Se colocarmos um olhar atento sobre James Blake vamos descobrir que, em quase dez anos a tocar em nome próprio, a sua discografia é já algo extensa. O músico britânico conta com três álbuns de estúdio e seis EPs. O universo musical de James Blake inicia-se em 2009 com o single “Air & Lack Thereof”, um tema que consegue dar um vislumbre do que será este artista e o seu ambiente musical dai em diante, passando pelo R&B ou soul, e tendo quase sempre uma camada eletrónica.

O primeiro EP de James Blake, The Bells Sketch, sai em 2009 e conta com apenas três temas. Esta é a apresentação do mundo eletrónico e post dubstep que tão bem caracteriza este artista. Carregado de sintetizadores pujantes e muitos samples – algo que é natural de Blake –, inicia-se, ainda com poucas vozes, esta característica discográfica tão assente. CMYK (2010), o seu segundo EP, começa com uma marcação de guitarra que dá a ideia de um alarme, um bom alarme que nos alerta para a construção musical imensa que aí vem. Seguem-se samples vocais e baterias que nos fazem acelerar o passo. Sucede-se “Footnotes”, sob a alçada de sintetizadores robustos e vocais quase robotizados que nos transportam para este universo eletrónico criado por James Blake. Um feeling R&B urbano é trazido por “I’ll Stay” e “Postpone”, terminando em boa forma este segundo EP.

“Klavierwerke” é o tema de abertura para o EP homónimo (2010) que, diferenciando-se daquilo que já era existente, começa com sons de um simples piano, logo sucedido por um beat que vai conduzir todo este tema. “Tell Her Safe” é a música que se segue e, antes que comece o “frenesim” sintetizado, é apresentado um momento de vozes a remeter para um gospel tímido, porém alterado. O EP prossegue com “I Only Know – What I Know Now”, um tema que transporta o ouvinte para ambientes ecoados e distorcidos, onde a construção musical, camada a camada, se vai concretizando – um procedimento que se identifica no trabalho de James Blake. “Don’t You Think I Do” é o tema que fecha este quarteto de canções. O álbum homónimo deste artista surge em 2011 e traz consigo onze temas. Trata-se assim de uma versão maturada de coisas que o músico britânico já tinha apresentado nos EPs anteriores. Destacam-se os temas “The Wilhelm Scream”, uma cover da música “Where to Turn” do seu pai, James Litherland; “Limit to Your Love”, também uma cover, desta vez de Feist, transformada num post  dubstep minimalista e íntimo, suportado por um baixo muito marcado e potente. Os álbuns homónimos costumam trazer sempre algo especial ou característico, neste caso existe a marcação de estilo muito próprio que só James Blake consegue trazer. É a afirmação do artista na indústria musical do seu género.

Enough Thunder (2011) é o EP que sucede o primeiro álbum de James Blake e traz consigo dois temas muito especiais: “Fall Creek Boy Choir”, é um tema feito com Justin Vernon, dos Bon Iver, e como já é hábito, o falsetto de Justin está presente, bem como as várias camadas de vozes que já são tão características daquilo que James Blake faz. O segundo tema destacado é uma cover da música “A Case of You”, de Joni Mitchel, e é assim interpretada de uma forma simples e frágil por James Blake, apenas com a sua voz e um piano. É quase uma música “despida”, comparando com aquilo que o músico britânico tem por hábito fazer, mas funciona, e bem! Ainda em 2011 surge mais um EP, Love What Happened Here, desta vez com apenas três temas. Destaca-se o tema que dá nome ao álbum, “Love What Happened Here”, uma música marcada pelos teclados sintetizados e muito potentes, que vai crescendo em complexidade ao longo da sua duração. Várias camadas vão surgindo, seja de voz, samples ou outros instrumentos, que vão dar origem a um tema bastante rico. “At Birth” dá continuidade ao EP e mostra-se uma música mais descontraída e sem grande complexidade, oferecendo um ambiente “dançável” e relaxado. Para fechar existe “Curbside”, uma audível tentativa num ambiente mais experimental e sem guia definido, à exceção das percussões que são uma constante durante todo o tema.

Em 2013 surge o álbum Overgrown, este que será, até à data, o álbum mais eclético de James Blake, distanciando-se um pouco dos dois últimos EPs. Muito aclamado pela crítica internacional, este álbum tem as proporções certas do mundo eletrónico/post dubstep e de apenas uma voz e um piano sozinhos. Overgrown é um espectro onde existe espaço para diferentes sonoridades funcionarem entre si, quer a vontade destas seja transportar o ouvinte para um mundo completamente diferente da realidade, ou apenas darem a esse mesmo ouvinte um reflexo de realidade. São notáveis as diferenças entre a música mais primária, influenciada pelos primeiros anos de atividade como músico – o chamado “bedroom artist”-, e o R&B bem trabalhado e muito polido. A densidade que este álbum carrega torna-o no trabalho mais completo de James Blake até ao momento. É de salientar que, no dia 30 de outubro de 2013, este álbum ganhou o Mercury Prize para álbum do ano, destronando os favoritos Laura Mvula, Disclosure e David Bowie.

O sexto EP lançado por James Blake, 200 Press EP (2014), foi visto como resultado de um tempo para a experimentação e exploração. É notável a liberdade que o artista concedeu a si próprio para poder tornar a sua música muito mais experimental, não ficando preso a dois ou três géneros musicais. Foi um tempo de imersão do artista na sua própria criatividade. Esse tempo de imersão traduziu-se em “200 Press”, com um início R&B e muitos samples vocais. “200 Pressure” traz um ténue fio condutor que quase se torna despercebido com os vários elementos sonoros que lhe são adicionados. Desprovido de uma melodia vocal ou instrumental, os samples tomam conta deste segundo tema. “Building It Still” traz de novo o ouvinte para o universo dos teclados sem distorção. Sonoridades mais límpidas e claras são agora usadas – é o momento de calma e reflexão do EP, ainda que se note que esteja a ser conduzido por um beat disfarçadamente assertivo. “Words That We Both Know” perpetua este momento de paz, encerrando o EP.

Em 2016 sai o mais recente álbum de James Blake, The Colour in Anything. Este é um álbum longo, e considerado por alguns, em demasia. O músico britânico colocou no seu último disco dezassete temas. O álbum foi influenciado com a participação de Justin Vernon, tendo este dado parte das vozes que se ouvem em “I Need a Forest Fire”, mas também dando ajuda à escrita e produção de outras músicas. O cantor e compositor norte-americano Frank Ocean foi uma parte ativa na escrita do tema “My Willing Heart”, sendo esta mais uma colaboração de peso para um trabalho já complexo. The Colour In Anything é o resultado de toda a experiência que este músico foi colhendo ao longo da sua discografia. Embora seja amado por alguns e detestado por outros, este último disco é certamente um reflexo da mente criativa e poderosa que James Blake possui.

É percetível que os primeiros trabalhos de James Blake foram servindo de inspiração e base para os seus temas mais atuais. A metamorfose musical ouvida ao longo da sua discografia dá a garantia de uma maturação da sua experiência. James não opta nunca por estagnar no tempo e está sempre a experimentar e a procurar novos sons de forma a poder garantir aos seus temas diversas texturas e camadas. É com esta mentalidade que o músico britânico se tenta sempre superar, tendo na mira um universo musical cada vez mais alargado. 

João Conceição