Ainda com o pó nas sapatilhas, os copos da cerveja e a mantinha ao xadrez amarela e branca na mochila e, sobretudo, o cansaço no corpo, começamos a sentir os primeiros sintomas da ressaca pós-festival. Toda a antecipação de um ano reduzida a três dias, que passam num abrir e fechar de olhos. Foi mais uma edição de NOS Primavera Sound, no Parque da Cidade do Porto, onde a Punch fez questão de estar presente para sentir este que é o festival de Verão com o nome mais primaveril de sempre.

O primeiro dia repartiu-se em apenas dois palcos, o que nos deu tempo para ver os oito nomes que fizeram parte do alinhamento deste dia número um do festival. Os Cigarettes After Sex abriram as hostes do palco principal, e enfrentaram as temperaturas pouco primaveris, fugindo às ameaças de chuva, mas nem isso fez com que milhares de festivaleiros arredassem pé da frente do palco NOS. A pop melancólica, disfarçada de shoegaze, encantou novamente o público português, e a voz incrivelmente doce de Greg Gonzalez fez jus aos álbuns que tanto rodamos em casa.

Mudámos a mantinha de sítio e, desta vez, era Rodrigo Leão e Scott Matthew que sonorizavam uns raios de sol ainda um pouco tímidos. Longe da timidez estava Miguel, da descendência de Prince, que fez questão de não só fazer uma festa em cima de palco, mas sim em todos os cantinhos do festival. Desfilou pelo palco sempre com um passo de dança melhor que o próximo, e contracenou com planos de nota máxima nos ecrãs (reduzidos este ano) do palco principal, e um sunset digno de uma foto sem filtros.

Demos um saltinho à barraca da Super Bock para atestarmos o copo e seguir novamente para o palco principal, e conseguirmos um bom lugar para Run The Jewels.  El-P e Killer Mike foram as pessoas necessárias para deixar o público em sentido e em completo êxtase. Na abertura cantou-se a “We Are The Champions” e entre músicas como “Legend Has It”, “Blockbuster Night, Part 1″, “Stay Gold” ou “Lie, Cheat, Steal”, o resultado foi um coro infinito em sintonia das iniciais “RTJ!”. Ainda com os pulmões a lutar por algum ar, deslocamo-nos até ao palco do lado, para receber com muito amor e carinho Steven Ellison, em palco Flying Lotus. Ninguém quis perder a estreia do produtor, e até o próprio Miguel que se fez acompanhar pelo seu guitarrista, que estava por ali camuflado no meio da multidão que dançava de forma desinibida. As projecções e luzes acompanhavam na perfeição músicas retiradas dos cinco álbuns do produtor de Los Angeles, numa verdadeira experiência audiovisual. As músicas que se colavam umas às outras ditaram uma festa sem fim à vista, não fosse “Never Catch Me”, pela voz de Kendrick Lamar, a ser citada por todos os presentes.

O ditado diz que o melhor se guarda para o fim, e os Justice fizeram justiça ao mesmo. A dupla francesa fez questão de estender a festa noite dentro e, mesmo com a primeira dor de costas, toda a gente fez questão de dançar ao som de clássicos como “D.A.N.C.E”, “Safe and Sound”, “Genesis” , “DVNO”, “We Are Your Friends”, entre tantas outras. De casaco vermelho (provavelmente a cor desta edição do festival), Gaspard Augé e Xavier de Rosnay incendiaram o Parque da Cidade durante quase duas horas que souberam a pouco. O último concerto do dia e sem dúvida o melhor (quem sabe até do festival!).

Palco NOS: Miguel by Mara Mures

O segundo dia arrancou com os leirienses First Breath After Coma, que nos aconchegaram com o seu post-rock nutritivo, que soube demasiado bem, quer de pé, quer deitado ao sol, na relva infinita do palco secundário. Que bela maneira de começar o fim de semana! Seguiram-se os australianos POND no palco principal, que deram um concerto mais que perfeito – no sítio certo, à hora certa. Na plateia ouvia-se “são uns Tame Impala dos pobres!”.. mas o que é certo é que o quarteto com raízes em Perth encheu o palco principal de tal maneira que ainda se viram uns quantos crowdsurfs e abanar de corpo mais agressivos. O rock psicadélico estava à solta!

Tivemos tempo para espreitar Whitney e Teenage Fanclub, mas lá no meio não perdemos a belíssima Angel Olsen que, de guitarra ao ombro, encantou e deixou-se encantar pela plateia, que ia cantando em sintonia e bem afinadinha as músicas mais sonantes dos seus três discos. Antes de seguirmos para receber Justin Vernon e o seu complexo invernoso, corremos até ao Palco ponto para aplaudir os SWANS. A banda, já com alguns anos de carreira, começou com alguns problemas técnicos por parte do pianista (problemas técnicos que devem ter custado o emprego a alguém…), mas manteve uma intensidade demasiado pesada para um palco tão pequeno. Fizemos um home-run para chegar a tempo de Bon Iver, que já ia a meio da “”22 (Over Soon)”. Ainda a hiperventilar da correria, “10 d E A T h b R E a s T” seguiu-se e testávamos assim o último álbum pela  primeira vez ao vivo, do qual foram tocadas quase todas as músicas. O timbre incrível da voz de Justin Vernon arrepiou todos os presentes, e os mais sensíveis fraquejavam em músicas como “Perth”, “Towers”, “Holocene” ou “Calgary”. A simbiose era tão grande que o próprio vocalista se emocionava ao ver uma moldura humana entoar bem alto as suas músicas. A despedida foi com “Skinny Love”, num encore acústico que marcou todos os presentes. “I Can’t wait to comeback” ia dizendo Justin, acenando para uma plateia rendida e mais que emocionada com um concerto perfeito.

