Estamos de volta com o “Ensemble“! Para quem é novo nestas andanças, esta é a rubrica da Punch dedicada ao Jazz.  Pretendemos dar a conhecer as novidades do género e os projectos mais entusiasmantes, relembrar discos, histórias e nomes consagrados deste mundo.

Hoje temos um nome que promete deixar uma marca no panorama musical português, os Loosense. Antes que se comece o debate entre “isto é jazz” e “isto não é jazz“, foquemo-nos no que interessa, que é louvar os artistas pelo seu trabalho.  Este grupo, proveniente de Setúbal, vive no mundo do instrumental de fusão, com pilhas de groove e a molhar o pé numa onda mais neo-soul. Em 2014, Diogo Costa, pianista clássico, e Pedro Nobre, baterista de linguagem mais jazzística, decidem começar a compor as suas músicas. O imaginário instrumental do jazz fusão despertava neles um grande fascínio devido a esta capacidade, quase camaleónica, de misturar influências de vários estilos. Motivados pelas composições de artistas como Snarky Puppy, Chick Correa, Herbie Hancock e Hiatus Kaiyote, os dois chamaram quatro amigos seus para completar o coletivo: Gonçalo Mahú (teclas), Diogo Marrafa (guitarra), João Completo (baixo) e Zé Zambujo (sax.). Em 2017 gravaram no Estúdio Vale de Lobos o seu primeiro álbum de originais, chamado Doze.  Até hoje, lançaram online apenas duas faixas do seu álbum, “West Ghost” e “Wide Road”.

Em “West Ghost” temos um riff tocado em simultâneo pelo sax, guitarra e piano, o que implica, à linha melódica em questão, um grande peso na composição. É um riff que fica na orelha e que eu próprio já fui apanhado a cantar na minha cabeça. A seguir a isso, a bateria de Pedro Nobre oferece a base perfeita para os Diogos explorarem a harmonia do tema, enquanto ouvimos o Zé Zambujo puxar pelos pulmões, para nos dar aquele belíssimo solo. Depois disto partem para uma parte B, onde entram os sintetizadores e um groove de gente grande, que leva ao solo de guitarra de Diogo Marrafa, solo esse muito bem executado por sermos capazes de ouvir a melodia e a harmonia do tema, nas notas que ele escolhe. Para fechar o tema, o grupo aproveita o final do solo de guitarra para subir as dinâmicas da banda, até chegar ao topo, onde isto se quebra e somos deixados com o sintetizador e o saxofone a fechar a malha.

Na segunda faixa, enunciada acima, é inegável a influência do neo-soul e do hip hop no encadeamento rítmico do tema. O reverb da guitarra faz imediatamente lembrar o início de “Bitch Don’t Kill My Vibe“, e o ritmo funk que imprime à restante harmonia é notável. Os fill’s de bateria são complexos e aludem à onda neo-soul do grupo. Tendo sida apresentada a premissa deste tema, somos metidos entre uns chases, protagonizados entre Diogo Marrafa e Zé Zambujo. Se, na primeira música, o papel de João Completo, apesar de muito importante para manter a coesão e ligação entre todas as secções da banda, passou despercebido, desta vez os seus colegas não deixariam que isso se repetisse. O grupo inteiro baixa o volume para lhe dar uns compassos de solo, onde pôde apresentar os efeitos do seu baixo elétrico, até que a banda retoma as dinâmicas iniciais, para acabar, outra vez, em grande.

É de louvar a coragem, necessária, que este grupo de malta nova teve, para se aventurar na exploração da linguagem jazzística e na sua fusão com outros géneros musicais. Mais de louvar ainda é a qualidade e o brio com que isto é feito. Parece que já andam nestes “campeonatos” há anos.

Para quem quiser acompanhar estes jovens, a 15 de fevereiro vão tocar no bar O Bom o Mau e o Vilão, dia 17 desse mês vão ao mítico Bafo de Baco, em Loulé, e voltam a Lisboa dia 9 de março, para agitar a noite dos clientes do Tokyo. Coisas boas como esta não aparecem todos os dias, por isso, não percam estes rapazes de vista, que nós também não.

Francisco Botelho de Sousa