“O Príncipe é português.” Assim que começa a descrição do press-release sobre o primeiro álbum de Príncipe e o seu concerto de apresentação. Príncipe também é conhecido como Sebastião Macedo. O jovem músico faz parte dos Ciclo Preparatório e também esteve ligado ao universo da editora Azul Tróia. Com um historial ainda curto Príncipe revela-se agora com o seu primeiro álbum, A Chama e o Carvão. Talvez seja um jovem metido consigo mesmo, mas é alguém com portugalidade dentro de si e com algumas referências interessantes.

No meio musical nacional a melancolia fica a cargo do fado. Sempre foi um género que fica associado a este sentimento e vai continuar a sê-lo. Na cultura pop portuguesa são poucos os artistas que conseguem levar o seu lado mais sombrio avante. Não é fácil. Nunca vai ser. Não somos um povo que se abre facilmente. Normalmente nós gostamos de deixar tudo nas entrelinhas, sem ser muito óbvio. Príncipe deixa tudo nas entrelinhas, tudo meio entrelaçado. Tem o seu o beat, a sua palavra e exprime-a neste álbum de forma simples e sem recorrer a grandes alaridos sonoros. Mostra ser alguém delicado e com um toque suave para criar canções de embalar.

Se o James Blake viesse a Portugal, eu convidava-o para um concerto do Príncipe. Parecem ser almas compatíveis. Mas sobretudo têm sonoridades compatíveis. O pop lo-fi feito no quarto é algo que estes dois artistas têm em comum e é algo que lhes assenta bem. Na primeira música do álbum, “Dalí” assume logo que não é feliz e que gostava de “viver num quadro do Dalí”. Uma canção que assemelha a uma declaração de intenções. O desejo de viver numa realidade surrealista, mostra uma pessoa que gostaria de viver outras vivas e noutros mundos. Mas um sonhador é sempre assim.

O resto do álbum consegue dar-nos músicas sempre com o mesmo ritmo e sintonia. Exceptuando a canção “Lago dos Suspiros”, que é um pouco mais acelerada e um pouco mais alegre. Mas há duas canções que se destacam: “Cabeças de Vento” e “O Duelo”. Na primeira canção que se destaca, “Cabeças de Vento” é uma adaptação de música de Amália Rodrigues (“Cabeça de Vento”) e foi escrita por Armando Machado e Linhares Barbosa. Nesta música há nitidamente uma roupagem mais pop e leve. No segundo destaque, a música “O Duelo”, tem a declamação de um poema de José Régio, “Cântico Negro”, pelo João Villaret. É sem dúvida um dos momentos mais interessantes do álbum. Tem muito dramatismo e isso chama atenção de quem ouve esta canção. Há ainda uma colaboração de notar na canção, “Dois Terços Do Que Sei”, onde João Figueiredo participa tocando guitarra portuguesa.

No fundo estamos perante um sólido álbum de apresentação e que de certo terá oportunidade de mostrar ao vivo em 2018. Bem pensado e que consegue ter uma construção fluída entre todas as músicas. Ficamos com a sensação que tudo encaixa. Príncipe abre-nos ao seu mundo e depois cabe ao ouvinte escolher se quer entrar nele.

Nota: 7.5/10

Rodrigo Castro