Os termómetros ameaçavam baixar, o vento soprava e ainda tivemos o azar de apanhar alguma chuva durante os concertos do segundo dia do NOS Alive que foi declarado, a julgar pelo cartaz, como o dia do rock. Este segundo dia do festival foi repleto de fortes emoções, mas também de momentos mais calmos e sobretudo de bons concertos. Aconselhamos que fiquem para o relato que se segue.

Após um dia quente, como o que se viveu no dia anterior, podia-se notar que ninguém tinha vindo preparado para uns possíveis chuviscos e algum vento a mais. Mas tal não era problema, já que o cartaz prometia aquecer o corpo e a alma. O dia começou, ao som de algo mais calmo e deslocado do que os seus precedentes teriam para oferecer nesse mesmo palco. Tiago Bettencourt deu a conhecer a seu doce e suave pop ao público do Alive, sendo o primeiro a pisar o Palco NOS neste segundo dia. O público que já conhecia deliciou-se e quem não conhecia deixou-se ser cativado. Foi mais do mesmo que já se conhece do músico, no bom sentido da expressão.

A entrada de luxo, neste dia repleto de rock para todas as idades, seria servida de seguida no Palco Heineken. As Savages encontraram perante si um público que de facto conhece o trabalho quase na totalidade e as adora, cada vez mais. E o amor é correspondido. Aliando os acordes pesados e frenéticos à energia de Jehnny Beth, as quatro raparigas voltaram a surpreender provando que não estamos perante uma banda que apenas basta ver uma vez na vida. Estamos perante uma banda de raparigas que sabem honrar o termo “nunca é demais”. Acabado este concerto, voltou-se novamente a atenção para o Palco NOS onde os Courteeners acabavam de começar o seu concerto. O rock rebelde para aqueles momentos de insatisfação pessoal foi oferecido, como é expectável, mas não surpreendeu e foi como início de um arrefecimento magrinho e que soube a pouco. Era no Heineken e nas mulheres que o poder estava: ao mesmo tempo que parte do concerto de Courteeners começava um melhor concerto e com sabor à potência que o dia pedia. As Warpaint já não tocavam no nosso país há alguns anos, mas valeu toda a espera. Menos rock e mais indie, mas na medida certa. Prontas a preencher a necessidade que o público tem de ser surpreendido, as quatro jovens mostraram que desde a sua última passagem aumentaram qualidades e conquistaram um palco a abarrotar. Pouco depois, no Palco NOS, os The Cult deram um concerto que demonstra a necessidade imperativa de que alguém precisa de tirar férias, pois já não cativa como cativou outrora. Ou então, precisam simplesmente de sala e menos festival.

A chave de ouro do aquecimento para os cabeças de cartaz da noite encontrava-se no sexo feminino e tal veio-se a comprovar, pela terceira vez, quando os The Kills subiram a palco. Alison Mosshart é um furacão e quando acompanhada do sempre charmoso, Jamie Hince, formam o duo mais explosivo e sensual de sempre. A química é inegável, o estilo invejável e a música implacável. O concerto soube a pouco, apenas por ser demasiado curto. Faltaram clássicos, mas o que se ouviu satisfez a costela dos fãs que não conseguem quebrar o difícil hábito de venerar esta banda. O novo álbum, ainda que diferente do habitual da banda, provou mais uma vez a sua qualidade e o quão bem resulta. A vontade involuntária que as novas canções dão às ancas de serem mais livres e mexerem-se desordenadamente, é não só uma opinião como um facto comprovado. A única falha do concerto, foi o público. Está na hora de pôr fim à redutora ideia de que se veio a um festival apenas para ver os cabeças de cartaz. Felizmente, o duo todo poderoso não se sentiu intimidado e deu um dos melhores concertos desta edição, levando não só uma, mas duas mãos cheias de elogios.

O público que até então tinha estado silencioso, fez-se finalmente ouvir quando os homens da noite subiram a palco. Para muitos era a primeira vez que iriam ouvir a banda das suas adolescências, para outros era a segunda ou até a terceira vez. Mas uma coisa é certa. Os Foo Fighters demoraram a regressar e pede-se, após o estrondoso e magnificente concerto, um regresso urgente. A viagem pelo tempo até às adolescências da maior parte (já que a faixa etária do público era mais alta que a do dia anterior), foi efectuada com sucesso. Todo aquele silêncio dos concertos anteriores transformou-se de repente em energia brutal repleta de saltos, gritos e até mosh. Não existia uma única alma naquele recinto que não soubesse pelo menos um refrão da banda. Muito mais que clássicos, as músicas da banda são hinos para muitos fãs e ninguém deixou de os entoar, contando até com algumas lágrimas entre toda a euforia. Os corações dos portugueses estavam nas mãos da banda, que optou por tratá-los muito bem e mimá-los até mais não. O concerto contou com mais de duas horas, em que todas aquelas canções que lembram aquele momento chave da vida de cada um dos presentes e, que trazem aquela maré de emoções fortes ao de cima, não ficaram de lado. A banda não só se apresenta como impermeável ao insucesso, esgotando todas as gotas se suor e o depósito de energia para dar aos fãs os melhores concertos, como também é uma banda divertida. Num momento de pura união sincera com o público português, em que se desculparam por terem demorado tanto tempo a voltar, a banda ainda se deu ao luxo de aprender os habituais cânticos portugueses tentando torná-los em material de single. Sempre cativantes e surpreendentes apresentaram o modelo do concerto de rock que encaixa no número apelidado “perfeito”. Estávamos perante o melhor concerto do dia e um dos, senão o tal, melhor desta edição do festival. Realçando: os heróis levaram o melhor de nós. A noite seguiu-se no Palco Heineken com Parov Stelar e Floating Points, antes de encontrar o seu fim.

Texto: Alexzandra Souza

Fotografias: André Nobre