São cinco e dão pelo nome Cassete Pirata. Uma vénia a um tempo já ido, onde mais que meios, havia vontade e ideias. Depois de assolarem o país de norte a sul com concertos, senão surpreendentes, pelo menos inesperados, a banda de João Firmino (Pir), João Pinheiro, António Quintino, Margarida Campelo e Joana Espadinha, lança agora o seu trabalho de estreia. Veteranos da música nacional, com produção de Benjamim e gravados no estúdio de Frankie Chavez, são um nome que promete nos entrar pela casa, carro e headphones adentro.

1. A democracia é quem manda, ou há elementos que contribuem mais para a composição e estética geral da banda?
A democracia é quem manda sempre! De qualquer das formas quem compõe as musicas é o Pir. Depois da composição há um pequeno processo de pré-produção caseira com o computador para experimentar algumas coisas antes de levar para a banda. Ainda assim quando a música “chega” à banda há muita coisa que muda, seja na maneira de tocar, ou na forma da canção. A ideia é que embora a composição e as decisões sejam de um suposto líder, o resultado final seja algo em que todos acreditam. A decisão se as músicas ficam no repertório, ou se precisam de mudanças é sempre tida em conjunto.

2. São todos veteranos do circuito de bandas portuguesas. Já todos se conheciam? De onde surgiu a ideia da banda?
Todos os membros dos Cassete acabaram por estar ligados ao estudo do Jazz. Foi nesse percurso académico que nos conhecemos pessoalmente. Na questão de tocarmos juntos foi realmente por bandas em comum. O António Quintino cruzou-se com o João Pinheiro na banda d’O Martim. O João Pinheiro com a Margarida Campelo no Real Combo Lisbonense. A Margarida toca na banda da Joana Espadinha, da qual o Pir também fazia parte. O Pir entrou para a banda do Martim onde tocou com o António Quintino e com o David Pires (primeiro baterista dos Cassete – que ao sair recomendou o João Pinheiro). Parece confuso mas no fundo o meio é pequeno e muito saudável por isso fomo-nos encontrando aqui e ali.

3. Sei que por exemplo o João Pinheiro tem mais quatro bandas onde participa, de forma mais ou menos regular. Como conseguem dividir-se e fazer escolhas de qual projecto tem prioridade em que altura?
É sempre uma questão difícil. As decisões são de cada um e tem de se aceitar que ás vezes há becos sem saída. Se uma banda já está numa plataforma maior de mediatismo, quantidade de público ou qualidade da venue onde toca é normal que se tenha de dar prioridade a esse projecto. Depende também se os projectos permitem a chamada de músicos substitutos : há uns que sim e outros onde é mais complicado. Por vezes há também a questão de dar prioridade a vários concertos marcados (uma tour) versus concertos isolados. Por último há situações (embora sinta que quase nunca é essa a razão principal) que a questão do dinheiro também conta – temos todos de pagar a renda. São dificuldades que por vezes se tentam contornar marcando os concertos com maior antecedência para as agendas não colidirem, mas é de facto complicado. Ainda assim, sinto que a malta dá imensa prioridade aos Cassete.

4. De onde vem o nome Cassete Pirata?
Arranjar nome para a banda foi uma maratona exaustiva. Demorámos meses sem nunca ter uma ideia que sequer gerasse o mínimo de empatia. Um dia num ensaio o Quintino sugeriu Cassete Pirata – tinha “Pir” no nome e tudo. E foi assim a primeira vez que sentimos que fazia sentido, que era minimamente fácil ou catchy e que não nos direcionava demasiado a nível conceptual. Embora a posteriori tenhamos achado piada à imagem do carinho com que as pessoas numa dada época gravavam as suas Cassetes Piratas para dar aos amigos – era um processo que demorava algum tempo quer na gravação da Cassete quer na escrita bonitinha ,à mão, de todas as informações das músicas. Hoje em dia usamos playlists não é ?

Gosto de pensar que esta é a nossa Cassete, que gravamos com carinho para a malta ouvir.

5. Toda a vossa estética, e mesmo o nome, remetem para o passado. Há aqui um tributo ou preferência pelos métodos mais analógicos e antigos?
Sim. Esta banda surgiu por uma necessidade do Pir de ter uma banda de canções, e onde pudesse juntar todas as influências da música que ouviu na adolescência do Rock e cantautores dos 60′s e 70´s. Como estamos todos nos trintas, é óbvio que todos ouvimos de uma forma super marcante a música dos anos 90. Sendo assim é normal que seja uma banda com uma direcção mais nostálgica. Não por tributo ou por achar que os métodos antigos fazem mais sentido ou por achar que há uma verdade absoluta nisto ou naquilo. Tem a ver com o som, e com a inspiração de bandas que soavam duma certa maneira que nos faz vibrar. Não quer dizer que a direcção não mude – agora estamos a fazer assim mas não sabemos como será no futuro.

6. É sempre bom ver um grupo com tanta representação feminina. Acham que há falta de representatividade na cena nacional?
Há pouca representatividade na cena nacional. É um problema geral , infelizmente, mas na música sente-se bastante. No entanto penso que as coisas estão a mudar e muito pela força do talento e a perseverança das mulheres que se afirmam nesta industria algo machista. O talento da Joana e da Margarida, e o que trazem á banda a todos os níveis é indiscutível. A nível emocional também é muito bom ter “meninas” na banda – os problemas e adversidades ficam mais fáceis de gerir.

7. Qual foi o papel que Benjamim teve no EP? Como é que se iniciou a vossa colaboração?
O Pir ouviu falar do Benjamim através do Pedro Valente da “Azáfama”. Foi ele que recomendou o Benjamim para produzir o novo disco da Joana Espadinha que está a ser gravado e há-de sair para breve. No primeiro single da Joana que trabalhámos houve logo uma empatia gigante, e foi óbvio que a onda dele ia encaixar na perfeição no que queríamos em termos de som para os Cassete.

Tem sido uma peça fundamental para este primeiro ano dos Cassete – não só como produtor, mas como conselheiro, amigo, alguém que te mostra imensa música nova e que tem um grande amor pela música e pelo processo da descoberta, da tentativa e da auto-critica. Trabalhar com alguém assim é muito fixe.

8. Acham que o panorama nacional é terreno fértil para colaborações entre artistas, bandas, produtores?
Achamos que sim – há tanta tanta tanta banda e artistas bons que seria um crime essas colaborações não acontecerem. Da nossa parte há muita gente que gostaríamos muito de colaborar. E esperamos que quem goste do nosso som se sinta com vontade de nos desafiar. Penso que se calhar só não acontece mais porque as bandas e os artistas ainda se esfolam imenso a nível financeiro para conseguir produzir as suas coisas, e esse desgaste gigante de energia se calhar acaba por fazer com que não sobre muita para essas colaborações. Pode ser que a coisa melhore.

9. Depois de ouvirmos o primeiro EP, não conseguimos parar de nos perguntar, para quando o primeiro álbum?
Já temos música para o novo disco, por isso, na verdade é só ir para estúdio. Gostávamos de gravar até ao final de 2017 e que em 2018 pudesse sair o primeiro disco. Vamos ver o que acontece e se conseguimos cumprir esse plano.

Nuno Camisa