Mais uma vez, trocámos, de forma consciente, a loucura da Black Friday pelo corre-corre do nosso festival de quase Inverno preferido: o Vodafone Mexefest. O conceito é vencedor, o cenário da avenida é convidativo, e as salas são bastante diferenciadas, sem serem excessivamente distantes entre si para demoverem quem não está habituado a correr maratonas. Mais dedicado à produção nacional e, também, ao hip-hop que em anos anteriores, o festival encheu a Avenida da Liberdade de melómanos, que se iam dividindo entre as várias propostas a cada momento.

Pouco passava das 19h40 min quando PAULi subiu ao palco da sala Montepio, no cinema São Jorge, dando assim início ao festival naquelas instalações. PAULi, apesar da sua performance ter ficado marcada por alguns problemas com o seu microfone, soube dar a volta e compensar com um grande à vontade em palco. Produtor de melodias com grandes batidas, o seu hip-hop foi contagiante, proporcionando até uma dança a dois entre PAULi e uma fã que se encontrava no meio da plateia. Prometeu-nos uma viagem entre sons e correspondeu, tendo sido muito aplaudido no fim da sua atuação.

O cine-teatro Capitólio teve uma casa muito bem composta para receber a luso-britânica IAMDDB. Com muito entusiasmo, o público esperava a cantora e, quando esta chegou, foi muito aplaudida. Dona de uma voz feminina arrebatadora, IAMDDB revelou uma grande postura em palco, tendo até interagido com o público em português. Uma verdadeira festa no Capitólio, com grandes beats, IAMDDB ia transportando o público até ao clímax, que aconteceu com a música “Shade”. Convidando pessoas do público para irem ao palco dançar, esta música ilustrou bem a confiança de IAMDDB em produzir trap. Conquistou o público dando um verdadeiro espetáculo, com este último tema, e prometeu voltar a terras lusitanas, seu país de origem.

A peculiar sala Ermelinda Freitas, do Palácio Foz, foi palco do concerto dos Tomara, o primeiro concerto maior do novo projecto de Filipe Cunha Monteiro. Os ritmos calmos de Favourite Ghost condiziam com a tranquilidade do público que preenchia o pequeno espaço. Márcia e Samuel Úria foram chamados a palco, na música “House” (que começou por ser música de uma voz só, mas já no álbum inclui Márcia), e por lá ficaram. A banda ganhou duas vozes, e a guitarra e a harmónica de Úria, e o encanto multiplicou-se. Foi um concerto intimista, ao qual nos sentimos privilegiados por assistir, e que nos deixou especialmente hipnotizados com “Hope for the Best”.

Demos um salto à Casa do Alentejo e não resistimos ao gingar de ancas dos Fogo Fogo, que incendiavam a tradicional sala com o seu funaná. A boa disposição era geral entre todos aqueles que aproveitavam até ao último minuto para se dirigirem ao próximo espectáculo.

Quando os Washed Out tocaram os primeiros acordes, no Coliseu dos Recreios, ainda havia bastantes lugares por preencher. Ernest Weatherly Greene Jr., voz e mente do projecto, não se deixou demover e a banda começou o concerto com alguns dos seus temas mais fortes, procurando sempre interagir com o público aos primeiros acordes de cada música. Não tardou até que a multidão alastrasse e os corpos se começassem a agitar suavemente, com as ondas chillwave dos norte-americanos, perante coloridos vídeos em background. Ainda assim, talvez devido às nossas expectativas elevadas perante um dos nomes maiores do cartaz deste Vodafone Mexefest, talvez devido à hora matutina deste concerto para um festival, este concerto dos Washed Out não nos encheu totalmente as medidas.

O cinema São Jorge ficou lotado para ver a artista portuguesa Surma e percebe-se porquê. O concerto, com um ambiente bastante íntimo e caloroso, fez-se como uma viagem surrealista entre o tão bom experimentalismo que Surma produz, até ao seu post-rock intenso. Muito aplaudida entre temas, Surma, que possui um timbre delicioso, revelou dominar variados instrumentos, recriando ela própria uma banda completa em palco graças a viciantes loops. Com transições muito bem conseguidas, Surma, e a sua música carregada de intenções, chegou a arrancar lágrimas de alguns membros do público, enquanto mostrava o porquê de palcos maiores lhe estarem destinados.