No palco Pitchfork estava Cymbas Eat Guitars e, no ponto, King Gizzard and The Lizard Wizard, mas acabámos por ficar pelo palco NOS e acabar a noite a dançar com Nicolas Jaar. Um início um pouco morto, que levou muitos assobios, mas  como se costuma dizer “quem espera sempre alcança”. Entre lasers que apontavam para as estrelas e luzes que nos encadeavam a alma, Nico fez questão de remediar o início monótono. Corpos suados sacudiam o cansaço para o lado e deixavam-se levar pelos graves que faziam tremer a roupa e acelerar o coração. Os mais corajosos ficaram pelo Pitchfork até de madrugada, num DJ set dividido entre Richie Hawtin Close e Mano Le Tough.

Palco ponto by Mara MuresNo terceiro e último dia de festival, ainda com as energias a meio-gás, chegámos um pouco mais tarde ao recinto. Ainda assim, espreitámos a lendária Elza Soares, que do seu trono emanou poder que só uma mulher de armas com ela tem. A brasileira de 86 anos mostrou que a música rejuvenesce a alma e dá cor à vida, pois o samba e a bossa nova da cantora e compositora contagiaram todos os presentes.

Os The Growlers subiram a palco com os últimos raios de sol do dia, e partilharam-nos com uma plateia bem composta, que recebeu os americanos da melhor forma possível. O surf rock por detrás dos óculos de sol de Brooks Nielsen foi a banda sonora perfeita para o último pôr do sol do festival e o warm-up necessário para SHELLAC. Novamente magia a acontecer no palco com o nome mais minimalista de sempre. “Moche” desenfreado é a reacção quase involuntária ao punk-rock do trio, com raízes em Chicago, que já faz estragos desde 1992. Ao lado, no super bock, era Sampha que derretia corações. Realmente o londrino Sampha Sisay tem uma das vozes mais características e incríveis dos últimos anos. Desde o sucesso com a colaboração com os SBTRKT que se manteve debaixo de olho da crítica musical internacional, mas foi com Process, o seu único álbum, que tirámos as teimas. O miúdo é mesmo bom ao vivo!

Os Death Grips estreavam-se (finalmente!) por terras de Camões e a destruição total voltou a acontecer no palco ponto. Repleto de fãs e curiosos do hip-hop experimental de MC Ride, Zach Hill e Andy Morin, o público fez a festa enquanto os cabeças de cartaz começavam a aquecer no palco principal. Para não sentir remorsos nem pesos de consciência, dividimo-nos entre os dois concertos, e conseguimos satisfazer o ego de ambas as bandas.

Os Metronomy estrearam  Summer 08, o seu último álbum por cá, mas ironicamente as músicas mais festejadas continuam a ser as que fazem parte do The English Riviera. A banda britânica conserva um carinho especial pelo público português, carinho esse que é retribuído sempre que o quinteto visita o nosso país. “The Look”, “Love Letters”,” Corinne” e “I’m Aquarius”, fizeram parte do inventário e, distraídos pela camisa e passos de dança de Gbenga Adelekan, quando demos conta as despedidas faziam-se com “Reservoir”. Voltem sempre!

Demos um saltinho a The Make-Up e parece que fomos abençoados pelo homem forte do complexo. Bem precisávamos, porque as duas horas seguintes iriam ser diabólicas. Aphex Twin dispensa apresentações, até porque a cara do mesmo ainda nos atormenta nos piores pesadelos. Richard David James é a cara tão conhecida como enfant terrible da techno, que com certeza libertou o Demogorgon no recinto. Foram duas horas, sem interrupção, de um espétaculo surreal de luzes, lasers, projecções e graves arrebatadores. O produtor e mestre da electrónica fez os trabalhos de casa e satirizou personalidades bem conhecidas do nosso público, que aplaudiu o humor do produtor. Não valia a pena seguir a setlist, porque as músicas interligavam-se de tal maneira que parecia que estávamos sempre a ouvir a mesma, presos num loop infinito.

Desalmados, seguimos para o Pitchfork para receber também uma estreia no nosso país: Tycho. Continuámos a intensidade e beleza nas projecções, que nos transportavam para um outro mundo, dirigidas pelo som inter-galáctico das guitarras reverberadas de Scott Hansen. De olhos postos no palco, piscar os olhos era perder micro-segundos de uma obra prima audio-visual indescritível. Simplesmente genial!

As despedidas foram feitas com Bicep e Marc Piñol e as saudades já começavam a apertar … mais um Primavera Sound na belíssima cidade do Porto que vai deixar marcas. Até para o ano!

Ambiente by Mara Mures

TextoAdriana Lisboa
Ilustrações a aguarelaMara Mures
Foto-reportagem: João Pascoal (brevemente disponível)