O primeiro dia do SBSR 2017 começou sob um auspício soalheiro, com o calor a apertar no Parque das Nações, que mais uma vez se transfigurou para receber o terceiro e último grande festival urbano português, após o Primavera Sound e o NOS Alive. Isto apesar de apresentar, dos três, o cartaz menos exuberante. Não descurando logicamente o enorme chamariz que representam os cabeças de cartaz deste primeiro dia, os míticos Red Hot Chilli Peppers, razão preponderante para que a cidade de Lisboa se tenha debruçado este fim de semana para o seu lado mais oriental.

O dia começou com o projecto Alexander Search de uma das novas coqueluches da música portuguesa, Salvador Sobral – ainda na crista da onda patriótica que representou a sua vitória na Eurovisão – a dar o pontapé de saída no Palco EDP. E talvez com um dos melhores concertos do fim de semana, ao apresentar este conceito num registo nos antípodas do que apresentou à Europa onde canta poemas em inglês do Fernando Pessoa sobre um pano de fundo de música indie rock, com momentos de electrónica, cortesia do trabalho instrumental espectacular de Júlio Resende. Boa música só por si, sem os artefactos da fama, e que vale a pena revisitar.

Ainda no EDP, os brasileiros Boogarins marcaram o final da tarde com um concerto extremamente bem conseguido, que nos levou na viagem singular de um psych rock com ecos de ritmos de bossa nova e funk, visitando quer álbuns mais antigos, como o álbum mais recente “Lá Vem a Morte”, com algumas músicas tocadas pela primeira vez deste lado do Atlântico. E desta forma ondas de som abrasador envolveram o público, misturando-se com o ar quase tropical quase irrespirável, o que transformou a pala do Siza num portal que nos teletransportou através do oceano para a sua terra natal – e que por momentos nos fizeram esquecer os graves problemas sociais que por lá se vivem e que nos contagiaram com o que poderia ser o seu paraíso.

No Palco LG estavam por esta altura a tocar os Minta & The Brook Trout, num registo muito mais calmo e enlevante que, através da voz doce de Francisca Cortesão e da bonita simplicidade das suas letras e da sua folk delicada, nos deram um pouco de espaço para inspirar e expirar na escadaria do MEO Arena antes do que seria um dia repleto de concertos.

Carregados de expectativas de um público crente, os New Power Generation feat Bilal, a “banda de Prince” trouxe 7 anos depois ao mesmo festival um espetáculo cheio da magia púrpura. Fizeram chover notas consonantes, rasgando do soul ao funk(adélico) de fusão, homenageando o espólio do recentemente desaparecido ícone que acompanharam durante mais de duas décadas. Para fazer as vezes (e vozes de timbre bastante próximo) do mestre, trouxeram Bilal, um nome credenciado que já trabalhou com nomes tão sonantes como Jay-Z, The Roots ou Kendrick Lamar, e cuja experiência de crescer nas décadas reinantes de Prince certamente ajudou a incorporar toda essa energia na sua atuação. Choveram temas clássicos como “Kiss”, “Let’s go Crazy”, “Sign o the Times”, e claro “Purple Rain”, entre muitos outros com tantos convidados como reconhecimento. Destaque claro para a presença de Ana Moura para cantar “Little Red Corvette”, em jeito de homenagem mourisca ao seu amigo desaparecido. Bandas de tributo geralmente correm mal, mas esta não é uma banda desse tipo. É o produto original com convidados de honra e homenagem, para espalhar o amor roxo reinante.

The Orwells constituíam uma das incógnitas do dia. O colectivo norte-americano oriundo dos subúrbios de Chicago, já com três álbuns de originais na bagagem, vinha a Portugal mostrar o terceiro, “Terrible Human Beings”, mas estaria a mentir se afirmasse que eram um dos nomes mais esperados do dia. Contudo, graças a um registo de indie rock com laivos de garage e punk muito suavizados a que o público, muito dele jovem, foi aderindo acabarm por tornar o concerto numa pequena festa. Daí ao primeiro mosh (há sempre muita energia pronta para se libertar no primeiro dia…) foi um pequeno salto conceptual lógico e previsível. Um salto que se multiplicou ene vezes.

