O nosso querido mês de Agosto, mês que tem como tradição marcar o regresso às origens, e nada melhor que o festival Bons Sons para nos fazer sentir realmente em casa. Cem Soldos voltou a abrir as suas portas para receber, durante quatro dias, cerca de 30 mil festivaleiros, que fizeram questão de estar presentes para celebrar, por mais um ano, a música portuguesa.

O primeiro dia começou cedo e com as temperaturas a dispararem dentro da Igreja de S. Sebastião; a brisa chamava ao som da dupla de jazz Singularlugar. Quer o saxofone, quer as teclas do piano, quer as vozes demasiado doces e afinadas de João Neves e Katerina L’Dokova, encantaram todos os presentes, que silenciosamente não tiravam os olhos do altar lindíssimo da igreja de S. Sebastião. Sentimos aquele arrepio na pele com a tamanha sinceridade e genuinidade musical destes dois músicos excepcionais. Seguimos pela sombra até ao palco GIACOMETTI, e pelo caminho fomos regados pelos borrifadores oficiais e improvisados dos festivaleiros e, com a caneca atestada, estávamos mais que prontos para receber os Whales. A banda, que pertence à comitiva da Omnichord Records, teve um começo atribulado, mas o público dos Bons Sons não deixou que a coisa se desmoronasse e aplaudiu o agora trio com raízes em Leiria. O indie rock de nuances eletrónicas manteve as temperaturas elevadas num concerto justo, para uma plateia que aos poucos se ia apertando para caber mais alguém. A caminho do palco improvisado em frente da igreja de S.Sebastião, para espreitar Manuel Fúria e os Náufragos, tivemos de experimentar e tentar não nos perder entre rivalidades nos incríveis JOGOS DO HÉLDER − um dos muitos pormenores que tornam o Bons Sons um festival mágico!

Novamente no coreto e, desta vez com uma moldura humana um pouco mais completa, começava Surma, o alter ego de Débora Umbelino, uma miúda de óculos redondos que conquistou toda a gente com a sua música e a sua incrível personalidade. Uma mulher de armas, que se rodeia de mil e um instrumentos, e nos transporta para o seu pequeno-grande universo musical. Em formato “one (wo)man band”, apresenta uma sonoridade electrónica atmosférica guiada pela sua própria voz,  as notas minimalistas de uma guitarra, os graves de um baixo e os ritmos de uma drum machine presos entre loops até ao infinito. A diferença em Cem Soldos?! É que ela não estava, nem nunca esteve, sozinha. Corpos suados balançavam ao som de músicas como “Maasai” , “Lo-Fi” ou “Just So”, de Agnes Obel, mas a surpresa veio em “Wanna Be Basquiat” onde houve moche e crowdsurf por parte da pequena-grande Débora. “Hemma” foi tocada duas vezes e por nós tinha existido uma terceira, quarta, … vezes infinitas!

Surma

Pedro Rodrigues, Nelson Silva e Samuel Gonçalves são o triângulo perfeito de nome Holy Nothing, que abriu as hostes no palco Lopes-Graça, num concerto necessário para aquecer a noite. Do Porto trouxeram a sua electrónica, que se colou ao nosso corpo, e não nos permite estar parados. Sempre em contra-luz, por detrás de sintetizadores, meteram pequenos e graúdos a dançar. Aos saltos entre palcos, assistimos a Glockenwise, que estrearam o Palco Eira, e a Virgem Suta, que tomaram de assalto Cem Soldos e meteram toda a gente em cima do palco a fazer a festa − um brinde a vós! Os Capitão Fausto quase que fizeram uma homenagem à Ivete Sangalo, no Palco (po)Eira (todos os presentes sabem do que estamos a falar). Percorremos a discografia do quinteto lisboeta e festejámos as canções mais orelhudas com tudo o que tínhamos: pó, moche e crowdsurf sem fim à vista. Os Thunder & Co voltavam aos palcos ali mesmo, no Aguardela, e só não mandaram tudo abaixo porque a queda ainda era um pouco grande. Um concerto exemplar onde toda a gente dançou, até mesmo Mariana Mortágua que andava à paisana no meio do público.. curiosamente do lado esquerdo do palco.

Sábado, segundo dia do festival, contou com a delicadeza e simpatia de Filipe Sambado, que de lábios pintados e, ora de guitarra ao ombro, ora a desfilar pelo palco, encheu o coreto de boa disposição e muito amor. Fomos até ao auditório para espreitar Lander & Jonas e levámos com uma chapada de luva branca ao perceber que o Bons Sons é muito mais que um festival de música, e que existem coisas incríveis a serem feitas no nosso país a nível artístico. Apesar do nome estrangeiro, Les Saint Armand cantam na língua de Camões, e fazem folk mascarado com samba tão bonito, que nos encheu o coração ao assistir a um concerto no palco certo. Poupando energias ainda espreitámos a intensa estranheza sedutora das Señoritas e a guerreira de palco Né Ladeiras, que fez toda a gente levantar o pé do chão. Os Throes+The Shine treparam estruturas, meteram tudo a saltar e fizeram o que quiseram de um público rendido ao kuduro misturado com rock, deste super grupo com raízes no Porto. Uma explosão de energia que nos sugou a sanidade e deixou com dores de pernas durante pelo menos o próximo mês.

