Príncipe lançou no passado dia 1 de Dezembro o seu primeiro álbum, A Chama e o Carvão, e uma semana depois fez o concerto de apresentação no Popular de Alvalade, rodeado de amigos e de muitos curiosos. O jovem músico, Sebastião Macedo, que também pertence aos Ciclo Preparatório, parece lançado numa carreira a solo que varia entre o pop lo-fi e o intimismo. A Punch Magazine esteve à conversa com o mais recente membro da nobreza portuguesa. Príncipe é o seu nome e uma das nossas apostas portuguesas para 2018

Comecei a fazer umas músicas. Mostrei a poucas pessoas. E, curiosamente, das cinco músicas que tinha gravado, duas delas eram mais calmas. Eu fiz essas músicas a pensar que provavelmente ninguém iria gostar. Mas foram essas que as pessoas gostaram mais. Aí pensei, se calhar posso seguir mais por aqui. Alguém sugeriu pôr a guitarra portuguesa porque já tinha os arranjos feitos. Experimentei com o João Figueiredo e depois acabámos por gravar a música “A Prova” para os Novos Talentos Fnac em 2013.

Sentes que foi difícil começar algo mais pessoal?
Não tem nada a ver com ser pessoal. Mesmo as músicas dos Ciclo Preparatório, muitas delas fazia sozinho. Tentar ser uma coisa que não existe, isso é que foi mais difícil. E tentar arranjar uma maneira de me exprimir que fosse genuína. Aqui não estava a tentar ser nada, aqui estava tentar ser o que devia ser. A ideia surgia e tentava seguir esse ambiente. As ideias para músicas não têm de ser necessariamente melódicas, pode ser só uma textura ou uma imagem.

O contexto onde cresceste influenciou o tipo de musica que estás a fazer?
Talvez, mas não conscientemente.

Há diferenças na abordagem entre Príncipe e os Clico Preparatório?
Em termos práticos, não. Mas em termos psíquicos, sim. Bastante, bastante diferente. Mas está ficar cada vez menos diferente, por acaso. Em Príncipe posso explorar temas que eu não tenho de estar lá, eu não sou relevante, posso ir mais fundo, posso arriscar mais. Em Ciclo Preparatório é preciso equilibrar, como em qualquer relação.

Sentiste que te estavas a expor demasiado ao escrever estas músicas?
No início sim, talvez. A primeira música que foi  ”A Prova”. Até não podia não ter nada a ver em concreto comigo, mas foi qualquer coisa que saiu, pareceu que tinha alguma beleza e gravei-a.

Não estavas à espera da reacção das pessoas?
Não mesmo. O mundo onde estava habituado a tocar, quando comecei as bandas era mais a fazer aquilo que já existe, que é rock, que é fixe de ouvir e imediato. Mas não passa de uma certa uma superficialidade, que está cada vez mais espessa. Aqui estava a seguir um caminho completamente diferente.

O que é que te motivou a fazer este álbum?
Foi claramente porque comecei a perceber que podia ajudar algumas pessoas, apesar de poder parecer algo utópico. Houve vários momentos em que não me apetecia fazer aquilo. Aquilo não é um ambiente em que tivesse prazer em estar, sinceramente. Mas já desde que comecei a fazer música, que percebi que era dos poucos poderes que podia ter. Há certas coisas que tu sentes que não podes fazer e ali indirectamente se calhar podes orientar algumas coisas para melhor. É um bocado irrealista, mas na altura fez sentido. Aquilo pode ter força, ter poder e mudar alguma coisa.

Para ti é mais fácil escrever uma canção sozinho ou acompanhado?
As únicas músicas que os Ciclo Preparatório escreveram juntos era sempre em separado. Um escrevia uma parte e outro escrevia outra. Depois juntávamos. Acho que chegámos a escrever uma coisa juntos, um verso acho eu. Acabas sempre tentar seguir a tua visão e tens de estar aberto a perceber quando ela está errada. Isso é bom quando os outros contribuem. Mas depois gosto de fazer uma música em conjunto. Depois da ideia já estar desenhada, fazer em grupo é muito mais fácil.

A identidade portuguesa e a sua língua perdeu-se um pouco nas ultimas décadas?
Não é tanto o perdeu-se, mas ás vezes não encontras. Elas podem estar cá no presente. Por vezes tenho uma ideia, lembro-me que algo existia e vou procurar. As primeiras coisas que encontro são do passado.

Tu tens referências mais adultas, a Amália ou José Régio. Como é que elas vieram ter a ti?
Havia vários discos em minha casa. A minha mãe até gosta de poesia. O caso da Amália foi algo aleatório, um dia descobri que tinha a música “Cabeça de Vento” no meu computador, ouvi e achei das músicas mais bonitas. Depois quis mostrar a música a um amigo meu. Ele estava a mostrar uma música de reggae, mas o computador dele encravou. Eu entretanto mostrei esta música da Amália, só que depois o computador começou a tocar a música reggae outra vez. As músicas sobrepuseram-se e explodiram ideias na minha cabeça.

Quais são as referências literárias que te continuam a inspirar no teu dia-a-dia?
Eu não vou tanto procurar quando preciso de escrever, mas quando não estou a fazer música gosto de ler poesia. Depois noto que algumas coisas têm algumas semelhanças. Os poetas que li foi muito Sebastião da Gama, António Nobre e Florbela Espanca. Eça de Queirós quando era mais novo lia muito, ou Camilo Castelo Branco.

É difícil conjugar o teu estilo mais pop com os autores que usaste no teu álbum?
Era, se pensasse que estava fazer músicas pop. Eu não estou a pensar no refrão que vai ficar no ouvido, eu faço aquilo que vai tornar a mensagem mais clara naquele momento.

Tu consideras-te uma pessoa nostálgica?
É inevitável pensar que o passado foi fixe. Mas a verdade é que nunca o vives tanto como quando lá estiveste. Por isso é algo que é uma perda de tempo. Dou valor ao que já aconteceu, mas nunca se deve dar demasiado valor.

O que te fascina mais na cultura portuguesa e nos portugueses?
Associo sempre Portugal a luta, e há sempre uma força que ninguém consegue descrever.

Rodrigo Castro