Lavoisier é uma banda com duas metades: Patrícia Relvas e Roberto Afonso. No activo desde 2012, cativaram a nossa atenção especialmente com É TEU, que foi lançado apenas há um par de meses. O nome da banda surgiu ainda em Berlim, cidade onde o duo se encontrava emigrado, e toma partido da máxima do químico francês – tal como na ciência, também na música nada se perde, nada se cria, tudo se transforma – o que faz sentido tendo em conta a miscelânea de inspirações que assumem. É já o próximo dia 24, pelas 21h45, que o Palácio Foz receberá os Lavoisier, no âmbito do nosso festival de Outono preferido, o Vodafone Mexefest. Em antevisão do concerto, a Punch esteve à conversa com a banda.

Este trabalho é uma obra mais cheia quando comparada com a anterior. Havia uma vontade de mudar/evoluir neste segundo LP?
A vontade de evoluir é constante. Quanto à mudança, ela existe sempre, não como vontade mas como necessidade. O “cheio” deste álbum é reflectido na quantidade de arranjos que existem em comparação com o Projecto 675. Quisemos explorar outra parte da composição, algo que, sendo nós apenas dois, nunca poderíamos fazer ao vivo. Por isso, em estúdio aproveitámos para deixarmos de ser dois para ser mil e, assim, potenciar a tessitura orquestral.

De que forma viverem noutro país vos fez apreciar, de outra forma, toda a herança cultural portuguesa?
O facto de termos vivido em Berlim, entre 2009 e 2013, fez com que conseguíssemos ver de fora o que nunca conseguimos ver de dentro, e isso traduziu-se na percepção de que o caminho do projeto passaria mais pela música cantada em português. Com um inevitável saudosismo, aprendemos a valorizar a música popular portuguesa. Como diria Fernando Lopes Graça: “A música popular portuguesa é bela, difícil é reconhecê-lo…”.

Têm tido sempre colaborações e adaptações de outros autores. Fazem isto como tributo à poesia e música portuguesa no geral?
Sim, existe uma atenção para com a nossa cultura. No entanto, dizer que é um tributo poderia encerrar em si mesmo a acção de o fazer, por isso achamos que seria mais justo dizer que é imperativo continuar a fazê-lo, com a mesma necessidade e responsabilidade que nos moveu desde o início. Conhecer o nosso cancioneiro, e o trabalho dos nossos escritores, é saber situarmo-nos no mundo, é saber traduzir o cheiro de uma oliveira ou castanheiro em devaneios musicais.

Vocês têm formação em artes. Pensam incorporar outras formas e meios no vosso projecto?
A formação que tivemos em artes introduziu a capacidade de questionar e formar discurso. As ferramentas que escolhemos para esse pensamento foram musicais, mas a matéria não pode ser escrava da condição. Logo, caso haja necessidade de introduzir outras linguagens num espectáculo de Lavoisier, assim o faremos.

O vosso som faz lembrar bandas e sons de outros tempos. Acharam que um som mais mínimo, restrito ao essencial, se integra melhor na ideia do grupo?
Restrito ao essencial parece-nos algo que valha a pena a luta. O som deste álbum teve a mão e o ouvido de um senhor muito importante para o panorama musical português, chamado José Fortes. Se aí se podem escutar algumas referências de sons de outros tempos? Sim, achamos que se poderá estabelecer um paralelismo. Na verdade, muitas das nossas referências são “sons de outros tempos”.

Continuam baseados em Berlim? Como é começar um projecto tão português, num país estranho?
Não, de momento estamos por Lisboa. Deambulando numa cidade longínqua, questões como o “cantar em Português”, ou fazendo música como português, hoje no Mundo, parecem brotar facilmente, A nossa melhor resposta ter-se-á traduzido na expressão musical. A experiência de tocar música em português, para quem não a entende, trouxe-nos mais a procura de uma musicalidade, que não se traduzia tanto pelo significado da palavra mas, sim, pelo seu som e pela sua expressão. Com muito menos “lírica” e com mais harmonia e dissonância. Sabemos que o percurso que escolhemos dita a música que fazemos, e nesse sentido não nos arrependemos da escolha.

A tour vai se restringir a Portugal?
Não, de todo. Estamos a organizar, para 2018, uma tour europeia, que gostaríamos muito que se estendesse até ao Brasil, outra vez, e também pela Ásia, aí pela primeira vez.

Podemos esperar uma continuação na expansão do som ou, até, dos elementos dos Lavoisier, ou dois é gente mais que suficiente?
Em estrada, dois é logisticamente perfeito. Por outro lado, em estúdio, a ideia de sermos muitos foi algo que ficámos com imensa vontade de repetir.

Nuno Camisa e Andreia Duarte