A música electrónica em Portugal tem diversos rostos, já teve várias fases e consegue ir buscar referências a vários sub-géneros. Desde os anos 90, no tempo dos Underground Sound of Lisbon, até aos dias de hoje, em que temos o Branko, dos Buraka Som Sistema. Há músicos, produtores e artistas a dar cartas neste género musical e a fazerem música de grande qualidade. GPU Panic pode não mostrar ainda grandes ambições, por agora (principalmente porque está envolvidos noutros projectos), mas tem uma veia electrónica muito apurada e refinada.

Para quem não conhece GPU Panic, este músico dá pelo nome Guilherme Tomé Ribeiro. O seu principal projecto musical são os Salto, partilhando o palco com Luís Montenegro. Actualmente, colabora com outros músicos, principalmente com Moullinex, com quem tem tocado regularmente. Também tem um outro pseudónimo, UhAhUh, com o qual fez um featuring em “Paiting by Numbers”, no último álbum de Moullinex, Hypersex. O percurso do Guilherme, como GPU Panic, começou em 2016, no Red Bull Music Academy Montreal, no Canadá. Nessa academia, juntamente com músicos emergentes de todo o mundo, pôde criar os seus primeiros temas e apresentá-los no festival, que acontecia em paralelo com a academia.

Em consequência da participação no festival, GPU Panic lançou um EP homónimo. As três faixas que compõem o EP têm nomes de cidades: “Tanger” em África, “Bangkok” na Ásia e “Cayucos” na América. Os nomes e as sonoridades de cada faixa foram, muito provavelmente, influenciados pelos contactos e afinidades que fez na academia, mostram como o GPU Panic soube buscar (e bem) vários ambientes e culturas, para explorar nova música e descobrir-se um pouco. Em “Tanger”  conseguimos perceber algumas influências do rock tuaregue. O som é mais primitivo e cru, sempre numa linha consistente, que consegue pôr os ouvintes num cenário mais quente e árido, tal como um deserto. Na segunda música, “Bangkok”, deixa transparecer algo misterioso, uma cidade corrompida pelo turismo massificado. A agitação das grandes metrópoles asiáticas é sentida e percebemos que há uma certa esquizofrenia na música. Por fim, este EP de estreia, apresenta-nos “Cayucos”, que é uma cidade na costa oeste do EUA. Esta música é mais serena, tem uma linguagem mais marítima e faz lembrar um pouco de artistas como Tycho ou Washed Out.

O segundo EP de GPU Panic intitula-se Sand Haze. Saiu já no final de 2017 e tem quatro faixas. Neste trabalho assume uma faceta totalmente laboratorial, como o próprio disse no programa Ginga Beat da Red Bull Rádio, “Para mim vai ser sempre uma experiência”.  Na canção “Breathing”, logo a abrir o EP, sentimos esse pulsar exploratório. Com quase dez minutos de duração, este primeiro tema prolonga-se até onde GPU Panic se sente mais confortável. É isso que acontece nas outras faixas, são todas de longa duração. Não é que tivessem de ser, mas neste contexto de experimentação fazem sentido. Por vezes, podemos fechar os olhos e deixar-nos guiar para um universo mais distante.

No fundo, tal como indica o nome do EP, Sand Haze, neblina de areia em português, tudo é muito incerto e opaco. Este conjunto de músicas são muito orgânicas e partem do estado de espírito do próprio artista. As performances ao vivo podem seguir vários caminhos, isso pode ser o mais interessante. Nada é estático. A música electrónica tem essa capacidade de se moldar às situações, aos públicos e aos espaços. GPU Panic parece querer descobrir ainda qual o seu ambiente, público e espaço, também. Por enquanto, podemos ouvi-lo descobri-lo na internet e dar espaço para sua transformação enquanto músico.

Guilherme Tomé Ribeiro vai levar GPU Panic ao Lisboa Dance Festival, que decorre nos dias 9 e 10 de Março no Hub Criativo do Beato, em Lisboa. Também estarão presentes neste festival nomes como Joe Goddard, NAO ou Xinobi.

Rodrigo Castro