Foi preciso estarmos em Barcelona para percebermos a importância do último dia do festival, que decorre no centro da cidade (e para ficarmos com pena de não termos vindo antes de dia 1 de Junho, também). No Domingo à tarde, os concertos concentraram-se na zona Primavera Al Raval, junto ao CCCB, onde se encontravam os palcos Day Pro, SEAT e a Sala Teatre. Todos estes espaços estavam abertos ao público em geral, algo que distingue o Primavera Sound e lhe acrescenta uma componente muito peculiar  eram muitas as famílias com crianças e casais de meia-idade que aproveitavam os pequenos espaços verdes e os cafés para relaxar. Sente-se realmente que o festival chega, desta forma, à cidade.

Barcelona chorava a despedida do Primavera Sound, mas a chuva não fez com que o público arredasse pé da zona dos museus – ainda que alguns tenham aproveitado para visitar a exposição World Press Photo até que São Pedro declarasse tréguas e o sol descobrisse novamente.

Das três salas de concertos, a única fechada é a Sala Teatre, e foi essa que visitámos para ouvir Julie Doiron, uma canadiana de onda indie, com sonoridades entre a bedroom folk e o rock ligeiro. A cantautora brindou o público com várias músicas em espanhol, algumas já editadas e outras a lançar no óbvio título Julie Doiron canta en Español Vol. II. Na verdade, foram-nos mais próximas as músicas mais antigas, cantadas em inglês, entre muchas gracias e pedidos de desculpas de Julie por ter de recorrer às cábulas para relembrar algumas letras. Curiosa a interacção entre a cantora e o seu par em palco, a lembrar uns She & Him menos delico-doces.

No palco Day Pro decorria o concerto dos brasileiros Liniker e os Caramelows. Entre cervezas e bebidas tónicas, o público deixava-se levar pelas melodias contagiantes. De notar a considerável presença brasileira, que agarrou a dica de uma das últimas músicas e terminou o concerto com o repto “Fora, Temer! Fora, Temer!”, sobre o presidente brasileiro que tanto tem dado que falar.

No palco SEAT cantavam os The Make-Up, que já tinham visitado o Parc Del Fórum nos dias anteriores. De impecáveis e condizentes fatos completos em rosa claro, é aí que acaba o alinho da banda. Com um rock’n’roll infeccioso, a banda claramente retomou a grande forma que tinha antes de ter suspenso a sua actividade no ido ano 2000.

Primavera Punch, Barcelona - !!! (Chk Chk, Chk)O encerramento do Primavera Al Raval deu-se com os !!! (CHK, CHK, CHK). Dizem as definições que os concertos desta banda são de orgia rítmica e libertação. De facto, os !!! são incríveis em palco! O frontman Nic Offer rapidamente abandonou o seu blazer, contagiou o público com o seu jogo de ancas, e investiu várias vezes em mergulhos na multidão. A vocalista feminina, que acompanhava Nic, também não se fez rogada à dança e acompanhou-o num desses mergulhos, perante a confusão dos seguranças. Engraçado como a energia da banda se estende a todos os elementos, que se dirigiam à beira do palco, à vez, para incitar o público. Mesmo para quem não está muito familiarizado com os discos da banda (!!!, Shake the Shudder), será um desafio hercúleo não dançar ao som destes senhores.

Primavera Punch, Barcelona - !!! (Chk Chk, Chk)

Por esta altura, restavam apenas os concertos da sala Apolo até ao fecho do festival. Este edifício, situado numa zona boémia da cidade, inclui um par de salas de características bastante diferentes. Começámos pela mais pequena, com o concerto da cantautora Odina, originária de Barcelona mas com residência em Londres. Com influências notórias de Bon Iver e Daughter, Odina apresentou-se em palco apenas com uma guitarra e a sua voz muito doce, trazendo as músicas do seu EP de folk apaixonada, Broken. Foram várias as vezes que a cantora agradeceu a participação no festival, principalmente por esta sala em particular lhe ser especial, uma vez que foi nela que se apresentou em público pela primeira vez.

Reparámos que os holofotes do tecto tremiam e fomos conhecer a sala principal do Apolo, situada acima. Percebemos quando chegámos que tal era justificável, dada a onda punk dos Shellac. Esta sala tem um carácter muito próprio, de linhas rectas, em que incrivelmente a madeira se mistura de forma harmoniosa com as paredes ocre. Permite a formação de vários nichos de público todos com vista para o palco, quer através da tradicional plateia, quer a partir dos camarotes, ou até, do tradicional bar de cadeiras giratórias altas.

Sentimos que tínhamos de regressar à sala secundária do Apolo e ainda fomos embalados mais um pouco pelos acordes de Odina. Seguia-se o concerto que encerraria o nosso Primavera Sound: PAVVLA. Este é o alias da cantora e actriz de origem catalã mas que reside em Brighton, onde estuda música. A subtileza electrónica de PAVVLA pisca o olho a James Blake mas sem se deixar limitar por isso. Em palco, é acompanhada na maioria das músicas por dois tios, um nos teclados e outro na percussão. Apresentou-nos o seu álbum de estreia, Creatures, intervalado por algumas covers, das quais destacamos a “Do I Wanna Know?”, dos Arctic Monkeys. Entre alguns trejeitos que revelavam a pouca bagagem mas lhe davam, simultaneamente, ainda mais piada, foi notável a forma como agarrou o público presente na sala. Talvez a melhor descoberta deste último dia de festival – one to watch, definitely.

Foi um verdadeiro privilégio conhecer o Primavera Sound de nuestros hermanos. Se já estávamos enamorados por Barcelona antes, desta vez só aceitámos voltar porque não havia mais concertos por ver, por agora. Chegámos de coração cheio e sentimento de missão cumprida. Até para o ano!

Lê também os nossos artigos do dia 1, dia 2, e dia 3. Podes encontrar a nossa foto-reportagem do festival no Facebook e no Instagram.

Texto: Andreia Duarte

Fotografias: Daniel Campos

Subscreve a Punch TV!