Passados 3 anos após o lançamento do seu segundo, e muito apreciado, álbum  The Beast Shouted Love, os Beautify Junkyards apresentam-nos agora The Invisible World of Beautify Junkyards. Produzindo um folk psicadélico misturado com batidas tropicais, este grupo de lisboetas procura superar-se neste terceiro álbum gravado em colaboração com a editora inglesa Ghost Box Records.

A fusão entre um folk psicadélico e algo efervescente com sons que lembram sensações tropicais revela uma certa influência vinda da música brasileira e das suas guitarras acústicas tão intrínsecas e melódicas. “Ghost Face”, música que abre o álbum, é isto mesmo, é o resultado de estilos musicais muito diferentes liderados por uma componente vocal angelical e o resultado é o início da intensa viagem que este álbum transmite. “Prism” é o terceiro tema deste álbum, e aqui é percetível e palpável a intensidade espiritual que este álbum carrega. Ao som de tambores originários do estilo brasileiro e da percussão associada, esta música adquire uma expressão psicadélica quando o teclado vai, suavemente, surgindo, introduzindo assim o cunho do, também explorado, folk psicadélico. Em “Half Marble”, o grupo vocal constituído por João Branco Kyron e Rita Vian, é peça fundamental na condução da melodia. Ambos donos de vozes com sonoridades de arrepiar, fazem lembrar um mundo perdido, repleto de fadas e de experiencias puras, talvez daí o nome do álbum, “The Invisible World”. Como todas as viagens, este álbum tem um ponto de viragem. “Echo Chamber”, com apenas 1 minuto de duração, é esse ponto de viragem onde o acid-folk dá lugar ao tribal e exótico.

“Aquarius”, oitavo tema deste álbum, nem parece ser dos mesmos intérpretes das restantes músicas. A melodia levada pela percussão e pelo violoncelo dá a ideia de se tratar estilo de influência brasileira mais tradicional, no entanto, com o decorrer da música, dá-se uma fusão entre estes instrumentos já em ação, e um teclado delirante que acompanha e realça as vozes, como sempre, angelicais. Apostando na sonoridade acústica e num autêntico melting pot sonoro, os Beautify Junkyards exploram uma musicalidade mais tribal em “Shelter”. Estilo este que rapidamente se dissipa e dá lugar a uma verdadeira experiência tropical, lembrando o nosso tão próximo Brasil e o seu ambiente criativo livre mas carregado de intenções que ganham força e expressão através da líricas. Seguindo esta linha de produção, surge “Claridade”. Com uma voz feminina a ter lugar de destaque, é impossível ao ouvinte não ficar com o refrão na cabeça, neste tema que é quase como um canto de sereias: leve, melódico, simples mas perspicaz. A terminar esta sequência de temas de influências sonoras mais expansivas, chega-nos o 12º tema deste álbum, “Sorceress” que retoma as líricas em inglês e o tom vocal mais encantado, como se de um feitiço se tratasse, sem esquecer a tão simples e concreta guitarra acústica que conduz, em conjunto com o grupo vocal, o ouvinte.

Aprofundando um lado mais psicadélico, os Beautify Junkyards criaram “The Masque of Hidden Garden”. Esta música, que poderia muito bem ser banda sonora cinematográfica de grandes enredos e batalhas cheias de intensidade, é profundamente marcada, mais uma vez, pelo grupo vocal, que de resto é transversal ao álbum. O baixo também adquire especial relevo neste tema e demonstra toda a sua intencionalidade ao marcar o ritmo da “introdução” deste tema em conjunto com a voz. A explosão sonora dá-se com a introdução da, sempre bem conseguida, percussão fazendo com que a música adquira um estilo e ritmo completamente diferente do que era previsível. Os teclados que até agora adquiriam uma posição secundária, saltam para a ribalta em “May Day Eve”, sendo peça fulcral na criação melódica deste exemplar de folk psicadélico que beneficia, e muito, da utilização de instrumentos de percussão não usuais a este estilo de música.

Com um estilo sem igual, os Beautify Junkyards estão numa verdadeira missão ao desbravar mato e quebrando barreiras entre estilos outrora tidos como inconciliáveis. De Lisboa para o mundo, este grupo extremamente diferenciado arrisca-se a definir um novo estilo musical entre o acid-folk inglês e o estilo tropical brasileiro. Com 2 álbuns na bagageira e muitos admiradores a nível internacional, os Beautify Junkyards não estão para abrandar. E como este grupo de amigos oriundos da capital portuguesa, também o seu sucesso e reconhecimento não parece vir a abrandar.

Nota: 7.7/10

Duarte Barreiros