Quem és tu Surma? Confessamos que não esperávamos este álbum, não assim. O showcase numa das grandes casas da música de Lisboa, e porque não de Portugal, o Musicbox, deu uma amostra do que esperar. Todavia, estávamos longe de imaginar o resultado final.

Débora Umbelino, leiriense de 23 anos, traz-nos um trabalho distante da sua terra natal. Se o título faz alusão a uma região belga, a música remete-nos para geografias mais setentrionais. Três músicas dentro do LP e não é difícil darmos por nós, perdidos numa floresta gélida, onde a música é quase um uivo do vento, em ondas ora intensas ora sussurradas, vindas de qualquer direcção. As influências, apesar de nunca explícitas, são de cartografias e géneros díspares, como o sample dos Ladysmith Black Mambazo em “Voyager”, os arranjos mais ambientas a la Sigur Rós de “Uppruni”, o beat sujo e sombrio de “Nyika”, que não destoaria num trabalho de Burial, ou o outro ritmo mais minimalista Nosaj Thing, que se escuta em “Miratge”.

Um trabalho consistente de uma ponta à outra, mas que cresce a cada audição. O experimentalismo está presente ao longo das dez faixas, com percussões, instrumentos e simples sequências fora do lugar, ou do vulgar. É de destacar a grande evolução que Surma parece  ter sofrido, desde o grande single “Maasai” até hoje. Mais madura, com um som mais limpo e cristalino, embora a voz continue, por vontade da própria, a ser sussurrante e muitas vezes indecifrável, quase como um instrumento.

Se o LP nos envia para a Islândia, então a figura, vontade de arriscar e, sobretudo, a capacidade de reinvenção de Surma, lembra-nos uma Björk portuguesa. Surma parece crescer a cada tema deste trabalho, muitas vezes em direcções diferentes. Um álbum consistente do início ao fim, envolvente e cativante, e sem dúvida um dos lançamentos do ano.

Nota: 8.3/10

Nuno Camisa