Throes + The Shine

Domingo é dia de se ir à missa e, em Cem Soldos, bem que podíamos ter ido, mas o terceiro dia do festival já começou quase em modo de sobrevivência. Enquanto os Moços da Vila ainda afinavam as vozes, andámos a respirar o ar (este ano não muito puro) da aldeia, entre guerras de balões de água, jam sessions em cafés  ou até saltar à corda, fomos encontrando velhos amigos e fazendo novos. Joana Barra Vaz sonorizava a tarde demasiado quente para se estar ao sol e da melhor maneira, uma voz divinal que conseguia sempre uma enorme salva de palmas entre músicas dos resistentes que permaneciam ao sol, e dos que se refugiavam à sombra nos cantos e recantos da aldeia. Sonoscopia mostrou-nos uma enorme panóplia de instrumentos e mecanismos que se moviam para criar ritmo, e uma ou outra melodia bizarra. Uma actuação fantasma, não fossem as mentes brilhantes por detrás do projecto robótico irem justificando, e até convidarem os presentes a ver de mais perto a essência deste projecto que desceu desde a Invicta até Tomar. Captain Boy e Sampladélicos surgiram ao fim de tarde e prolongaram-se noite dentro, até Samuel Úria subir ao Palco Eira para ser recebido calorosamente pelo povo de Cem Soldos. Muito rock, cheio de pintarola, misturado com os clássicos que não escapam a ninguém.

O mar de gente encontrava-se agora em frente ao palco Lopes-Graça para assistir a um pouco de história musical − era agora tempo para embarcar na viagem de 10.000 Anos Depois Entre Vénus E Marte, de José Cid. Um concerto que fez arrepiar quer mais velhos, quer os mais novos, um orgulho imenso em saber que um álbum como este foi feito no nosso país, na década de 70, e é considerado um dos melhores álbuns feitos em Portugal. “Macacos que gostam de bananas” à parte, até o próprio Cid se emocionou ao ter uma moldura humana gigante a entoar bem alto as suas músicas, até sair de palco. Bravo tio Cid! O aquecimento estava feito, e o andamento já tinha passado Marte, quando Orelha Negra, mais uns grandes da música portuguesa, fechavam da melhor maneira o palco Eira para o dia. A nostalgia começava a fazer-se sentir quando olhávamos em redor e víamos toda a gente a sorrir para perceber o quão especial é um festival como o Bons Sons, em que nos dá um orgulho imenso de ser português.

Samuel Úria

O quarto e último dia do festival começou já cheio de nostalgia, e alguma saudade, com as vozes bem afinadinhas das Moçoilas. O Lisboa Strig Trio subia a palco já o sol estava menos intenso, e a querer esconder-se por detrás da torre da igreja de S. Sebastião − o cenário perfeito para a banda sonora repleta de harmonias e melodias bem portuguesas. José Peixoto na guitarra, Carlos Barretto no contrabaixo  e Bernardo Couto  na guitarra portuguesa fizeram de Cem Soldos a aldeia mais portuguesa do país durante uma hora e picos. Valter Lobo criou uma enchente no coreto e, com as suas músicas de inverno, abraçou-nos a todos e encheu-nos o coração. De guitarra acústica ao ombro e uma delicadeza e sensibilidade mágicas, fez arrepiar todos os presentes com o seu indie-folk melancólico, cantado em português. Ouvimos o seu mais recente álbum − Mediterrâneo − e também cantámos músicas do seu primeiro EP − Inverno. Da paz e sossego de Valter Lobo, passámos para o blues rock de Frankie Chavez, uma das grandes referências a nível nacional. O mestre das guitarras, que passou de “one-man-band” para formato banda ao vivo, meteu toda a gente a bater o pé e a murmurar melodias antigas mas não esquecidas. Double Or Nothing é o seu mais recente álbum, mas podemos também visitar temas de Family Tree, Heart & Spine ou do seu primeiro álbum, homónimo.

Pela noite dentro levámos um banho de rock por parte dos The Poppers, que causaram estragos e voos abusados no Palco Eira e, com Rodrigo Leão, que sentado ao piano deliciou a gente de Cem Soldos. O Palco Eira foi encerrado pela dupla de irmãos Leo e Bruno − que bela maneira de nos despedirmos de mais um ano de Bons Sons. Fomos todos contagiados pela electrónica crepuscular de Octa Push e toda a gente dançou − até a dona Maria José, que fez questão de subir a palco para cumprir a sua promessa, e dançar como se não houvesse amanhã!

Bons Sons'17

As despedidas fizeram-se com brindes, abraços e promessas que para o ano ali nos voltaríamos a encontrar. O Bons Sons é um festival para todos, que nos toca no orgulho e nos deixa a voz a tremer, de cada vez que nos relembramos das memórias que esta aldeia de Tomar nos deixou. Um festival movido a energia voluntária e 100% nacional! Quando a música portuguesa realmente gosta dela própria, não existe mais nada a fazer a não ser aplaudir de pé esta iniciativa e a agradecer à gente de Cem Soldos por nos darem a oportunidade de vir viver a sua aldeia. A promessa já foi feita o ano passado − até para o ano Bons Sons e até já Cem Soldos!

Texto: Adriana Lisboa
Fotografias: Sílvia Fernandes (Foto-reportagem aqui )