Tarefa perto de impossível, escolher “as 10 músicas” de Manel Cruz, se são quase tantas as vidas musicais do cantor de São João da Madeira, e, cada uma delas, cada álbum, de um talento lírico e melódico sem paralelo. E depois há os Ornatos Violeta, podemos escolher as 10 músicas de entre as 15 de Cão e está feito, ou 10 de O Monstro Precisa de Amigos e feito está. No entanto, o músico, que no final deste mês atua no Mexefest em Lisboa, e a 15 de Dezembro no Hard Club do Porto, merece sem dúvida o esforço, por isso vamos lá:

“A Dama do Sinal”  Cão (1997), Ornatos Violeta
Todo o álbum podia ser eleito: em ’97 o país descobriu um novo grupo do Porto com letras sem pudores, ritmos rock e funk e a música nacional nunca mais foi a mesma. Fica a “Dama do Sinal” por causa daquela batida, da letra e… de tudo.

“Chaga”  O Monstro Precisa de Amigos (1999), Ornatos Violeta
Escolher músicas deste disco é uma tarefa surreal, mas a “Chaga”, com uma letra que todos sabem mesmo que pensem que não, e uma entrada, um crescendo, uma corrida musical sem precedentes, tem de entrar.

“Capitão Romance”  O Monstro Precisa de Amigos (1999), Ornatos Violeta
Os Ornatos Violeta idolatravam os Violent Femmes, os Violent Femmes responderam à sua tentativa quase idílica e “nada a perder”, de uma colaboração, e o resto chama-se “Capitão Romance” e merecia estar em qualquer lista de quaisquer 10 músicas, sempre.

“Prisão” – Bom Dia (2004), Pluto
Com os Ornatos terminados e os fãs em luto, Manel Cruz nunca parou de cantar e de compor, mas demorou para se ouvir um projeto seu mais concreto, com disco editado. Bom Dia, dos Pluto, banda também com Peixe na guitarra, foi um álbum quase injustiçado porque muitos ainda queriam era Ornatos e nem percebiam que a essência estava quase toda ali… “Prisão” é um grande exemplo…

“Algo Teu”  Bom Dia (2004), Pluto
… e “Algo Teu” é outro (grande exemplo) – É só o nada a bater-nos à porta

“Casa (Vem Fazer de Conta)” – Re-Definições (2004), Da Weasel
A música não é de Manel Cruz mas, sim, dos Da Weasel, feita em colaboração. Como tudo em que ele toca, virou ouro. A sua voz e rima estão presentes no refrão – e um tema já muito bom ficou um clássico.

“Borboleta”  O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu que Estraguei (2008), Foge Foge Bandido
Novo projeto e estreia-se logo com dois discos, cada um com 40 canções, acompanhados por um livro ilustrado com 140 páginas. “Borboleta” foi a que entrou logo no ouvido de quase toda a gente, e por lá ficou.

“Canção da Canção Triste”  O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu que Estraguei (2008), Foge Foge Bandido
Do mesmo álbum duplo, “Canção da Canção Triste” tornou-se um hino, um exemplo de como o simples pode ser absolutamente perfeito.

“Pai Natal”  Nada é Possível (2012), Supernada
O projeto, formado em simultâneo com os Foge Foge Bandido, só editou disco em 2012. Um álbum mais experimental do que nunca e, em alguns pontos, também mais rock, como mostra este “Pai Natal”.

“Ainda Não Acabei” – Manel Cruz (2017)
Parece que há disco para sair em março de 2018, mas ainda pouco mais se sabe sobre esta nova vida musical de Manel Cruz. Sabe-se o essencial: mais um clássico, um completo clássico, um dos mais surpreendentes temas do ano, com uma letra que parece, como todas as outras de Cruz, tocar no ponto da vida de quem ouve, na mouche. Ainda bem, ainda bem, que ainda não acabou.

Patrícia Naves
Foto: Rita Carmo