No Sábado, dia 25, calçámos os nossos sapatos mais confortáveis e partimos para mais um dia de Vodafone Mexefest. De percurso bem planeado, para não perdermos pitada, foram muitas as vezes que seguimos avenida abaixo e avenida acima (e até o autocarro aproveitámos, para tal!). Este segundo dia manteve o foco no hip-hop, mas trouxe alguns doces para os amantes de melodias mais calmas e ternas.

A organização do Vodafone Mexefest decidiu voltar a apostar no Vodafone Bus, como sendo quase uma actividade em paralelo, e os Panado foram os escolhidos para animar o autocarro durante o seu percurso, no Sábado. Muito rock e animação, a festa foi evidente e constante por todo o autocarro que andou, por muito tempo, totalmente cheio. As melhores boleias são certamente no Vodafone Bus, que conjuga música, alguma comodidade, mas também loucura, q.b. Actuando na sala Manoel De Oliveira, do Cinema São Jorge, Aldous Harding foi recebida por uma sala cheia e muita expectativa no ar para a ouvir. Com o seu folk melancólico e algo gótico, Aldous Harding serviu-se também da sua voz, com um timbre muito seguro e confortável, para encantar o público que rapidamente se deixou hipnotizar pelos ritmos, deixando no ar um sabor introspectivo. Intimidade e intencionalidade caracterizam bem aquela que foi uma das actuações mais aguardadas pelo público. Do outro lado da avenida, não foram poucos os festivaleiros que escolheram o Teatro Tivoli para o seu início de noite. Apresentando-se sozinho, ao piano, Luís Severo aqueceu os corações presentes com as suas músicas melosas.

Todo o entusiasmo, que se vinha a gerar desde a confirmação de que os Cigarettes After Sex viriam actuar, culminou num Coliseu dos Recreios quase lotado para os receber. Uma autêntica moldura humana recebeu a banda que, apesar de toda a agitação, transparecia muita calma e paz, tal como as suas músicas, sempre marcadas por alguma melancolia que levam quase a um tipo de adormecimento. Estas, quer marcadas mais pela guitarra ou pela bateria mantinham o registo de intensidade, intencionalidade e introspectividade que caracteriza o mais recente álbum do grupo liderado pelo vocalista e poeta, Greg Gonzalez. O Coliseu dos Recreios deve ter assistido a um dos concertos mais íntimos e românticos dos últimos anos, não sendo de admirar os muitos casais, dos mais velhos aos mais novos, na plateia que se deslocaram para, em jeito de oração, experienciar esta aparição dos Cigarettes After Sex em terras lusas. Um concerto à medida da expectativa gerada, para rejúbilo de muitos, levando até muitos membros do público às lágrimas.

Vodafone Mexefest ’17 – dia 25 – Entre hip-hop e cigarros românticos

No palco Super Bock, situado na Garagem EPAL, Vaiapraia e as Rainhas do Baile faziam o (baixo) tecto tremer. O panelei punk chegava pela voz de Rodrigo, que não parava um segundo em palco, pelas cordas de um rosto dourado, adornado com plumas, e sobretudo, pela constante bateria. Reconhecemos de imediato o grito de “Rapaz #1″, que quase deitou a sala abaixo. A estação Vodafone.FM, localizada na estação ferroviária do Rossio, encheu-se, e de que maneira, para ouvir os Childhood. Com muita energia, o grupo britânico levou ao delírio os fãs com os seus saltos e movimentos, mas também com a sua actuação endiabrada, que proporcionou um ambiente verdadeiramente electrizante. Do seu indie-rock, ficaram na retina os grandes crescendos, pautados pelas três guitarras enlouquecidas em palco que, ao atingirem o clímax, rapidamente se desdobravam numa grande fusão de instrumental com as vozes secundárias, que tão bem acompanhavam o vozeirão de Ben Romans-Hopcraft. O palco ajudou e muito na atmosfera, acolhedor, mas ao ar livre. A organização do Vodafone Mexefest acertou em cheio na atribuição do palco, resultando num dos grandes concertos da noite.

Julia  Holter conquistou o público om a sua mestria no piano e a sua impactante voz desde o primeiro momento, argumentos mais do que suficientes para silenciarem o repleto Teatro Tivoli. Julia apresentou melodias doces associadas a uma gravidade premente, numa distinção ao ritmo frenético do festival. Entre músicas novas, menos novas e experiências, Julia permaneceu imperturbável mesmo perante os abandonos precoces por parte de algum público – assim age quem tem como sua a história que quer contar. Allen Halloween fez o cine-teatro Capitólio encher-se de pessoas e certamente que nenhuma delas se arrependeu. Uma actuação muito intensa e algo pesada, fruto das realidades relatadas nas músicas do rapper português, que contou com muitos temas antigos, mas também alguns temas “antigos mas novos”. Passamos a explicar: Allen Halloween está a preparar um álbum só de acústicos e, como tal, alguns temas antigos sofreram agora alterações, que foram demonstradas em palco, para grande felicidade do público, tendo sido o momento da noite. O vocalista dos Liars, Angus Andrew, captou as atenções do público assim que subiu a palco de saia de tule e véu. Numa estação Vodafone.FM a rebentar pelas costuras, o punk-rock electrónico deste norte-americanos contagiou os presentes, servindo temas não só do mais recente álbum, TFCF, mas também dos anteriores.

A extraordinária banda que acompanha Moullinex, o alter-ego de Luís Clara Gomes, presenteou o Coliseu dos Recreios com uma energia contagiante e, estoicamente, o público que enchia a sala tinha ainda muita vontade de dançar, apesar dos dois intensos dias de festival que já trazia nos ossos. Os músicos trouxeram consigo Hypersex, o mais recente álbum, e, mesmo aqueles que começaram o concerto sentados nas bancadas, já exorcizavam demónios com dança pela altura em que “Love Love Love” lhes chegou aos ouvidos. Fecho do festival com prata da casa do melhor calibre.

O balanço do Vodafone Mexefest ‘17 é bastante positivo e, mais importante que os quilómetros percorridos (que foram muitos!), foram os músicos que tivemos oportunidade de ouvir. Não escondemos, gostamos desta excepção anual em que tomamos como aceitável descobrir e abandonar concertos a meio, tal é a oferta (e as sobreposições) ao longo da Avenida da Liberdade. Findos estes dois dias, resta-nos dar descanso ao corpo e aceitar a realidade que os funcionários municipais nos lembravam ao longo da noite, ao montarem as iluminações – o Natal está mesmo quase aí.

Texto:
Andreia Duarte (introdução e fecho, Luís Severo, Vaiapraia e as Rainhas do Baile, Julia Holter, Liars e Moullinex)
Duarte Barreiros (Panado, Aldous Harding, Cigarettes After Sex, Childhood, Allen Halloween)

Fotografias:
Joana Viana e Liliana Gonçaves