Vodafone Mexefest ’17 – dia 24 – Uma noite de confirmações e ansiados regressos

Do outro lado da Avenida da Liberdade, foi um Tivoli completamente repleto que acolheu Manel Cruz. O público, de faixa etária mais elevada que noutros concertos do festival, sabia bem que não são muitas as oportunidades de (re)ver o poeta cantautor que tantas boas músicas nos ofereceu ao longo dos anos. Mais do que isso, este público vinha preparado para a veia experimentalista de Manel, que ganhou mais relevância com o projecto Foge Foge Bandido e até hoje lhe reconhecemos. De facto, a repetição do mote “Ainda não acabei” foi totalmente partilhada por toda a sala. Este single, lançado no início do Verão, foi o primeiro avanço do álbum prometido para 2018. Dele reconhecemos a escultura de uma orelha presente em palco, atrás da banda. Será esta uma pista para o álbum, que nos deu outro bom momento com “Beija Flor”? Avancemos. No bom sentido da coisa (claro!), Manel Cruz parecia uma criança no recreio, entusiasmada por partilhar com um público tão caloroso as músicas do seu Foge Foge Bandido, as suas experiências com vários instrumentos, a sua expressividade em todos os momentos. Excepção clara no Vodafone Mexefest, deste concerto (quase) ninguém arredou pé!

No cine-teatro Capitólio decorria, simultaneamente, o concerto de Valete. Este prometeu homenagear os pioneiros do rap português, naquele que foi um concerto, mas que poderia muito bem ter sido uma palestra. Fosse através de rimas enfurecidas e subtilmente certeiras ou através de intervenções entre temas, Valete mostrou que regressou para devolver ao rap português aquilo que ele perdeu: emoção. Uma atuação bem poderosa, que justificou a enchente de pessoas que se verificou no Capitólio para ver este embaixador do rap português. Entre alguns temas antigos e alguns singles recentemente lançados, Valete mostrou ainda um novo tema: “Johnnie Walker”, nunca antes revelada ao público. Muita energia fez deste concerto um dos melhores momentos musicais da noite.

Samuel Úria passou os olhos pela completa sala Manoel de Oliveira, do Cinema São Jorge, e perguntou “é mesmo nesta sala que vocês querem estar?”, antes de atacar de rompante o concerto. Brincando com o facto de ter sido uma confirmação de última hora no festival (perante o cancelamento de Jessie Ware), “deu-nos corda” com a segunda música. Retribuindo a contribuição no concerto dos Tomara, Filipe Cunha Monteiro juntou-se, nas teclas, em “Carga de Ombro”. Por entre trocas de galhardetes com Samuel, Gisela João ofereceu a sua voz no origina de Elvis, “Don’t” e “Lenço Enxuto”. Nesta última, que n’O Grande Medo do Pequeno Mundo é partilhada entre Úria e Manel Cruz, Gisela foi acompanhada apenas pela guitarra de Samuel, até ao crescendo final, ao qual a restante banda se juntou. A última convidada surpresa foi Ana Bacalhau, de vestido vermelho e cheia de garra, para mais um par de músicas. De destaque, o sentimento, comum aos concertos de Samuel Úria, de que estamos perante uma enorme família de amigos – este persiste.

Em Orelha Negra, o Coliseu dos Recreios quase que não chegava para tanta gente. Um mar de pessoas deslocou-se até aí para verem este grupo de artistas a fazerem a sua música e até alguns improvisos ao vivo. Uma actuação que abrangeu mais do que música, com uma tela à frente da banda durante a primeira parte do concerto, a transmitir imagens. Os Orelha Negra mostraram que, antes de músicos, são entertainers, e que estão bem é à frente de grandes públicos. Com uma capacidade de produzir instrumentais hipnotizantes, os Orelha Negra expuseram uma verdadeira montra musical, única e pioneira no panorama nacional. Como seria de esperar, os Orelha Negra aproveitaram para divulgar o novo álbum, homónimo, mas sem esquecer os seus grandes clássicos, tais como “Throwback” ou “M.I.R.I.A.M” que, para gáudio do público, foram tocadas à mistura com alguns improvisos de STK na mesa de mistura. Um dos grandes nomes do cartaz, os Orelha Negra são cada vez mais um sinónimo de casa cheia, e neste Vodafone Mexefest voltaram a cumprir com as expectativas.

Ainda de tímpanos a ressoar, era hora de regressar a casa e recarregar energias − o primeiro dia do Vodafone Mexefest ’17 estava feito. Foi uma noite de confirmações e ansiados regressos, pintalgada por alguns nomes mais recentes no panorama musical, como IAMDDB ou Tomara.

Texto:
Andreia Duarte (introdução e fecho, Tomara, Fogo Fogo, Washed Out, Manel Cruz e Samuel Úria)
Duarte Barreiros (PAULi, IAMDDB, Surma, Valete e Orelha Negra)

Fotografias:
Joana Viana e Liliana Gonçaves