Todos nós passamos por fases de transição. Normalmente quando há grandes acontecimentos nas nossas vidas: quando vamos estudar para a universidade; quando casamos e temos o nosso primeiro filho; ou quando emigramos. Manuel Fúria & os Náufragos passam por essa mesma transição, especialmente Manuel Fúria que é a cabeça do projecto. Depois de um grande hiato, entre o álbum “Viva a Fúria” editado no início do ano e o ultimo álbum editado em 2013, apensas com um EP de quatro canções editado em 2014. O ex-músico d’Os Golpes entretanto casou, foi pai e decidiu enterrar a sua editora (sim, literalmente houve um evento do enterro da Amor Fúria, no 31 de Outubro de 2016, onde foi assinalado simbolicamente o fim da editora). O lançamento deste álbum  marca claramente uma nova fase.

Manuel olha para esta transição não como um peso, mas sim como um desafio. A paternidade mudou o seu olhar, como muda o de muito gente. Na primeira canção do álbum “Pequeno Peixe” faz referência à sua nova condição de pai (“Dorme meu menino/Um sono descansado/Dos bravos e dos justos/ Um sono descansado/Sonha Francisquinho/Que o anjo te aguarda/Abrir-te-á os olhos/Quando a história começar). As emoções estão mais flor da pele, este rocker que anteriormente exaltava a portugalidade, as romarias e da singularidades dos nossos conterrâneos. Agora vira as suas atenções para quem está mais próximo e sem medo de abrir o seu coração.

Em “Viva Fúria” o músico, de residência lisboeta e alma nortenha, anda sempre a balançar entre esta coragem de enfrentar o futuro com canções como “20.000 Naves” ou “Cavalos Brancos” e a fragilidade de ter uma família para proteger com canções “Aquele Grande Rio” ou “Ela Vai Voltar”. Mas a melhor canção do álbum e a mais singular está guardada para o fim. A “Canção Infinita” fecha o álbum, aí Manuel Fúria não esconde o saudosismo de um tempo que já passou, mas também não tem medo de dizer que foram essas referências que fizeram dele o que é hoje. Aliás nesta canção chega a dizer mesmo, “Sou um ladrão”, numa clara alusão aos nomes que o inspiraram com os Heróis do Mar ou os The Smiths, entre outros. Já na parte final da canção conta ao público pequenas memórias da sua infância e adolescência, sem medo de se expor. Manuel Fúria encara este álbum e o seu futuro de frente e sem medo de errar. Essa mensagem pode ser dirigida aos jovens, mas também simplesmente a quem não tem medo de arriscar.

Este conjunto de canções no fundo consegue ser uma ponte entre o passado e o futuro. O fundador da Amor Fúria já passou por várias fases na sua carreira e já construi várias pontes. Com os Náufragos Manuel Fúria deu continuidade à sua carreira. Mas seja a solo, numa big band ou montado a cavalo em direcção ao pôr-do-sol, Fúria ainda tem muita música para nos dar.

Nota: 8.0/10

Rodrigo Castro