarias do impressionante Solar Pergola, onde tínhamos de parar sempre para mais uma fotografia, e atravessarmos a ponte para a zona do palco Bacardi Live. Natural de Israel, Noga Erez já mereceu comparações a nomes como Björk, St. Vincent ou FKA Twigs, graças à sua electropop futurista.

Primavera Punch, Barcelona - Noga Erez

Aproveitámos a tarde também para conversar com os Metronomy, que actuariam mais tarde no palco Mango. Apesar de terem tocado algumas músicas novas nesse concerto, os fãs agradeceram a reincidência em êxitos de álbuns mais antigos, como English Riviera.

Grace Jones, hoje com quase 70 anos, provou no palco Heineken que continua a ser uma força da natureza. Procurámos um pouco de calma e boa vibe com Seu Jorge, que veio a Barcelona apresentar o seu tributo a David Bowie, The Life Aquatic. Mais uma vez, o enorme anfiteatro do Ray-Ban transbordava. Enquanto Seu Jorge cantava em português, os muitos ingleses presentes no festival entoavam os conhecidos refrões de David Bowie na sua língua nativa, o que resultava numa mistura bastante peculiar.

Primavera Punch, Barcelona - Seu Jorge

Os Arcade Fire tinham protagonizado um unexpected Primavera que muito deu que falar, logo no primeiro dia do festival. Esta foi uma novidade da edição deste ano do Primavera Sound, que mereceu comentários acesos no Facebook da organização. Junto ao palco Mango, observámos aquela que nos pareceu a maior massa de público de todo o festival. Foi infeliz que precisamente nesta ocasião tenham existido alguns problemas com os ecrãs gigantes, que teimavam em não subir para nos mostrar em primeiro plano cada um dos elementos dos Arcade Fire. Em bicos dos pés e de coração nas mãos, respondemos ao repto inicial de “Wake Up”, juntámo-nos a cada um dos hinos da banda, e até a nova “Everything Now” cantámos. Faltam-nos os adjectivos para descrever os concertos destes canadianos, mas temos plena consciência de que estamos sempre disponíveis para os ver mais uma vez.

Foi contagiante a energia em palco, com trocas sucessivas de instrumentos e músicas que se sucederam num espectáculo quase sem intervenções sob a forma de conversa – quando tal aconteceu, pela voz de Win Butler, trouxe palavras sentidas de agradecimento. Adorámos a forma como a sensível voz de Régine Chassagne pautou as músicas mais calmas e se apoiou em Win para conquistar os refrões. Aceitámos o experimentalismo em alguns momentos, com músicas de Neon Bible Reflektor, mas vibrámos ainda mais quando o palco se iluminou com luzes que simulavam a cúpula de uma igreja e a banda recuperou músicas do seu ímpar álbum de estreia, Funeral. Com um concerto recheado de grandes êxitos, os Arcade Fire aproveitaram o Primavera Sound para um par de surpresas, como a apresentação da música “Neon Bible” ao vivo, pela primeira vez em nove anos; do próximo álbum trouxeram-nos ainda “Creature Comfort“.

Primavera Punch, Barcelona - Arcade Fire

O último dia do Primavera Sound pelo Parc del Fórum ainda não tinha terminado. A organização do festival tinha lançado um teaser no instagram durante a tarde, em mais um evento de Unexpected Primavera. Entre a sugestão do nome do novo álbum das irmãs californianas HAIMSomething To Tell You, e o facto de as três terem enchido as suas próprias contas de instagram com fotos da Sagrada Família, houve muitos festivaleiros a acorrerem ao palco Ray-Ban. Da primeira fila do concerto, foi apenas minutos antes do seu início que tivemos a confirmação das nossas suspeitas, sob a forma de anúncio nos ecrãs gigantes – e partilhámos da histeria da multidão, não conseguindo esconder que o concerto nos fazia sentir ainda mais especiais por ser surpresa. O concerto foi curto mas muito intenso, com cerca de 45 minutos em que nem sequer tentámos controlar a nossa vontade de cantar e, ainda mais, de dançar, todos os êxitos da banda, como “Don’t Save Me“, “Forever“, ou a mais recente “A Little Of Your Love“. Como se as músicas não fossem suficientemente infecciosas, as três irmãs são imparáveis em palco, cada uma no seu estilo muito próprio – a lead singer Danielle com a sua postura mais séria, Este com a sua infame bass face e Alana com os seus rebeldes calções curtos. Não resistimos a recuperar as dez razões pelas quais adoramos as HAIM – pois estas mantêm-se.

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Texto: Andreia Duarte

Fotografias: Daniel Campos