Os Trêsporcento são uma das bandas de cariz mais independente em Portugal. Não têm uma ligação forte a nenhuma editora e sempre quiseram criar a sua própria música. São rapazes que traçaram o seu próprio caminho. Em Abril deste ano editaram o seu terceiro álbum, Território Desconhecido. Este último trabalho é a prova de que é possível editar um álbum coeso e bem feito, mesmo não sendo músico a tempo inteiro, como é o caso dos membros deste conjunto lisboeta. É um álbum curto, mas que pretende mostrar a versatilidade da banda e talvez o seu lado mais negro. A produção deste álbum também teve a contribuição do músico Flak (Rádio Macau e Micro Audio Waves).

O álbum abre com a canção “O Sonho”, e é uma grande entrada. O som faz lembrar o rock português dos anos ’80, a voz e a forma de cantar faz lembrar o António Manuel Ribeiro, dos UHF. É uma canção que fala de inquietações e de como lidamos com os nossos sonhos logo pela manhã. Mas, sempre que há referências nas canções dos Trêsporcento, estas são sempre subtis e diluem-se sempre no seu estilo próprio.

Ao longo do álbum percebemos que as canções pretendem explorar uma faceta mais misteriosa. Questionam o tempo em que vivemos e vão buscar histórias que não foram bem digeridas. Há duas músicas que se destacam, que são: “Tempos Modernos” e “Stoner”. Na primeira canção falam de como os tempos que vivemos, hoje em dia, são muito diferentes do que eram há 30, 20 ou, até, há 10 anos atrás. Vivemos num período com estímulos diferentes. Isso faz a diferença na maneira como as pessoas tomam as decisões no seu dia-a-dia e na maneira como agem. Na segunda canção, somos acompanhados pelo ritmo mais melancólico de uma caixa de ritmos. Em “Stoner” fala-se de uma pessoa que partiu. Há uma certa desilusão e tristeza pelo que aconteceu. É uma canção simples, que nos deixa curiosos em relação a quem estará por detrás daquele imaginário contado.

Ao longo do álbum sentimos que as canções apresentadas são mais confessionais. São canções longas e lentas. Este som faz-nos lembrar algo mais ligado ao soft rock e ao dark rock. A banda não quer passar um chavão forte, que oiçam uma canção e depois vão embora. Há uma intenção clara de pôr as pessoas a pensar e a questionar. O videoclip da canção “Tempos Modernos”, por exemplo, é ilustrado com imagens aéreas do baixo Alentejo e da mina de São Domingos, com o objectivo de reflectir sobre a preservação da natureza e, também, de pôr em causa a exploração de petróleo ao largo da Costa Vicentina.

Os Trêsporcento são uma voz distinta no panorama da música portuguesa actual. Não têm tiques e cada membro tem o seu trabalho. A música para eles pode ser um escape, mas é algo que é feito com cuidado e intenção. E esperamos que continuem a cuidar da palavra e da música portuguesa.

Nota: 7.0/10

Rodrigo Castro