Uma ocasião tão especial que motivou um CCB cheio a aplaudir, aplaudir e aplaudir de forma histérica, de pé ou sentado este grupo de músicos tão ilustres e harmónicos que nem sempre se juntam para demonstrar a sua mestria, falo pois de Bruno Pernadas Ensemble e de Ricardo Toscano. Foi no passado dia 15 de Dezembro, pelas 21h10 que Bruno Pernadas subiu ao palco com o seu Ensemble e, lá no meio, discretamente Ricardo Toscano subia também ao palco sem antecipar qualquer tipo de pressão ou nervosismo por ser convidado especial e peça fundamental deste concerto.

O primeiro indício de que o que estava prestes a acontecer seria mágico foi a quantidade de músicos em palco. Afonso Cabral e Francisca Cortesão constituíam as  vozes convidadas, Margarida Campelo assegurava o piano, teclados e também voz, João Correia dominou a bateria, Nuno Lucas o baixo elétrico, Diogo Duque no trompete, João Capinha e Raimundo Semedo no  saxofone, Raquel Merrelho, com segurança, no violoncelo e João de Andrade no violino. Mestre para toda a obra, Bruno Pernadas tratou da composição, exclusiva, de músicas para este concerto enquanto fazia a sua quota-parte na guitarra e nos teclados. Ricardo Toscano fez, e muito bem, o que lhe coube no saxofone alto. Alguns solos, muitos aplausos, simples.

“Rewind” foi o primeiro tema exclusivo para este concerto a ser tocado e com ele sucedeu-se a primeira, de muitas ao longo deste concerto, salva de aplausos. Muito jazz e algumas brincadeiras originárias do rock ilustram mais uma vez o génio em Bruno Pernadas enquanto compositor. O público, no qual eu me incluo, teve a oportunidade rara de ouvir um violino e violoncelo tocando tão harmoniosamente com perfeitas complementaridades entre ambos, sempre acompanhados pela vivida bateria e pelo baixo que embalavam nesta demonstração magistral, sem precedentes, do significado de algo ser “instrumental”. Ricardo Toscano, para gáudio, dos espectadores mais velhos e de outros não tanto assim mais novos, foi simplesmente sublime nos seus diversos solos ao longo do concerto e de algumas transições que também ele foi capaz de ,e muito bem, assumir. Com um dom muito seguro e melódico, Ricardo Toscano terá arrebatado alguns, se não muitos, corações da plateia.

Entre alguns temas conhecidos como “Spaceway 70″ que já fazem parte dos corações dos fãs, Bruno Pernadas trouxe-nos mais dois temas inteiramente novos. O primeiro, de seu nome, “Emotional Validation” parece descrever uma cena de namorico, quase como uma narrativa de um slow que apesar de frágil é também intencional e apaixonado. Transições “saxófonicas” simplesmente deliciosas guiam esta narrativa onde todos os instrumentos assumem funções exceto os vocalistas que se limitam a ouvir esta história sem palavras. “Down the west sun” , apesar da possível mudança de nome anunciada por Bruno Pernadas, foi o segundo tema exclusivo que nos foi apresentado. Um Jazz vibrante e feliz que sabe bem ao ouvido tal é a genuinidade com que é tocado atraiu muita vontade de dançar e de celebrar a música enquanto arte. Ricardo Toscano, mais uma vez em evidência, a solar como os grandes nomes do Jazz mundial, foi muitíssimo aplaudido durante longos segundos.

A terminar mas com direito a encore, “Galaxy”  veio mesmo a calhar dado o crescente entusiasmo no auditório. De transições imaculadas e ritmos incendiários a vozes extremamente acolhedoras até ao clímax protagonizado por Ricardo Toscano e o seu saxofone que foram sem espaço para dúvidas a cereja no topo do bolo.

Encerrando o CCBeat 2017, Bruno Pernadas e companhia mostraram o porquê de já merecerem um lugar nos holofotes da música portuguesa, evidenciando que o Jazz português está de boa saúde e recomenda-se.

Duarte Barreiros
Foto: Joaquim Simões