Um dos nomes mais sonantes do Lisboa Dance Festival 18′ é, sem dúvida, Octave One! A sua experiência e  constante exploração de frescas novas paisagens sonoras permitiu aos dois irmãos de Detroit tornarem-se um nome incontornável de qualquer playlist de Dj nas últimas décadas. Os seus hinos inovadores, hipnotizantes e energéticos prometem contagiar a pista de dança de Marvila desde o primeiro ao último segundo. Antes da sua actuação no festival, quisemos saber um pouco sobre a sua infância, os seus pseudónimos, o cenário actual da música electrónica em Detroit, a sua experiência enquanto roadies, entre outros. Tratou-se de uma entrevista bem aliciante, que nos relembrou que este concerto é algo a não perder!

Como é que foi a vossa infância em Detroit? Para além dos vossos pais vos terem inscrito em aulas de piano, eles foram uma grande influência na vossa carreira musical? Qual é que foi o ponto de partida para os Octave One?
A nossa infância foi como qualquer pessoa…. teve os seus altos e baixos, mas a maioria das vezes foi muito divertido. Fora a nossa mãe ter-nos obrigado a ter essas aulas disciplinares de piano, que, como era de esperar, nunca as percebemos ou gostámos, ambos nos encorajaram a prosseguir com os nossos sonhos, desde que isso nos fizesse feliz. Até aos dias de hoje, a nossa mãe escolhe as músicas que gosta mais e aquelas que geralmente nos caracterizam melhor!

O nosso ponto de partida foi o primeiro lançamento pela Virgin 10 / Transmat e foi uma faixa intitulada “I Believe”, que tinha os vocals da Lisa Newberry.

A vossa carreira começou na década de 90, portanto o vosso processo criativo deve ter alterado, e muito, durante estes anos todos, não? Quais é que foram as influências na altura em que começaram?
Sim! Começámos no final dos anos ’90, mas o nosso processo criativo é praticamente o mesmo desde que começámos. Um de nós pode ter uma ideia para uma música e começar e/ou mesmo quase a acabar, e depois chegamos a um ponto em que nos juntamos um com o outro para fazer o resto. [ah ah] Não, mas agora a sério, trabalhamos e refazemos as coisas um do outro, para termos um projeto final em que ficamos os dois orgulhosos e contentes!

A principal diferença relativamente a esse tempo é, talvez, os instrumentos que temos hoje em dia. Na altura, tivemos de vender alguns instrumentos velhos para pagar a renda e para comprar novos instrumentos, que claramente mais tarde – para voltarmos a ter as sonoridades velhas – fomos recomprar a preços exorbitantes… ouch!

É impossível fazer-vos uma entrevista e não falar do vosso single “Black Water”! No início do processo criativo e na masterização, alguma vez pensaram que iria ser um sucesso mundial?
Não, não fazíamos a mínima ideia que iria ser um sucesso… um de nós começou a trabalhar em algo bastante excitante e nós fizemos-lhe pressão para ele o finalizar! Depois de o ter lançado, a nossa querida amiga Ann Sauderson fez-nos pressão e escreveu letras maravilhosas e tocantes para a produção do mesmo! Foi um processo bastante divertido e emocionante, quase como um passeio de montanha-russa que não trocávamos por nada no mundo!

Li algures que vocês em tempos foram roadies! Como é que isso aconteceu? Foi uma experiência positiva?
Sim, em tempos fomos roadies, a carregar o material de outras bandas. Tal começou nomeadamente porque tínhamos de pagar a renda e porque queríamos arranjar trabalho. Um de nós era contratado e, quando abria outra vaga, puxávamos o outro. Conhecíamos outra banda que precisava de roadies e puxávamos outro irmão, e assim sucessivamente. E, para que fique registado, preferimos o termo de técnicos de estrada, é um nome muito mais profissional… [ah ah] Nah, roadies é porreiro!

Claro que a experiência foi muito positiva, assim como inspiradora. Não há nada melhor do que ouvir pessoas a tocarem as mesmas músicas, vezes sem conta, noite após noite, mudando-as constantemente. E quando pensas que já conheces a música de trás para a frente e que não podem alterar mais nada, eis que eles dão um toque que não estás de todo à espera! É a experiência ao vivo!

Vi algumas fotografias do hardware que levam para cada espetáculo e tenho de dizer que é uma coleção gigantesca! Especialmente porque vocês utilizam nomeadamente hardware analógico! Para cada um de vocês, qual é o instrumento mais importante que levam para cada espetáculo?
SIM! Nós levamos imensos “brinquedos” para cima do palco. Alguns analógicos, alguns digitais, mas definitivamente tudo hardware! Bem, uma das peças teria de ser o MPC1000, porque nenhum espetáculo podia começar sem ele (é o cérebro do hardware) e, provavelmente, o Adrenalin para adicionar e dar mais ênfase ao output do cérebro.