Estava dado o mote para subir ao palco EDP aquele que é dos nomes mais importantes deste SBSR 2017 – Kevin Morby. Uma das figuras de proa da folk contemporânea, o norte americano natural do Missouri e sediado actualmente na California regressou a Portugal para apresentar aquele que é até à data um dos melhores álbuns deste ano, o “City Music”. Apesar de uma plateia por vezes algo distante, Morby foi percorrendo o seu set, com uma primeira metade do concerto mais focada na sua música mais recentem, partindo daí para uma recta final percorrendo as suas músicas mais emblemáticas, como Harlem River,  I Have Been to the Mountain, Parade e Dorothy. Não desiludindo, facilmente terminamos com um enorme sorriso no rosto.

Com uma energia louca de fazer o público endoidecer o público, a seguir ao jantar houve uma força polarizadora no palco LG que abrilhantou o cair da noite. Throes + The Shine trouxeram sua música de fusão africana, mistos de kuduro com batidas e guitarras mais rockadas, um acento vincado e uma dança extasiante fizeram o público dançar verdadeiramente pela primeira vez neste festival. A dança é uma componente tão forte da sua atuação que até vieram para o meio do público pôr tudo a mexer. É altamente inspirador ver bandas novas (e aparentemente mais distantes do estilo do dia) entregarem tudo o que são em palco e levarem o público ao rubro!

Encarregues da pesada tarefa de abrir para o nome maior do festival na gigante sala lisboeta do MeoArena, os Capitão Fausto aventuraram-se para águas profundas onde se nada sem pé nem boias de salvação. Mas estavam a jogar em casa e conseguiram trazer o seu público à tona, e levar a reboque alguns dos mais reticentes que aguardavam os cabeças de cartaz. Fizeram-se ouvir os temas mais conhecidos da banda, “Morro na praia”, “Maneiras Más”, entre muitos mais que fizeram surgir coros esparsos no meio da plateia. Com o seu estilo característico e tecnicamente perfeito, só lhes ficou a faltar espicaçar mais os rockeiros clássicos, ansiosos e expectantes pelo regresso dos RHCP depois de mais de uma década à espera.

E após a calma no palco EDP seguiu-se Paulo Furtado transfigurado no seu alter-ego Legendary Tigerman. O homem-orquestra veio atirar à cara do público um rock ‘n’ rol sem rodeios, directo. De uma forma lógica – até o próprio o admitiu – este veterano do SBSR veio este ano apresentar o seu álbum deste ano Misfit, dando o espectáculo que dele se espera mesmo assentando praticamente só em música nova. A excepção foi o ponto final, com a pedra que é a Twenty First Century Rock ‘n’ Roll.

Assim por volta da meia noite era chegada a altura daquele que se esperava como o grande momento do SBSR ’17 – Red Hot Chilli Peppers. Perante uma MEO Arena completamente lotada, o mítico conjunto californiano subiu ao palco, lançando-se num intrincado set onde se esforçaram tenazmente por percorrer todos os grandes êxitos (alguns mais antigos do que muitos dos que estavam a assistir), como a Can’t Stop, Californication, Snow (Hey Ho), etc, ao mesmo tempo que iam apresentando novas músicas do recente The Getaway. Após 11 anos de espera por este regresso a Portugal os Red Hot tiveram sempre o público na mão, a vibrarem numa mistura de electricidade humana e nostalgia. Porém, e apesar dos esforços do baterista Chad Smith e do carismático baixista Flea nalguns momentos, pareceu um concerto demasiado programado e pouco inovador ou mesmo interactivo. Foi bom, mas não arrebatador. Foi competente, mas não espectactular. O vocalista Anthony Kiedis permaneceu sempre silencioso entre músicas e um dos momentos mais interessantes acabou por ser do guitarrista Josh Klinghoffer quando improvisou cantar alguns versos da Foi na Cruz de Nick Cave. Logicamente que há um encore – com a Give It Away a colocar um ponto final poderoso na actuação – e que fica sempre a promessa do “voltaremos em breve”. Esperamos nós que menos tempo de espera e uma maior familiaridade com o público português tornem experiências futuras algo de diferente. Algo de único, o que esperamos de um concerto de lendas vivas.

Texto: João Gramaça e Pedro Barata

Fotografia: Joana Viana