Vocês são considerados membros integrantes da “Second Detroit Wave”! Para vocês, quais é que são as principais diferenças entre os dois movimentos/vagas? Qual é cenário atual de Detroit? Conseguem falar-nos de alguma jovem promessa?
Sim, nós fazemos parte da segunda vaga de artistas techno de Detroit! Realmente, a única coisa que separa a primeira da segunda vagas é o facto da primeira incluir um pequeno número de artistas que construíram a base. Assim que as bases foram construídas, apareceu a segunda vaga de artistas inspirados no espírito de ingenuidade dos seus antecessores, assim como pela mesma paixão pela recém arte acabada de criar. Nós só queríamos incutir o nosso input e contribuir para o espírito pioneiro, assim como desenvolvê-lo.

Claro que a cidade de Detroit continua musicalmente radiante, com uma nova e vibrante “vaga” de artistas que conseguem carregar a tocha! Temos a certeza que existem artistas como nós, que adoram sonhar e criar, e que também nós iremos continuar sempre a inovar e a criar. Sinceramente, não nos conseguimos lembrar de algum artista promissor, porque saímos de casa há bastante e mudámos para uma nova cidade, com uma diferente paisagem sonora… mas Detroit será para sempre a nossa casa!

Para além do alias de Octave One, vocês já lançaram música através de outros dois pseudónimos: “Random Noise Generation” e “Never on Sunday”! Qual é a origem destes outros pseudónimos, e porque é que decidiram criá-los? Queriam ser mais criativos e explorar novas paisagens sonoras?
Octave One foi o nosso despertar para a criação, mas a verdade é que não tardou até que tivéssemos outras ideias, que fizeram com que tivéssemos de criar outros pseudónimos, para que conseguíssemos explorar e desenvolver os processos criativos que não se enquadravam com a experiencia dos Octave One. Random Noise Generation levou-nos a arenas onde tocámos e brincámos com samples, para criarmos música com secções vocais que na realidade não eram frases, eram bocados de sons de várias palavras, que criavam autênticos cânticos! Aliás, podem ouvir isso na nossa primeira música editada pela RNG, “Falling in Dub”. Mesmo assim, queríamos explorar ainda mais com sonoridades de ambiente, que expressassem o nosso “eu”. Por isso criámos “Never on Sunday” para explorar esses conceitos e levá-los avante.

Com quase trinta anos de carreira, de certeza que têm muitas histórias. Aqui vão três perguntas rápidas: Qual é que foi o concerto mais memorável; qual o país onde queriam ir tocar acima de qualquer outro; qual foi o episódio mais estranho ou cómico que já vos aconteceu?
Há imensas histórias, para dizer a verdade! A mais memorável foi, sem dúvida, o primeiro concerto que demos (no clube Motor em Hamtramck), onde um de nós ia fazer ia fazer um dj set primeiro, e depois o outro iria tocar ao vivo a seguir ao dj set. Tínhamos tanto material em cima do palco, que o o irmão que começou o dj set acabou por ajudar o outro em cima do palco, e assim nasceu o novo espetáculo ao vivo! Não houve ensaio nenhum, foi o que saiu, naturalmente… poucas são as pessoas que, até aos dias de hoje, não ensaiaram juntos, enquanto banda, antes dos ensaios! Preferimos que tudo seja muito à base da improvisação e que a liberdade e criatividade fluam durante o set. Está tudo relacionado com o que sentimos no momento, em vez de ser algo ensaiado, como um apontar do dedo ao ar!

Há algum artista com quem vocês gostavam de fazer uma colaboração? Ou uma banda que gostariam de fazer um remix?
Ele não é propriamente um novo artista, mas para nós é relativamente novo: Childish Gambino. Não sabemos porquê, mas provavelmente iríamos criar algo bastante interessante juntos. Não conseguimos pensar numa banda que gostaríamos de fazer um remix neste momento, mas claro que, de tempo a tempo, há musicas que aparecem e não te importarias de dar um toque.

Vocês já vieram a Portugal umas quantas vezes, aliás, no ano passado estiveram no Neopop. Como é que foi o concerto? O que acham do público português? Podemos esperar algumas mudanças no set? O que podemos esperar do vosso set no Lisboa Dance Festival?
Já estivemos em Portugal bastantes vezes mesmo, e o concerto do ano passado no Neopop foi no mínimo divertido e incrível. E nós adoramos a resposta dos fãs aí… a sensação e o ritmo que recebemos dos fãs daí não tem comparação possível! Tentamos não esperar o quer que seja do público, onde quer que vamos atuar, mas a verdade é que, tendo em conta os encontros passados, acreditamos que não vamos ficar desiludidos com o público daí!!!

Lúcio Roque